As contínuas pesquisas sobre Deus. Artigo de Gianfranco Ravasi

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20 Dezembro 2018

Poucas pessoas sabem que quem cunhou o termo "teologia" não foram os cristãos, mas Platão em sua República (n. 379a), onde considerava a theologhia, isto é, o "discurso" ou investigação sobre Deus, como um dos objetivos de pesquisa não só do pensamento, mas também dos "versos épicos ou líricos ou dos textos da tragédia."

O artigo é de Gianfranco Ravasi, cardeal italiano e prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado por Il Sole 24 Ore, 16-12-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Seu discípulo Aristóteles na Metafísica (n. 1026a) articularia melhor o tema, colocando a teologia no vértice das ciências "contemplativas" (em grego, theoretikai), ou seja, a matemática, a física e, precisamente, a teologia. É com essa base que a palavra vai entrar na tradição cristã: no Novo Testamento temos, de fato, apenas os dois anéis que formam a palavra, mas não a ligação entre eles: de um lado, theos, "Deus", citado bem 1.317 vezes, e logos, ‘discurso’ presente 330 vezes.

Emmanuel Durand
Vangelo e Provvidenza
Queriniana, Brescia, p. 299, € 35

Essa premissa filológica quer enquadrar a referência de uma sólida e duradoura coleção da editora Queriniana, de Brescia, cujo título é emblemático: Biblioteca de teologia contemporânea - em tradução livre. Foi inaugurada em 1969 com o ensaio de um autor nascido na Baviera em 1928 e, na época, professor em Münster, Johann Baptist Metz, Sobre a teologia do mundo, que tinha aparecido em alemão no ano anterior. A obra, que refletia a atmosfera sociocultural e não só eclesial daquele período, tornou-se uma espécie de manifesto da chamada "teologia política", preocupada em calibrar melhor a relação entre a Igreja e o mundo, entre fé e devir histórico, na consciência de que "a salvação, à qual se refere na esperança a fé cristã, não é uma salvação privada". O próprio Cristo não tinha se encerrado no íntimo do seu encontro com o Pai, nem tinha se isolado no oásis protegido do sagrado, mas havia mergulhado e se encarnado na realidade histórica e social.

A partir daquele volume desdobrou-se uma genealogia bibliográfica marcada por uma constante identidade, inclusive gráfica e cromática, mas especialmente aberta a todas as vozes mais importantes, significativas ou até mesmo provocativas do frutífero período pós-conciliar. Só para citar alguns nomes, podemos pensar em Bonhoeffer e Ratzinger (sua Introdução ao cristianismo teve um enorme número de reedições, mesmo antes de sua ascensão ao papado), em Moltmann, Küng, Pannenberg, Congar, Bultmann, Kasper, Drewermann, von Balthasar, Boff, Gutiérrez, Brown, Meier e assim por diante. Surge, assim, um verdadeiro panorama da reflexão teológica contemporânea, mesmo com a recente incursão de figuras menores em relação às listadas acima, sinal talvez de uma situação difícil em que se debate a atual pesquisa teórica cristã.

Agora a coleção está navegando rumo a duas centenas de títulos: entre os últimos ressaltamos a trilogia de números 189, 190 e 191 que tocam temas marcados por um sinal de originalidade. Basta o título do primeiro, Vangelo e Provvidenza (Evangelho e Providencia), para reapresentar um vocábulo no passado triunfante não só na pregação, mas também na retórica apologética popular, uma realidade agora substituída pela bem mais realista "previdência". Emmanuel Durand, dominicano francês professor em Ottawa, Canadá, mostra a complexidade da categoria "providencial" que inclui uma verdadeira hermenêutica da ação de Deus na história, típica de uma religião "encarnada" como é o cristianismo. É por esse motivo que se encontra com o tema do mal: ele se destaca como um pico rochoso que perfura o manto paternal de uma Providência divina, mas que se combina com a intervenção da redenção, da salvação e da escatologia.

As lições dos três grandes da teologia como Agostinho, Tomás de Aquino e Newman são convocadas para repensar uma concepção esmaecida dentro de uma cultura astuta que, no desejo de jogar fora a água do banho do providencialismo ingênuo, também jogou o cânon da esperança, da confiança e do sentido de ser e de existir.

Antonio Pitta
Giustificati per grazia
Queriniana, Brescia, p. 233, € 18

Passamos, então, ao segundo ensaio, confiado a um tema no passado controverso para a cristandade, a ponto de ser o germe do cisma do Ocidente, o tema luterano. Na "justificação pela graça" com base na lição paulina dedica-se, em vez disso, um dos nossos estudiosos mais conhecidos do Apóstolo, Antonio Pitta, professor na Universidade Lateranense de Roma. É claro que, a diferença do termo "Providência", a "justificação" é um termo que ressoa mais familiar nos nossos dias, mesmo para aqueles que têm apenas um conhecimento genérico dos eventos que marcaram um século extraordinário como foi o século XVI.

Voltar para a matriz, ou seja, o epistolário de Paulo, permite não só delinear o projeto global, mas também perceber sua formulação progressiva. De fato, "a prova do autor", que é a Epístola aos Gálatas, onde a justificação está relacionada com o motivo da nossa adoção divina como filhos, entra-se na obra-prima paulina da Epístola aos Romanos, o sinal da Reforma protestante, mas também o coração da questão, e se chega à Carta aos Filipenses, onde o tema aparece como processo de conformação e transformação do crente em Cristo. Não há dúvida do corolário ecumênico que envolve uma investigação exegética semelhante, não só para as antigas polêmicas entre Agostinho e Pelágio, no século V, para as tensões radicais entre o catolicismo e Lutero ou Calvino, mas também para a vigorosa retomada do tema na teologia dialética de Barth (cuja Epístola aos Romanos curiosamente ainda está no catálogo da Feltrinelli).

Nicolas Steeves
Grazie all’immaginazione
Queriniana, Brescia, p. 414, € 38

Surpreendente é, inclusive no título, o último ensaio do nosso tríptico: Grazie all’immaginazione (Graças à imaginação, em tradução livre), obra do jesuíta parisiense Nicolas Steeves, professor na Universidade Gregoriana de Roma. Foi considerado por muito tempo a folle du logis, a "louca da casa", uma fórmula ora atribuída ao filósofo Malebranche, ora a Teresa de Ávila, mas de paternidade desconhecida. O que é certo é que, para muitos teólogos, a imaginação foi considerada uma espécie de névoa que devia ser varrida pelo vento cristalino da razão, do rigor epistemológico, da lógica formal. A tentativa desse amplo estudo é, no entanto, para integrá-la justamente na teologia fundamental, que é a base sobre a qual repousa e se constrói a arquitetura de todo o sistema teológico em suas várias articulações.

Efetivamente, a própria Bíblia (basta pensar no Apocalipse), assim como a tradição cristã são livremente e alegremente entregues ao caleidoscópio das imagens, dos símbolos, das parábolas, fecundando e alimentado o ato de fé, a espiritualidade, a liturgia, a ética. As páginas de Steeves são uma navegação vibrante nesse mar criativo no qual se encastoam as grandes ilhas dos múltiplos sistemas teológicos banhados por aquelas ondas. Afinal - como confirma, infelizmente negativamente, o excesso imaginário contemporâneo - estava certo Bachelard quando afirmava em sua Poética da Rêverie (Dedalo, 2008) que "o homem é um ser capaz de imaginar e deve ser imaginado."

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