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12 Fevereiro 2016

Quem se interessa por assuntos religiosos, há muito que sabia dos escândalos de pedofilia provocados por padres católicos, nos EUA, na Irlanda, na Alemanha, um pouco por todo o lado. Mas, emocionalmente, é muito diferente “saber” apenas e “ver” um filme que nos relata uma situação concreta, neste caso a situação de abuso de menores que foi ocorrendo em Boston ao longo de anos, com cobertura do seu arcebispo, situação finalmente denunciada pela equipa Spotlight do jornal Boston Globe.

A reportagem é de Laura Ferreira dos Santos, publicada por Público, 10-02-2016.

Muitas e muitos perderam a fé por causa destes comportamentos, mais ainda por causa do seu encobrimento por parte de bispos e arcebispos, apenas mudando o padre de paróquia e fazendo um acordo secreto com os pais das vítimas, quando havia denúncia “interna”, ou seja, que não passava pelos tribunais civis (nem canónicos, acrescente-se). Com algum dinheiro, comprava-se o silêncio destas pessoas crentes e socioeconomicamente desfavorecidas. É que estes eclesiásticos predadores sabiam (sabem) escolher as vítimas, entre as mais carenciadas economica e emocionalmente. Se bem me recordo, o filme aponta para a hipótese de um terapeuta especializado calculando que 50% dos clérigos tem uma vido sexual ativa com adultos, homens ou mulheres, e 6% são pedófilos.

Como foi possível enviesar os ensinamentos de Cristo, ao ponto de sobre eles se construir uma Igreja que, segundo alguns, defende um ideal de clérigo que é “psicologicamente cruel e mentalmente escravizante”, dando depois origem a tantos “desvios”? Vários livros se escreveram e escreverão sobre o assunto. Eugen Drewermann, teólogo alemão reputado que há vários anos deixou de ser católico e padre, escreveu em 1989 o livro Kleriker. Psychogramm eines Ideals (Clérigos. Psicograma de um ideal). Li-o na versão francesa de 1993: Fonctionnaires de Dieu (umas 750 páginas). Note-se que, para além de teólogo, Drewermann exerceu prática terapêutica ao longo de dezenas de anos. A obra é demolidora em relação ao “sistema” eclesiástico católico. Destaco apenas uma frase: “As declarações católicas sobre o casamento respondem, não às dificuldades das pessoas casadas, mas àquelas que os clérigos recalcaram no fundo de si mesmos” (p. 184).

Curiosamente (estranhamente? sintomaticamente?), a Congregação para a Doutrina da Fé, em 2010, num texto intitulado “Normas substantivas”, entre as duas mais graves ofensas que um padre pode cometer colocava lado a lado os “atentados contra a castidade”, linguagem muito pouco clara mas que incluía a pedofilia, e também a colaboração na ordenação de uma mulher. Eram as duas ofensas sérias que se destacavam ao nível moral e sacramental. A equiparação, obviamente, merecia uma exploração psicanalítica. Na altura, um comentarista do Guardian escreveu: “Será que os cristãos conservadores odeiam as mulheres? Ou devemos dizer simplesmente que sobrevalorizam a masculinidade? [...] Não penso que estes homens (e algumas das mulheres que os apoiam) «odeiem as mulheres» (embora odeiem as mulheres que não desempenham o seu «papel»...). Trata-se mais de adorarem os homens e a masculinidade”, tratar-se-ia mais de “androfilia” do que de “misoginia”.

Um outro filme, de 2013, Filomena, de Stephen Frears, revelava o escândalo que foi o facto de, em meados do século passado, um convento de freiras irlandês manter à sua “guarda” jovens solteiras que tinham engravidado, dando depois as crianças que sobreviviam para adopção, no maior dos segredos, e obrigando as jovens a trabalho “forçado” dentro do convento. A crueldade e a insensibilidade exibidas sobretudo por muitas daquelas freiras dirigentes provocava o asco, assim como a cadeia de mentiras em que se enredavam, lesando gravemente as mães solteiras.

Muitas/os perderam a fé por causa destes comportamentos cruéis por parte de padres e freiras. Outros/as mantiveram a fé, mas afastaram-se da instituição. Outras/as, ainda, apesar de tudo mantiveram a fé e mantiveram-se na instituição. É assunto que mereceria também muito estudo. Tentarei voltar a ele.

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