Plástico: um grande responsável pela poluição marinha. Entrevista especial com Monica Costa

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Por: Patricia Fachin | 26 Junho 2018

Apesar de o plástico não ser biodegradável como os materiais orgânicos, que retornam ao estado de CO2 e água, “do ponto de vista químico, todo plástico é reciclável”, diz a oceanógrafa e mestra em Química Monica Costa à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone. O problema com esse tipo de material, adverte, não é em relação à possibilidade de reciclagem, mas à excessiva escala de consumo, que torna a reciclagem inviável. “A mudança de hábitos que ocorreu depois da Segunda Guerra levou a uma mudança do padrão de consumo, a qual foi direcionada para avanços tecnológicos, e, possivelmente, o maior avanço tecnológico foi a manipulação do plástico”, relata. Com a mudança nos hábitos de consumo pós-guerra, explica, o plástico se tornou “extremamente desejável, barato, viável, interessante, fortemente ligado à alimentação, à saúde, à prática de esportes, às tecnologias espaciais e às tecnologias que permitiram explorar o fundo do oceano. Tudo isso se tornou dependente de plástico. Com isso, o consumo se tornou estratosférico, imprevisto e está muito além da nossa capacidade de lidar com os resíduos gerados”, informa.

De acordo com a pesquisadora, atualmente não existem muitas alternativas tecnológicas para dar ao plástico um uso mais nobre e digno. Apesar disso, adverte, “precisamos olhar para o plástico não como um resíduo, mas como uma matéria-prima extremamente nobre que nos custou muito dinheiro, energia e recursos naturais e, portanto, não podemos jogá-lo fora”.

Monica Costa | Foto: UFPE

Monica Costa acompanha as implicações do plástico nos oceanos desde 1999 e, segundo ela, aproximadamente 10% de todo o plástico produzido pela humanidade já está depositado nos oceanos. “Nessa época era difícil ver alguma coisa, mas hoje em dia é cada vez mais frequente assistirmos a cenas como aquelas das baleias sem rabo: elas ficam presas em resíduos plásticos e só se soltam se arrancam seus rabos. Esse tipo de situação foi aumentando e hoje estamos no máximo de percepção dela, mas tenho a impressão de que ainda veremos essa situação piorar antes que as nossas ações consigam surtir algum efeito de reversão nesse processo. A tendência é que não consigamos limpar o oceano e tirar todo o plástico que está depositado nele. Talvez consigamos limpar e tirar uma parte grande, aquela que ainda pode ser removida mecanicamente, mas a parte que foi fragmentada e virou microplástico não poderá ser retirada”, alerta.

Monica Costa é doutora em Ciências Ambientais pela University of East Anglia, na Inglaterra, mestra em Química pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio e graduada em Língua, Literatura e Civilização Francesa pela Université Nancy 2, na França e em Oceanografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. Atualmente leciona na Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Por que o plástico se tornou, em termos ambientais, um dos maiores desafios a serem enfrentados neste século? É por conta da impossibilidade de degradação desse tipo de material ou há outras razões?

Monica Costa — Essa questão que você menciona é a razão química. O plástico não se degrada facilmente; ele sofre alguns tipos de degradação como, por exemplo, a fotodegradação, que é a exposição à luz, e a degradação física, que é a fragmentação. No entanto, ele não faz a biodegradação, como fazem os materiais orgânicos, que retornam ao estado de CO2 e água. Além dessa razão química, existem razões sociais e mercadológicas que também contribuíram para esse processo: depois da Segunda Guerra Mundial a sociedade mudou muito — mudou mais rápido do que em 100 anos do século XIX até a Segunda Guerra. Essa mudança de hábitos que ocorreu depois da Segunda Guerra levou a uma mudança do padrão de consumo, a qual foi direcionada para avanços tecnológicos, e, possivelmente, o maior avanço foi a manipulação do plástico: inventamos o plástico, dando a ele praticamente a forma e a utilização que quiséssemos. Essa mudança do padrão de consumo fez com que o plástico se tornasse extremamente desejável, barato, viável, interessante, fortemente ligado à alimentação, à saúde, à prática de esportes, às tecnologias espaciais e às tecnologias que permitiram explorar o fundo do oceano. Tudo isso se tornou dependente de plástico.

Hoje em dia temos dificuldades com os resíduos oriundos do plástico porque o consumo se dá em quantidades muito maiores do que a nossa capacidade de lidar com o que resta desse material. Essa é a razão pela qual ele está tão disseminado no meio ambiente, porque depois que usamos o plástico não sabemos o que fazer com ele. Ainda não temos tantas alternativas de tecnologia para retornar esse material para um uso mais nobre e digno. De todo modo, precisamos olhar para o plástico não como um resíduo, mas como uma matéria-prima extremamente nobre que nos custou muito dinheiro, energia e recursos naturais e, portanto, não podemos jogá-lo fora. Quando jogamos fora o plástico, também estamos jogando fora energia, recurso natural e muita tecnologia.

IHU On-Line — Muitas embalagens plásticas apresentam o selo de produto biodegradável. O plástico chamado de biodegradável representa uma diferença considerável no consumo e na reutilização do plástico?

Monica Costa — Em princípio, do ponto de vista químico, todo plástico é reciclável. No entanto, dada a escala de consumo de plástico atualmente, nem toda a quantidade de plástico gerada pela sociedade é verdadeiramente reciclada, apesar de que tecnologicamente poderíamos estar explorando isso. O que acontece é que alguns plásticos são reciclados tantas vezes, que eles perdem algumas propriedades importantes. Esse material poderia ter outra destinação, mas o problema é recolhê-lo e alcançar um volume suficiente para que ele seja destinado adequadamente. Então, aquilo que vem escrito na embalagem é parcialmente verdade, porque alguns plásticos não são reciclados não por falta de tecnologia, mas por falta de economia de escala.

Se nos empenhássemos em trabalhar em um circuito fechado, em que todo plástico que fosse fabricado pudesse ser usado à vontade por todo mundo, desde que no final de sua vida útil ele voltasse para dentro de um processo de reciclagem, o plástico que não poderia ser usado para absolutamente mais nada seria muito pouco, como as embalagens de batata frita, biscoito e alguns tipos de copos; o problema é recolher esse material em escala.

IHU On-Line — Que percentual do plástico produzido no Brasil é reciclado? Qual seria o melhor modo de enfrentar as dificuldades acerca da reciclagem de plástico?

Monica Costa — Eu não sei informar esse número, mas do meu ponto de vista de cidadã um pouco mais esclarecida, porque trabalho com isso, diria que esse percentual é pequeno. O pior gargalo é o caminho de volta, porque o plástico é injetado na sociedade com muita rapidez e eficiência, é barato, extremamente bem aceito e tem usos que, às vezes, nos surpreendem. Mas o problema é o caminho de volta, de sempre fechar esse ciclo.

IHU On-Line — A reciclagem do plástico está contida na Política Nacional de Resíduos Sólidos - PNRS. Quais são as diretrizes da PNRS acerca desse tipo de reciclagem?

Monica Costa — Sim, esse tipo de reciclagem está contido na Política Nacional de Resíduos Sólidos e em lei. O que não está bem resolvido são as diretrizes, as normas específicas. Apesar de a PNRS ser elaborada em cima da logística reversa, não conseguimos fazer a regulamentação desses setores específicos, assim como não conseguimos retirar do mercado aquele tipo de material que já sabemos que não vamos conseguir reverter, como, por exemplo, as bandejas de isopor e o filme que é usado para embrulhar os produtos nessas embalagens.

Temos que lutar para que a logística reversa seja atendida, seja eficiente e desejável pelo mercado de materiais recicláveis, e temos que retirar do mercado os materiais que não serão facilmente reciclados. Tudo o que precisamos já está na lei e na Política Nacional de Resíduos Sólidos; o que carecemos no momento é de uma regulamentação dos setores individuais.

IHU On-Line — Qual é a dificuldade de aplicar a logística reversa? A dificuldade maior é do consumidor ou do fabricante?

Monica Costa — Existe problema com os dois, porque ainda passamos por uma desigualdade social muito grande, e a desigualdade separa as pessoas das mais diversas formas. A questão das possibilidades de tratamento de resíduos é uma delas. Então, as pessoas não são só excluídas das escolas, dos hospitais e da habitação, mas são excluídas também do processo de reciclagem de matéria e energia da sociedade. Hoje, no Brasil, o nível de exclusão social reforça o problema do plástico, porque algumas comunidades são atendidas por serviços públicos e/ou privados que lidam com resíduos com tecnologias de ponta, enquanto existe uma massa da população que não é atendida por nenhum serviço. Essa discrepância tem que ser revertida e reduzida, porque, caso contrário, não haverá teoria de logística reversa e legislação nem fabricante que deem conta desse problema.

