Os últimos 5 anos foram os mais quentes do Antropoceno

Revista ihu on-line

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Grande Sertão: Veredas. Travessias

Edição: 538

Leia mais

A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

Edição: 537

Leia mais

Mais Lidos

  • Deveríamos chamar os padres de ''padres''?

    LER MAIS
  • “Este Sínodo, em sua profecia, é fiel aos gritos dos pobres e da irmã Mãe Terra”. Entrevista com Mauricio López

    LER MAIS
  • 'Dizer-se cristão não é o mesmo que ser cristão, é preciso coerência', afirma o Papa Francisco

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

17 Fevereiro 2019

"O aquecimento global é um dos elos fracos do Sistema Terra e pode provocar um grande desastre ecológico. No longo prazo, pode ser o apocalipse para a biodiversidade e para a humanidade", assevera José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 15-02-2018. 

Eis o artigo. 

“Na ausência de um ajuste significativo da maneira como bilhões de seres humanos
vivem, partes da Terra provavelmente se tornarão próximas a inabitáveis
e outras partes terrivelmente inóspitas, antes do final deste século”
David Wallace-Wells (09/07/2017)

 

Clima é diferente de tempo. O tempo varia diariamente e passa por grandes instabilidades durante um ano. Algumas regiões sofrem com o frio polar, outras com o calor infernal, além de ocorrer secas, alta umidade e tempestades nas diversas partes do planeta. Mas o clima da Terra apresentou uma estabilidade impressionante nos últimos 12 mil anos (Holoceno), variando no máximo 0,5º Celsius, para baixo ou para cima, em relação à média do período. Contudo, tudo começou a mudar nas últimas décadas e o aquecimento global se tornou uma das principais ameaças à vida humana e não humana do Planeta.

O gráfico acima, com dados Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), cuja série começa em 1880, mostra que o ano mais frio do período foi 1908, quando a temperatura global ficou 0,44º C abaixo da média do século XX. Nas décadas seguintes a temperatura média subiu. Mas, anos de recorde de temperatura como 1998, 2005 e 2010 foram seguidos de anos bem mais frios.

Porém, desde 2014, o piso se elevou e as temperaturas entraram em um outro patamar de aquecimento, com 0,74º C acima da média do século XX em 2014, 0,90º C em 2015, 0,94º C em 2016, O,84º C em 2017 e 0,79º C em 2018. Portanto, a novidade é que os cinco anos mais quentes já registrados ocorreram em sequência e estão na atual década. Pela primeira vez, os cinco últimos anos cronológicos também são os anos mais quentes da série contabilizada pela NOAA. Dezessete dos dezoito anos mais quentes ocorreram, todos, no século XXI (a única exceção é o ano de 1998, que teve temperatura de 0,63º C acima da média do século XX).

O serviço nacional de meteorologia do Reino Unido – Met Office – divulgou previsão apontando que o ano de 2019 também deve registrar um aquecimento elevado, devido às mudanças climáticas e ao efeito adicional relacionado ao fenômeno El Niño no Pacífico. Utilizando uma linha base diferente da média do século XX, utilizada pela NOAA no gráfico acima, o Met Office prevê que a temperatura média global para 2019 fique entre 0,98º C e 1,22º C, com uma estimativa central de 1,10º C, acima do período médio pré-industrial de 1850 a 1900. Como mostra o gráfico abaixo, o Met Office prevê que 2019 será o segundo mais quente da série.

Artigo de Jonathan Watts (The Guardian, 06/02/2019) mostra que, segundo o Met Office, o aquecimento global pode ultrapassar 1,5º C dentro de 5 anos. Assim, a meta mais “ousada” do Acordo de Paris, pode ser “jogada no lixo” até 2023.

 

Artigo de Xu et. al. (05/12/2018), da revista Nature, considera que o aquecimento global está acontecendo mais rápido do que o previsto e que o último relatório do IPCC – apesar de ter assustado muita gente – subestima três tendências de aceleração do aquecimento, pois o aumento das emissões, a diminuição da poluição do ar e os ciclos climáticos naturais, devem se combinar nos próximos 20 anos para tornar as mudanças climáticas mais rápidas e mais furiosas do que o antecipado. O artigo diz que há uma boa chance de que a temperatura global possa ultrapassar o nível de 1,5º C até 2030 (e não até 2040, conforme projetado no relatório do IPCC) e possa ultrapassar os 2º C até 2045, conforme mostra o gráfico

Somente a cegueira científica pode ignorar os perigos do aquecimento global. Os últimos cinco anos foram os mais quentes do Antropoceno, sendo que o ano de 2017 foi o mais quente sem a presença do El Niño e 2019 deve ser o sexto ano seguido de temperaturas recordes. Incontestavelmente, a atual década já é a mais quente desde o início dos registros climáticos.

Mas apesar de tudo, o mundo continua queimando combustíveis fósseis e liberando metano na agropecuária. Continua também desmatando e destruindo os ecossistemas. Assim, cresce a concentração de gases de efeito estufa e aumenta o nível de CO2 na atmosfera, que, em 2018, foi de 408,52 partes por milhão (ppm), e está aumentando em 2,4 ppm ao ano na atual década. Sendo que o nível seguro é 350 ppm.

Se este quadro não começar a ser revertido nos próximos 3 anos, o colapso ambiental pode se tornar inevitável. O aquecimento vai provocar o degelo do Ártico, da Antártida e da Groenlândia, elevando o nível dos oceanos, o que ameaça bilhões de pessoas que moram nas áreas costeiras. O aquecimento também deve provocar o degelo dos glaciares do Himalaia e o leste e o sul da Ásia, lar de bilhões de pessoas, vão sofrer com a falta de água. O aquecimento global é um dos elos fracos do Sistema Terra e pode provocar um grande desastre ecológico. No longo prazo, pode ser o apocalipse para a biodiversidade e para a humanidade.

Esta possibilidade foi aventada em novo estudo (Steffen, 2018) que indicou que a Terra pode entrar em uma situação inédita, com clima tão quente que pode jogar as temperaturas médias globais até cinco graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais. Isto teria várias implicações, como acidificação dos solos e das águas e aumentos no nível dos oceanos entre 10 e 60 metros. O estudo mostra que o aquecimento global causado pelas atividades antrópicas de 2º Celsius pode desencadear outros processos de retroalimentação, podendo desencadear a liberação incontrolável na atmosfera do carbono armazenado no permafrost, nas calotas polares, etc. Em função do efeito dominó, as “esponjas” que absorviam carbono podem se tornar fontes de emissão de CO2 e piorar significativamente os problemas do aquecimento global.

Isto provocaria o fenômeno “Terra Estufa”, o que levaria à temperatura ao recorde dos últimos 1,2 milhão de anos. Os seja, caso este cenário se torne realidade, seria algo parecido com o apocalipse para a vida humana e não humana no Planeta.

Referências:

ALVES, JED. A maior temperatura em 5 milhões de anos, Ecodebate, RJ, 19/09/2016

David Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth, Annotated Edition. The facts, research, and science behind the climate-change article that explored our planet’s worst-case scenarios, 14/07/2017

Yangyang Xu, Veerabhadran Ramanathan and David G. Victor. Global warming will happen faster than we think. Nature 564, 30-32, 05/12/2018

Steffen et. al. Trajectories of the Earth System in the Anthropocene, PNAS August 6, 2018. 06/08/2018 

Jonathan Watts. Met Office: global warming could exceed 1.5C within five years, The Guardian, 06/02/2019 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Os últimos 5 anos foram os mais quentes do Antropoceno - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV