A compra e venda de lixo ou como os países ricos fazem da Ásia um aterro

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31 Mai 2019

A Europa produz muito lixo. O ritmo é tal que os restos acabam sendo exportados e importados para um sistema de comércio de resíduos que é articulado em escala internacional. Desta forma, os países europeus vendem parte de seus resíduos para serem tratados, reciclados e, na melhor das hipóteses, revalorizados. Nesta comercialização de resíduos, os países americanos, africanos e asiáticos também participam. Em outras palavras, o mercado inclui, à sua maneira, os países em desenvolvimento, que às vezes se tornam os principais importadores de sujeira do planeta.

A reportagem é de Alejandro Tena, publicada por Público, 28-05-2019. A tradução é do Cepat.

Até pouco tempo atrás, a China era um dos principais importadores de lixo espanhol. No entanto, a má reputação do país asiático em questões ambientais fez com que promovesse medidas drásticas para restringir a compra de lixo de outros estados. Essa medida foi interpretada por grupos ambientalistas, na época, como uma oportunidade para reprimir o modelo de gestão de resíduos e avançar para um sistema muito mais comprometido com o Planeta. No entanto, as mudanças não chegam e o aterro chinês parece ter se mudado para a Malásia. O Estado malaio tornou-se um dos principais países importadores de plástico, um material que acaba sendo despejado nos mares ou incinerado, devido à difícil reciclagem.

A Espanha ocupa o oitavo lugar no ranking dos países exportadores de plásticos para a Malásia, de acordo com os dados do Departamento Nacional de Gestão de Resíduos Sólidos do país asiático. Além disso, é o sexto estado da União Europeia na lista de exportadores de plásticos para países asiáticos, com uma média de 318.926.161 toneladas.

Embora as normas de importação e exportação europeias sejam claras e envolvam restrições sobre materiais que podem ser vendidos a países subdesenvolvidos, há também o tráfico ilegal de resíduos. Isto foi evidenciado na semana passada, quando o ministro do Meio Ambiente da Malásia denunciou a chegada de resíduos ilegais em seus territórios. Isso fez o Equo apresentar uma iniciativa no Congresso para esclarecer os fatos e perguntar ao governo se a Malásia é "o novo destino dos resíduos, após a proibição da China".

Em declarações ao Público, o deputado do Equo, Juan Lopez de Uralde, adverte que o problema não tem a ver só com os resíduos ser exportados ilegalmente para esses países, mas com o sistema de resíduos em si. “Estamos utilizando esses países como aterros sanitários”, diz o político ambientalista, observando que esses países não têm capacidade industrial para gerenciar adequadamente os resíduos plásticos.

O Ministério da Transição Ecológica (MITECO) informa que o Governo está em contato com as autoridades da Malásia para auxiliar em qualquer tipo de infracção relacionada ao tráfico ilegal de resíduos. Além disso, destacam que o Executivo de Sánchez tem apoiado de forma consistente as recentes reformas da Convenção de Basileia - normativa que regula o comércio de resíduos - para impedir que os materiais mais tóxicos e difíceis de reciclar possam ser exportados a países subdesenvolvidos.

Apesar dessa recente reforma, um relatório da GAIA (Global Alliance for Incinerator Alternatives) revela que as importações de resíduos plásticos recicláveis para países asiáticos, como Tailândia, Malásia e Vietnã têm aumentado significativamente desde que a China endureceu sua legislação para a importação de lixo . "A Tailândia teve a maior porcentagem em termos do aumento das importações de resíduos plásticos no mundo, com mais de 1000%", alerta o estudo.

O plástico, o principal problema

Os países europeus tendem a reciclar localmente os materiais plásticos mais simples em seu tratamento de reciclagem, como o polietileno tereftalato (PET) e o polietileno de alta intensidade (HDPE), mas o restante dos materiais é geralmente exportado para estados em desenvolvimento "O problema central é o consumo massivo de produtos plásticos descartáveis", explica Alba García, responsável pela campanha de plásticos do Greenpeace, acrescentando que na Espanha "cerca de 50 milhões de recipientes de bebidas são postos em circulação todos os dias", dos quais 30 milhões não se sabe para onde vão”.

O tráfico ilegal de resíduos e a falta de concordância dos dados divulgados pelos organismos espanhois colocam em dúvida a eficiência do sistema de reciclagem, que "chegou a um teto", segundo o Greenpeace. Desta forma, Ecoembes - uma das principais fundações de reciclagem da Espanha - indica que os números para o tratamento de materiais plásticos são de 78,8%. Um número muito maior do que se apresenta em organizações ambientais e até mesmo no próprio Ministério da Transição Ecológica, que em seus últimos dados fala de uma porcentagem de plásticos reciclados de 45,46%. Isso significa que mais da metade dos objetos compostos por esse material acabam perecendo em aterros sanitários.

"Estamos há muito tempo colocando o dedo na ferida do sistema Ecoembes. Todas as embalagens colocadas no mercado pagam uma taxa para a sua reciclagem, mas essa reciclagem não ocorre ", explica López de Uralde, que se remete ao relatório Maldito Plástico, no qual se denuncia que os números de materiais plásticos reciclados na Espanha não chegam nem sequer a 30%. Além disso, do Greenpeace explicam que o otimismo dos números tratados por Ecoembes tem a ver com o fato de que a organização só responde pela reciclagem de embalagens domésticas leves.

De MITECO, detalham que "o atual governo da Espanha, por sua parte, trabalhou nos últimos meses no desenvolvimento da Estratégia de Economia Circular e em um Mapa de Rota para Plásticos na Espanha, com um plano de ação até 2030". Apesar disso, as organizações ambientais espanholas, em sua denúncia da falta de transparência do sistema de lixo espanhol, exigem medidas radicais que permitam reduzir o consumo de produtos compostos por este material.

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