Quando a garrafa de refrigerante, por exemplo, sai da indústria e vai para o supermercado, ela vai atingir algumas comunidades onde será tratada como um material nobre. Mas essa garrafa também atingirá comunidades, rincões do nosso país, bolsões de pobreza, onde, após ser utilizada, não saberão o que fazer com ela. Por isso, é altíssima a probabilidade de que não haja controle sobre essa garrafa. Se não houver algum tipo de gasto público ou privado para que essa garrafa retorne a uma linha principal de coleta, ela vai se perder. Portanto, é preciso um ajuste tanto do consumidor quanto do produtor.

Por isso acredito muito nas novas economias, nas economias que investirão na parte social, porque muitas empresas hoje conseguem enxergar nessas dificuldades uma oportunidade de negócio. Essas empresas, possivelmente, irão transformar a forma de funcionamento das cooperativas de catadores. Catador é uma profissão que não deveria existir, não deveríamos mais falar nessa palavra, que é horrorosa; deveríamos estar falando de trabalhadores que trabalham com materiais recicláveis. As pessoas não deveriam ter que catar, elas deveriam estar recebendo para prestar esse serviço à sociedade.

IHU On-Line — Há alguns anos se discutiu no país a legislação sobre o uso de sacolas plásticas nos supermercados e alguns estados cogitaram proibir o uso dessas sacolas, mas a medida não teve adesão popular. Por que, na sua avaliação, ainda há resistência nesse sentido?

Monica Costa — A discussão em torno do uso da sacola plástica faz parte de um ciclo: agora estamos discutindo o uso de canudos e de cotonetes, mas já tivemos a discussão do copinho e da sacola. Todos esses ciclos vêm e vão, mas o importante é que eles continuem aparecendo e que não deixemos a peteca do debate cair, porque não será no primeiro ciclo de debate que esses itens ou outros semelhantes serão eliminados. Talvez a questão das sacolas terá que ser discutida 20, 30 vezes até chegarmos a uma solução viável. A mesma situação acontece com os copinhos, que estão sendo demonizados há muitos anos, mas mesmo assim ainda vemos copinhos plásticos circulando por aí.

Eu mesma me vejo, muitas vezes, refém do copinho, porque chego a um restaurante ou uma lanchonete e peço uma lata de refrigerante, mas não tenho coragem de beber direto na lata. Diante dessa situação, tenho duas opções: usar o canudo ou o copo. Se peço um copo, o garçom traz um copo plástico, e se peço um copo de vidro, ele diz que não tem. Para resolver esse tipo de problema, eu passei a andar com dois copos na minha bolsa: um copo de plástico duro, desses infinitamente reutilizáveis, que uso para água e refrigerante, e outro copo menor, para café. Mas quantas pessoas andam com dois copos na bolsa hoje em dia?

IHU On-Line — Como o depósito de plástico nos mares tem impactado os oceanos? É possível estimar qual é o percentual de plástico depositado nos oceanos hoje em dia? Pode nos dar exemplos de como a biodiversidade marinha tem sido afetada por conta disso?

Monica Costa — Existem estimativas, em nível mundial, de que uma quantidade significativa, em torno de 10% do plástico produzido na história, está nos oceanos hoje; isso é muito plástico. A situação, quando vamos ao ambiente, é crítica. A frequência com que temos nos deparado com exemplos de interação do plástico com organismos marinhos, principalmente os animais, está aumentando violentamente.

Comecei a trabalhar com plástico no mar em 1999. Nessa época era difícil ver alguma coisa, mas hoje em dia é cada vez mais frequente assistirmos a cenas como aquelas das baleias sem rabo: elas ficam presas em resíduos plásticos e só se soltam se arrancam seus rabos. Esse tipo de situação foi aumentando e hoje estamos no máximo de percepção dela, mas tenho a impressão de que ainda veremos essa situação piorar antes que as nossas ações consigam surtir algum efeito de reversão nesse processo. A tendência é que não consigamos limpar o oceano e tirar todo o plástico que está depositado nele. Talvez consigamos limpar e tirar uma parte grande, aquela que ainda pode ser removida mecanicamente, mas a parte que foi fragmentada e virou microplástico não poderá ser retirada.

IHU On-Line — O que é o microplástico e como ele impacta a cadeia alimentar marinha?

