Quantas vidas valem as ações da Vale?

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20 Fevereiro 2019

Abrir um diálogo e se opor a uma grande empresa não é tarefa fácil. Mas um grupo de pessoas encontrou uma estratégia para ter voz dentro da mineradora Vale: Membros da Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale compraram ações da companhia e, assim, participam de reuniões, opinam e podem influenciar decisões.

A reportagem é de Thaís Herrero, publicada por Greenpeace, 19-02-2019.

Uma dessas acionistas é Carolina de Moura Campos. Ela é mineira, jornalista, ambientalista e mora no distrito de Casa Branca, em Brumadinho. Ao invés de buscar o lucro, ela e os acionistas da Articulação estão lá levando a voz da sociedade civil para dentro de uma das maiores empresas do Brasil. Eles questionam projetos e tentam evitar operações que coloquem em risco as pessoas que moram perto das minas e barragens, os trabalhadores e o meio ambiente.

Infelizmente, no caso da Mina do Córrego do Feijão, eles não puderam evitar a tragédia, ainda que tenham alertado sobre a segurança da barragem poucos meses atrás. Na semana seguinte ao rompimento da barragem, ela falou com a equipe do Greenpeace em Brumadinho. Ainda estava muito abalada e trabalhando para que a Vale seja responsabilizada. “Um massacre coletivo dessa magnitude não pode ficar impune, não. Já basta toda a impunidade de Mariana. A população tem que se mexer,” disse.

 

Em abril de 2018, ela reprovou um relatório da administração da Vale durante a Assembleia Geral dos Acionistas. E destacou que documentos provavam que a Vale havia negligenciado as informações sobre a insegurança da barragem da Mina do Córrego do Fundão, que rompeu em dezembro de 2015, em Mariana.

Nessa mesma reunião, com apoio de outros acionistas, ela se opôs à aprovação de um novo licenciamento no Complexo Paraopeba, que incluía a mina Córrego do Feijão e chamou atenção sobre os riscos de segurança na barragem, sem ser ouvida. O licenciamento foi dado permitindo que a Vale pudesse expandir as operações na mina. Depois do rompimento da barragem, a notícia dessa oposição ganhou destaque na imprensa.

Agora, esses acionistas da Articulação estão com outra estratégia de responsabilização: eles denunciaram a Vale para a Comissão de Valores Imobiliários, pediram uma investigação e a destituição da diretoria da empresa. “Esses caras são responsáveis. Eles têm que sair da empresa e ser presos”, disse.

Segundo Carolina, as reuniões dos acionistas eram ambientes muito hostis às pessoas que se opõe à Vale. “Você tem que lutar pra falar. E eles cortavam o nosso microfone. A gente continuava falando no grito, tremendo”.

Desde que virou acionista e mesmo estando junto a um grupo organizado, ela conta que muitas vezes pensava em desistir. Estar lá para mostrar o posicionamento da sociedade civil acabou valendo a pena. “Nós da Articulação sentíamos pouco efeito estando na Assembleia dos Acionistas. Mas nos mantivemos firmes nessa estratégia. E foi bem relevante porque hoje o presidente e o alto escalão da empresa não podem dizer que não sabiam. Nós falamos sobre os problemas das barragens de rejeitos em Minas Gerais e vários outros problemas”, diz.

Um deles, por exemplo, foi o Projeto Barragem Zero. Apresentado em 2009, ele previa a recuperação e o aproveitamento das sobras do processo de mineração, chamados finos e ultrafinos, que são depositados nas barragens. Reaproveitar isso é uma forma de diminuir o impacto ambiental do acúmulo de materiais nas barragens. Carolina, no entanto, acredita que a Vale estava mais interessada nos benefícios econômicos do projeto do que nos benefícios ambientais. “Ela ia fazer [o projeto] porque o preço do minério estava quase 180 dólares a tonelada. Naquela ocasião, recuperar rejeito valia a pena economicamente. Mas o preço do minério despencou e esse Projeto Barragem Zero ficou na gaveta”, conta. 

Carolina questiona a escolha das barragens para o projeto. “Das oito barragens selecionadas, uma era a de Fundão, que rompeu em Mariana. A outra era a do Córrego do Feijão, que acaba de romper. Por que ela selecionou essas oito? São as maiores? As mais perigosas? As com menos segurança? As com gente morando debaixo? A com refeitório logo embaixo? Que critério ela usou para selecionar essas oito? Tem dez anos que a empresa sabe do risco delas. Tomara a Deus que não rompa mais nenhuma barragem… Tomara a deus não. Tomara o Estado e tomara que a empresa se responsabilize e pare com essa conduta irresponsável e violenta.”

 

Sobre o futuro de Brumadinho, onde vive, Carolina está preocupada, mas está disposta a continuar trabalhando sempre para que a impunidade não prevaleça mais uma vez nessa história.

“Não sei o que vai ser desse lugar, mas tenho esperança que as pessoas tomem consciência e criem coragem. Consciência todo mundo tem, mas coragem não é fácil, né. Você levantar a cabeça e enfrentar esta política, este governo, estas empresas, este capitalismo… Então, tomara que a gente consiga ficar firme aí, honre todas essas vidas que a gente perdeu e faça uma verdadeira transformação desse modelo mineral violento e que mata, mutila e maltrata e não é só quando rompe barragem não. A mineração mata todo santo dia. Todo santo dia tem morte de trabalhador na mineração. Quanto mais terão que morrer, gente? Mineração é um horror. Destrói a vida, a natureza e o amor”.

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