Um dos agrotóxicos liberados em janeiro pelo governo Bolsonaro chama-se Topatudo

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04 Abril 2019

Empresa gaúcha que pediu o registro do pesticida, uma variação do cancerígeno glifosato, tem conexões familiares com gigantes da soja no Mato Grosso e com o vice-governador do estado, Otaviano Pivetta; produto é importado da chinesa Rainbow Chemical

A reportagem é de Julia Dolce, publicada por De Olho nos Ruralistas, 31-03-2019.

Topatudo. É esse o nome de um dos agrotóxicos “extremamente tóxicos” liberados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento neste início de ano. Uma variação do glifosato, a marca está na lista de pesticidas liberados de forma recorde – dois a cada três dias – pelo governo Bolsonaro: “Conheça as empresas que pediram os novos pesticidas ‘extremamente tóxicos’“.

De Olho nos Ruralistas se perguntou: quem lucra com o Topatudo?

O grupo empresarial gaúcho que comercializa o pesticida é composto por onze irmãos. Com esse dado foi possível mapear uma árvore genealógica que conecta o executivo por trás do Topatudo com o vice-governador do Mato Grosso, aquele que já foi classificado como “prefeito mais rico do Brasil”, o ruralista Otaviano Pivetta.

Comercializado pelo Grupo Ferrarin, o Topatudo é fabricado pela empresa chinesa Shandong Weifang Rainbow Chemical. Ele é utilizado nas culturas de ameixa, arroz, banana, café, cana-de-açúcar, citros, eucalipto, maçã, milho, nectarina, pera, pêssego, uva e pinus. E ainda para soja, trigo e pastagens. No caso da periculosidade ambiental, o produto é classificado como Classe III: perigoso ao meio ambiente.

O pedido de registro do Topatudo foi aprovado pelo Ministério da Agricultura em fevereiro.

Parte da família migrou nos anos 70 para o Mato Grosso

O dono do Grupo Ferrarin não costuma se expor online: Wilson Ferrarin não tem perfis em redes sociais e aparece em poucos vídeos institucionais da sua companhia, que detém ainda empresas de revenda de tratores, venda de sementes, crédito agrícola e mais de 40 mil hectares em fazendas no Mato Grosso.

Algumas irmãs de Wilson não se importam tanto com a exposição: são entusiastas do presidente Jair Bolsonaro, como estampam seus perfis no Facebook. Uma delas traz como foto de perfil uma militar batendo continência. Embaixo, a seguinte frase: “Estamos com você, capitão”.

O CEO do Grupo Ferrarin é irmão de donos de duas outras empresas, quase homônimas, o Grupo Guerino Ferrarin (GF) e o Grupo Darcy Getúlio Ferrarin (DGF). Todas as variações da sigla se referem a grandes propriedades de terra no Mato Grosso. Wilson, Guerino e Darcy Ferrarin reúnem dezenas de milhares de hectares no Mato Grosso, representando a “marcha para o oeste” dos tempos da ditadura.

A família é natural de Palmeira das Missões (RS), onde Wilson também possui um hotel, o Wilson Park Hotel, fechado há anos. A partir dos anos 1970, parte dos irmãos deu início ao processo de migração para o Centro-Oeste, com o objetivo de colonizar as terras do Mato Grosso. Décadas depois, todo o trio Ferrarin já foi homenageado pela Assembleia Legislativa do estado com o título de cidadãos mato-grossenses.

Grupo planta soja e milho em área de 80 mil hectares

Magnata da soja e do milho, Guerino Ferrarin é conhecido pelo apelido Guerra. Dono de 40.100 hectares em Lucas do Rio Verde (MT), o fazendeiro bancou grande parte da campanha de seu filho, Rogério Ferrarin, candidato derrotado à prefeitura do município em 2012. Sozinho, o Grupo Guerino Ferrarin produz cerca de 1% de toda soja e milho do MT, como destaca um vídeo institucional da empresa, divulgado em 2017. O grupo declara plantar em 80 mil hectares – uma área do tamanho do arquipélago da Madeira, em Portugal.

A disputa para o cargo de prefeito do município, cuja população é de 63 mil habitantes, movimentou R$ 4,6 milhões em 2012. Na época, Guerino doou um total de R$ 1,2 milhão para a campanha do filho, que perdeu o cargo para Otaviano Pivetta, atual vice-governador do Mato Grosso. Pivetta foi o principal doador da própria campanha, injetando R$ 1,7 milhão. Os dois candidatos – Rogério e Pivetta – são primos de segundo grau.

Rogério Ferrarin também leva, como nome do meio, o sobrenome Pivetta. Fruto do parentesco entre sua mãe, Marlene Pivetta Ferrarin, mulher de Guerino, e a mãe de Otaviano, Margarida Pivetta. Marlene é sobrinha de Tilídio José Pivetta, pai de Otaviano. O vínculo familiar não impediu os políticos de tentarem destruir a campanha um do outro. A disputa contou com uma série de irregularidades e tentativas de boicotes.

Rogério foi acusado pelo coronel Airton Benedito de Siqueira Júnior, então secretário de Justiça e Direitos Humanos do município, de gastar R$20 mil em escutas ilegais para produzir um relatório que subsidiaria a impugnação da candidatura de Otaviano Pivetta. Rogério Ferrarin também foi acusado de se encontrar com o juiz eleitoral do município, André Gahyva, com a intenção de boicotar a candidatura de Pivetta.

Agora vice-governador, Otaviano Pivetta vazou uma gravação que revelava esse encontro. Ferrarin disse ser vítima de uma “armação milionária”. Uma vez eleito, Otaviano foi considerado o prefeito mais rico do país, com um patrimônio que hoje chega a R$ 359,6 milhões, além de 330 mil hectares de terra declarados.

Em 2018, o ruralista doou R$ 867 mil para a campanha do governador eleito Mauro Mendes (DEM). Nas eleições municipais de 2012, quando Mendes foi eleito prefeito de Cuiabá, Pivetta doou R$ 100 mil à campanha do aliado.

Empresários enfrentam acusações, mas foram absolvidos

Otaviano Pivetta havia governado o município de Lucas do Rio Verde em dois outros períodos, entre 1997 e 2004 e entre 2013 e 2016. O político é fundador do grupo Terra Santa Agro, um dos maiores produtores de grãos do país. Ele já chegou a ser o maior acionista individual da empresa, mas em 2017 vendeu todas as suas ações. Pivetta tem sociedade e/ou administra outras doze empresas no país.

A maior delas é a Agropecuária Margarida, localizada em Nova Mutum (MT). Desde 2012, a empresa recebeu R$ 14,8 milhões em empréstimos públicos do BNDES. Nas eleições municipais de 2016, Pivetta foi declarado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MT), após seu nome aparecer em uma lista de gestores públicos flagrados em mau uso de verbas federais, incluída em um parecer do Tribunal de Contas da União (TCU).

De acordo com o documento, a irregularidade residia na compra de uma ambulância no valor de R$ 110 mil, em 2002. O contrato, identificado como superfaturado, foi parar na Operação Sanguessuga, escândalo de corrupção também conhecido como “máfia das ambulâncias”, que estourou em 2006. Em janeiro de 2017, o vice-governador foi absolvido por falta de provas pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

O núcleo familiar de Marlene e Guerino Ferrarin não teve apenas polêmicas políticas. Em 2007, N. A. M., uma funcionária de uma das fazendas da família acusou o patriarca dos Ferrarin de estuprá-la em um dos alojamentos de empregados da Fazenda Mata Azul, localizada no município de Nova Mutum. O processo, que correu em segredo de justiça, foi arquivado por falta de testemunhas e provas.

Um trecho da sentença, proferida pelo juiz Cândido Nery Ferreira, afirma que a única testemunha da acusação não presenciou os fatos: “O que retira totalmente a credibilidade em seu depoimento, pois é mera repetição do que a acionante afirma ter acontecido”. Antes do julgamento, o Ministério Público ingressou com pedido de prisão preventiva do acusado, que ficou preso por um mês. Nesse período, a defesa de Guerino alega que o empresário tentou se suicidar e que foi subornado pela defesa.

A prisão preventiva de Guerino Ferrarin foi pedida após a funcionária denunciar, em um Boletim de Ocorrência (n°624/2010), que ela e sua família vinham sofrendo constantes ameaças por telefone e presencialmente. Uma caminhonete com vidros adesivados por insulfilme parava em frente de sua residência e uma mão, através da janela, imitava o gesto de uma arma. Por telefone, uma voz masculina a ameaçava com as frases “você vai se arrepender” e “não deveria ter procurado a delegacia”.

‘Plante que o João garante', dizia o general Figueiredo

O mais velho dos três irmãos Ferrarin, o empresário Darcy Getúlio Ferrarin, comemorou seus 70 anos com um leilão de gado. O blog Lance Rural, no UOL, descreveu o leilão, que teve show da dupla sertaneja César Menotti & Fabiano. Com 24 lotes na bateria de elite e 38 lotes da bateria de touros, o grupo DGF – com as iniciais de Darcy Getúlio – teve um faturamento de R$ 2 milhões.

O evento contou com o patrocínio de uma gigante do agrotóxico, a estadunidense DuPont, hoje a segunda maior empresa química do mundo. No pé da reportagem, a sorridente família de Darcy – o bronzeado pecuarista possui dentes particularmente brancos – brinda com taças de champanhe.

Darcy construiu seu império em um município chamado Sorriso, conhecido como “capital do agronegócio”. Ali ele possui a Agropecuária Ferrarin, a holding VF Participações, o DGF Participações, o DGF Fazendas, o DGF Agropecuária, a Sorriso Organização de Eventos, a Cooami Participações e a Concessionária Apasi, que domina a rodovia MT-242.

Foi na própria fazenda do empresário em Sorriso, a Santa Maria da Amazônia, que Darcy assoprou as velas do bolo, ao som da harmonia de “Parabéns pra você” cantada pela dupla sertaneja, no “Leilão Especial – Darcy Ferrarin, 70 anos”. A propriedade tem 13,3 mil hectares.

Famoso no ramo da pecuária, Darcy já deu algumas entrevistas com falas polêmicas para canais locais. Para a Rádio Sorriso FM, em 2011, o empresário afirmou que não se pode punir os produtores que abriram áreas em reserva legal, pois isso era permitido pelo governo do general João Figueiredo, no início dos anos 1980:

– Veja bem, naquela época que viemos para cá, o produtor que não avançasse nos matos e produzisse era supertributado e corria o risco de perder a propriedade. Era a época do “Plante que o João garante”, então a maioria de nós foi e derrubou mato. Hoje não adianta falar que o produtor tem que refazer as reservas legais. Se Sorriso tiver que replantar 300 mil hectares de mato, onde vamos arrumar mudas? O PIB de Sorriso cai pela metade, vai embora meio mundo.

A partir de 2013, o empresário começou a dizer que os ruralistas tinham de investir na “agricultura sustentável”. “Monocultura já era, sou curto e grosso”, afirmou naquele ano para o canal Espaço Business TV, do YouTube. “Eu acredito no agronegócio, vejo o Brasil como o celeiro do mundo”, considerou. “Daqui a anos a briga será por alimento e por água.”

Na mesma entrevista, Darcy Ferrarin criticou as ONGs ambientalistas e o jornalismo. “São milhares de ONGs internacionais aqui dentro no Brasil, dando as cartas e mentindo muito, inventando que o produtor rural está acabando com tudo, que a floresta brasileira está indo para o colchão”, desenvolveu. “Hoje o produtor brasileiro tem consciência absoluta de como preservar a natureza.”

Darcy foi sócio da Agrofel, a primeira empresa da família, de grãos e insumos, criada em 1977 por Wilson Natal Ferrarin. Em 1994, a Agrofel se tornou também concessionária da fabricante estadunidense de tratores New Holland. Outros dois irmãos, Ildo e Pedro Ferrarin, formavam a sociedade. Em 1998, Wilson adquiriu as cotas de Darcy e dos demais irmãos, tornando-se proprietário de 95% da empresa, colocando 5% em nome de sua esposa, Santina de Carli Ferrarin.

A Agrofel forma hoje parte do Grupo Ferrarin, dono da comercializadora e redistribuidora de agrotóxicos Agroimport Soluções em Agroquímicos, responsável pelo registro do Topatudo.

Glifosato aumenta 41% risco de linfoma

Uma nova combinação do glifosato, um dos agrotóxicos que motivam atenção pública mundial nos últimos anos, é o composto químico da marca comercial Topatudo. O glifosato aumenta 41% o risco de uma pessoa exposta a ele vir a desenvolver o linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer que tem origem nas células do sistema linfático e que se espalha de maneira desordenada pelo organismo. O dado foi divulgado em fevereiro pela Elvesier, maior editora de literatura médica e científica do mundo.

A Agroimport conseguiu autorização para vender uma combinação ainda mais perigosa do produto, em forma de sal de isopropilamina. As classificações dos riscos apresentados pelos agrotóxicos no Brasil são realizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com base nas consequências à exposição aguda aos químicos, como explica Márcia Sarpa, toxicologista do Instituto Nacional de Câncer (Inca), em entrevista ao De Olho nos Ruralistas.

Ela conta que há inúmeros produtos formulados com glifosato com registro no Brasil. “Antes, registravam o químico com classificação de baixa toxicidade aguda, apesar de ele, cronicamente, causar diversos danos, inclusive o câncer, como já foi classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer”, descreve. “Essa mudança de categoria provavelmente representa o resultado de algum novo estudo sobre a aplicação dessa versão do glifosato, em sal de isopropilamina, classificando-a como extremamente tóxica.”

Segundo Márcia, um pesticida “extremamente tóxico” é muito perigoso, principalmente no caso de intoxicação aguda de trabalhadores por ingestão acidental, ou mesmo em tentativas de suicídio. “Quando se entra em contato com uma quantidade dele, o produto vai causar a morte ou coma”, diz.

Produto da Monsanto é conhecido como Mata-Mato

O glifosato é um herbicida sistêmico de amplo espectro e dessecante de culturas, utilizado para matar ervas daninhas. O químico foi patenteado em 1974 pela multinacional Monsanto, dos Estados Unidos, comprada pela gigante alemã Bayer no ano passado. O principal nome comercial do herbicida é o Roundup, conhecido também no Brasil como Mata-Mato.

O produto e a Monsanto motivaram uma série de processos judiciais, mundo afora, por acusações de contaminação. O caso emblemático mais recente foi a condenação da empresa, em primeira instância, a pagar uma indenização de US$ 289 milhões para o jardineiro e zelador de escola Dewayne Johnson, nos EUA. Diagnosticado com câncer em estado terminal, ele utilizou durante anos o produto Roundup e foi a primeira vítima da doença no país a denunciar o glifosato como causador de câncer. A Monsanto enfrenta mais de 5 mil processos semelhantes apenas no país.

A França proibiu em janeiro a comercialização do Roundup 360, variação da marca, em todo seu território. A decisão foi tomada por um tribunal administrativo de Lyon, revertendo uma autorização de venda concedida em 2017 pela Agência de Alimentos, Meio Ambiente, Saúde e Segurança no Trabalho. Motivo? “Precaução”. Na ocasião, o tribunal relatou uma série de estudos científicos e pesquisas em animais que sugerem o caráter cancerígeno do produto, além de destacar que o herbicida é prejudicial para a reprodução da vida humana e aquática.

O glifosato é produzido à base de organofosforado, substância que, em contato com enzimas que possuem resíduos do aminoácido serina, decompõe a transmissão do impulso nervoso de um neurônio a outro. Em mamíferos, esses efeitos agudos caracterizam-se por lacrimejamento, salivação, sudorese, diarreia, tremores e distúrbios cardiorrespiratórios, bem como depressão do sistema nervoso central.

Em avaliação concluída em fevereiro, a Anvisa considera que o uso do glifosato não causa prejuízos à saúde. A empresa abriu no dia 8 uma consulta para a sociedade se manifestar, até o dia 8 de junho, sobre a decisão. A reavaliação toxicológica do herbicida vinha ocorrendo desde 2008.

O Brasil foi eleito pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), no ano passado, o recordista em consumo de agrotóxicos no mundo. O mais consumido, entre eles, é o glifosato.

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