Monica Costa — Tecnicamente, microplástico são partículas menores que cinco milímetros. O microplástico no oceano, geralmente, tem duas origens: ou já chegou daquele tamanho ao mar, vindo da indústria petroquímica ou de um nanoplástico dos cremes, sabonetes ou creme dental, ou é o resultado da fragmentação de alguma coisa maior, como um balde, um carro, uma parte de navio ou rede de pesca.

Tudo o que é feito de plástico sofre degradação física e ressecamento e vai se quebrando, mas o microplástico é extremamente complicado, porque pode ser de qualquer polímero, pois todos os polímeros que usamos podem se fragmentar e virar microplástico, embora eles tenham formatos e densidades diferentes.

Em termos de interação com a fauna, os microplásticos são mais perversos, porque quanto menor for o microplástico, mais animais vão ingeri-lo, e esse é um dos problemas. Se antes o plástico estava prejudicando os golfinhos, as baleias e as tartarugas, agora o microplástico aumentou o problema, porque essas partículas pequenas estão sendo ingeridas até pelo plancton [organismos que vivem em suspensão na água e encontram-se na base da cadeia alimentar dos ecossistemas aquáticos]. Agora estamos com um problema muito sério, pois temos uma situação totalmente fora de controle.

Os microplásticos podem ser colonizados por microrganismos que, se ingeridos, vão parar no trato intestinal dos animais e soltam ali dentro tudo que absorveram na água; o trato intestinal pode ficar entupido de bolinhas plásticas. Todo esse material vai para a corrente sanguínea, para o sistema nervoso central, para o rim, para as gônadas dos animais. E esse plástico volta para dentro da nossa casa quando consumimos animais marinhos. Hoje, em alguns lugares, como na União Europeia, o microplástico já é um assunto de segurança alimentar.

IHU On-Line — Além do plástico, que outros elementos compõem o lixo marinho ou contribuem para que esse lixo aumente?

Monica Costa — Além do plástico, existem os poluentes clássicos, como o esgoto com organismos patogênicos, como os medicamentos que ingerimos e que vão para o esgoto, os cosméticos, ou seja, todos os produtos que usamos em nosso corpo, produtos de limpeza doméstica, hospitalar e industrial, o óleo e os metais, produtos que são utilizados na pecuária, produtos veterinários, produtos utilizados na agricultura, vidros, madeiras, fibras, tanto sintéticas quanto naturais, e até a poluição atmosférica, que eventualmente é transportada para o mar em forma de fumaça de combustão de ônibus e de caminhão. Ou seja, tudo o que observamos no nosso entorno está presente no mar.

Neste ano elegemos falar dos plásticos, mas todos esses fenômenos de poluição acontecem juntos. Logo, quando uma comunidade marinha é atingida por microplástico, ele não vem só, ele vem acompanhado de um aumento de outros problemas ou, às vezes, esse plástico chega a uma comunidade que já está estressada por outros poluentes e, com isso, a poluição cresce em progressão geométrica. Além dos poluentes químicos, existem as poluições físicas — sol, calor e luz —, que também são prevalentes em muitos ambientes costeiros. Estamos interferindo de forma muito pesada no ambiente marinho.

IHU On-Line — Que regiões marinhas do país estão mais contaminadas hoje?

Monica Costa — Regiões próximas de grandes cidades e portos são as mais contaminadas, porque ali existem todas as fontes de poluição. Exemplos são as grandes cidades costeiras, como Rio de Janeiro, Salvador e Santos. Mas isso não quer dizer que em outros lugares não existam também evidências da nossa interferência; a evidência está em toda parte. No entanto, o tamanho do sinal a ser detectado é sempre pior quanto mais perto estivermos de grandes cidades e grandes portos.

IHU On-Line — Que iniciativas são feitas no Brasil para reduzir a poluição marinha no oceano? O enfrentamento desse tipo de poluição é responsabilidade de quem? Existe uma gestão compartilhada dos resíduos?

Monica Costa — A teoria diz que todos somos responsáveis pela poluição marinha, tanto no plano de evitá-la quanto no plano de tratá-la. O que existe hoje no Brasil é uma obrigação dos municípios, que frequentemente é repassada para os estados e até mesmo para a União, em relação ao tratamento de esgoto e de água da chuva. Existem algumas iniciativas privadas de tratamento de águas no interior, principalmente nas indústrias e agroindústrias, porque elas devem tratar a água antes que ela chegue ao corpo d’água receptor, para não poluir as bacias hidrográficas, que, consequentemente, não deveriam estar poluindo o oceano.

