Biografia de James Cone conta seu pioneirismo na teologia entre os negros

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07 Dezembro 2018

Said I Wasn't Gonna Tell Nobody
James H. Cone
192 páginas;
Orbis Books US$ 28,00

James H. Cone incentivava seus alunos do Union Theological Seminary a encontrarem sua voz, dizendo que “quer os teólogos reconheçam isso ou não, todas as teologias começam com a experiência". Essa era a base de seu ensino, e quem teve a sorte de ser seu aluno vai ouvir sua voz apaixonada ao longo de suas memórias, muitas vezes em movimento, no livro Said I Wasn't Gonna Tell Nobody.

A resenha é de Chris Herlinger, publicada por National Catholic Reporter, 05-12-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Chris Herlinger foi aluno de mestrado de James Cone no Union Theological Seminary de 1991 a 1993.

Infelizmente, as circunstâncias do livro são excepcionalmente tristes. Este é o último trabalho de Cone, e a reação de seus alunos e ex-alunos à sua morte aos 79 anos, em abril, de câncer, foi de descrença geral: sua energia em sala de aula era inabalável.

Figura formidável em vida, Cone deixa um legado considerável: pioneiro no desenvolvimento da teologia negra; mentor de várias gerações de teólogos e pastores negros e alguém que foi além dos limites no trabalho para encontrar uma causa comum com outros teólogos da libertação, como Gustavo Gutiérrez.

Felizmente, Cone recebeu uma merecida homenagem antes de falecer. Ele foi nomeado membro da Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos e ganhou o prêmio Grawemeyer Award de religião pelo livro The Cross and the Lynching Tree, uma obra profundamente pessoal que explora a história e o legado dos linchamentos nos Estados Unidos.

Um profeta para a Igreja dos EUA, Cone constantemente lembrava os cristãos brancos que o racismo era pecado — e que a teologia que ele ajudou a desenvolver a partir dos anos 60 era um corretivo necessário, mesmo que poucos brancos dessem atenção ou atendessem sua mensagem.

"Deus criou os negros, o que deve ser bom", declarou, a respeito de seu trabalho inicial. "Pessoas brancas difamaram a negritude, o que é mal. Jesus veio para libertar a negritude da branquitude”.

Cone concentra as memórias em sua jornada teológica e Said I Wasn't Gonna Tell Nobody pode ser a melhor introdução a sua teologia. Mas as observações pessoais tornaram este último trabalho envolvente e comovente. Cone reconhece carências e medos, dizendo que seu percurso muitas vezes foi solitário, particularmente no início da carreira.

"Eu estava sozinho”, relembra. Nesse período, não havia "nenhum teólogo negro com quem eu pudesse conversar sobre o que estava tentando fazer". Ele sentiu "um abismo de solidão" durante toda sua carreira.

A sugestão do mentor C. Eric Lincoln de Cone passar da Adrian College, em Michigan, para a Union Theological Seminary — o principal seminário protestante liberal do país, e a base acadêmica de figuras dominantes como Reinhold Niebuhr e Paul Tillich — era quase demais para ser possível. "Você deve ser louco", disse Cone a Lincoln.

Mas, em 1969, ele seguiu o conselho e a Union tornou-se sua casa por quase 50 anos, apesar dos momentos de dor e de discordância. Especialmente no início, os colegas brancos não acreditavam na missão de Cone, sugerindo que a teologia negra era um modismo momentâneo.

Um repórter de revista Time perguntou a ele sobre a questão do "modismo", e Cone relembra a resposta: "As pessoas negras não são uma moda passageira. Não vamos a lugar nenhum, e ninguém pode falar por nós. Nem os teólogos brancos." A teologia negra, disse ao repórter, "é apenas pessoas negras falando por si mesmas sobre Deus e sobre o significado das suas lutas por dignidade nos Estados Unidos".

Essa luta pela dignidade não era nenhuma abstração: Cone conta uma história emocionante mas revoltante de que alguém mudou a placa da porta de seu escritório de "Dr. Cone" para "Dr. Carvão".

Ele aprendeu isso com os alunos da Union. Acolheu o desafio que veio de um estudante branco gay, que disse: " Você não sabe nada sobre a experiência homossexual!"

Também acolheu o desafio das mulheres negras que sentiam que a teologia negra, bem como a teologia feminista branca, não as representava. "Não tive a experiência de conhecimento para realmente ouvir o que precisava ouvir", reconhece Cone.

Mesmo com o foco interessante do livro na teologia, em alguns momentos eu gostaria que o livro fosse um pouco mais amplo. Barack Obama é mencionado rapidamente, e seria interessante ouvir mais sobre a opinião de Cone a respeito do primeiro presidente negro dos EUA. (Após a reeleição de Obama em 2012, perguntei a Cone se eu podia entrevistá-lo sobre as perspectivas para o segundo mandato. Cone educadamente disse que não e não disse o porquê.)

Ainda assim, o livro contém muitas joias: há um capítulo muito bom sobre James Baldwin que, dolorosamente, poderia ter gerado outro livro se Cone tivesse tido mais tempo. Para ele, Baldwin é "meu interlocutor mais desafiador e importante".

Cone escreveu um reconhecido estudo sobre duas outras figuras importantes em sua vida: o Rev. Martin Luther King Jr. e Malcolm X. E desenvolveu uma disciplina memorável na universidade explorando a vida e o legado desses dois homens. Depois, Cone também deu um curso sobre Baldwin.

Sobre Donald Trump, não diz nada. Mas não precisou. "O choro pelo sangue negro que ouvi em Detroit (1967) há mais de 50 anos ainda clama por todo o país hoje", afirma Cone, na conclusão do livro. "Os brancos não ouviram na época, e ainda não ouvem."

Mas Cone sabia que, um dia, os estadunidenses brancos teriam de ouvi-lo. "Não há futuro para os Estados Unidos sem os negros", conclui, fazendo eco às ressalvas de Baldwin. "As identidades dos Estados Unidos e dos negros dos Estados Unidos estão intrinsecamente ligadas."

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