Existem, fora essas obrigações básicas de tratamento de esgoto, algumas iniciativas muito interessantes que são capitaneadas pelo pessoal que trabalha com plástico e lixo marinho. O plástico e o lixo marinho, de uma forma geral, são extremamente visíveis e fáceis de relacionar com a sociedade. Existem muitos grupos, até relativamente fortes, que vêm trabalhando em termos de promover a visibilidade e ações de tratamento do problema, como as ações de limpeza que, além de aumentarem a visibilidade dessa situação, começam a convocar as pessoas a experimentarem a dificuldade que é despoluir o mar. Essas iniciativas estão espalhadas por todo o litoral brasileiro e por muitas bacias hidrográficas. Algumas dessas iniciativas vieram — como deveria ser — de baixo para cima na sociedade, brotaram de pessoas que se incomodaram com o assunto e que têm talento mobilizador e conseguiram agregar outras pessoas em torno de si. Outras iniciativas vêm de empresas que viram nisso uma oportunidade de investimento ou uma oportunidade de visibilidade que, aos poucos, vem se transformando em ações. Nesse sentido, as iniciativas são muito pulverizadas.

As responsabilidades estão relativamente bem escritas em lei, mas não são claramente executadas. Talvez essa seja uma fronteira importante para os próximos anos, se quisermos continuar participando de acordos internacionais.

IHU On-Line — Seria possível voltarmos atrás e não sermos tão dependentes do plástico? Temos alternativas ao plástico hoje?

Monica Costa — Todo o material tem uma alternativa. Não chegamos até a Segunda Guerra sem ele? Nós ainda temos memória viva, na nossa sociedade, de pessoas que viviam sem plástico. O plástico invadiu as nossas vidas de forma muito rápida e eficiente, mas podemos usá-lo de modo mais inteligente. Basta negar o uso de tudo aquilo que não precisamos, como os descartáveis, e guardar o uso do plástico para aquilo que é realmente nobre e importante. Se fizermos isso, o plástico começará a “entrar nos trilhos” da possibilidade de ser recolhido e reutilizado como matéria-prima.

Vamos proibir as pessoas de usarem plástico? Não, porque hoje isso não é mais viável, mas podemos sugerir que elas usem itens que são duráveis, que podem ser reutilizados quase que infinitamente, ou que guardem o plástico para determinados fins. Por exemplo, não quero compartilhar minha seringa com os outros. Antigamente a seringa era compartilhada. Eu tenho 50 anos e na minha casa tinha uma seringa de vidro, que era guardada numa latinha de inox, e a família toda usava a mesma seringa, a mesma agulha, mas era uma “seringa familiar”. Isso não acontecia somente na minha casa, no hospital também era assim. Não vou pedir que isso volte à baila porque não faz mais sentido, pois somos bilhões de pessoas no mundo. Mas é possível deixar de usar um monte de coisas de plástico, para que tenhamos uma seringa de uso individual.

É uma questão de escala de valores. Não se trata de não usar mais computadores ou celulares. Use o celular e o plástico, sim; agora, use até o fim e depois devolva ao fabricante, que terá uma saída interessante para esse produto. Dá para vivermos, talvez, com 10% das coisas plásticas que usamos. Tantas coisas poderiam voltar a ser de vidro, tantas poderiam deixar de ser descartáveis. Isso por si só já seria um avanço fenomenal. Se conseguirmos descontinuar o uso do plástico de forma programada, será ainda melhor. Acredito que é isso que vai acontecer, porque o petróleo vai acabar.

IHU On-Line — Deseja acrescentar algo?

Monica Costa — Vi uma frase na semana passada que é importante para nos ajudar nessa mensagem de que é possível andar para frente. No Congresso Internacional Cidades Lixo Zero, que aconteceu em Brasília recentemente, Charles Moore, que é um campeão na luta contra o plástico há décadas, falou algo muito simples, mas que me deixou admirada. Ele disse o seguinte: “Cuidar das bacias hidrográficas é a nossa última chance de salvar os oceanos”. E isso é verdade para o plástico também. Claro, sou oceanógrafa e penso mais no oceano, mas isso que ele falou é de uma verdade enorme: “Cuidar das bacias hidrográficas é a nossa última chance de salvar os oceanos”. Essa é uma mensagem importante.

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