A esquerda brasileira em tempo de derrotas: balanços e sentenças

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18 Novembro 2018

"Uma das indagações principais para avaliação das derrotas sucessivas da esquerda brasileira, petista ou não, desde 2016 passa a ser menos a responsabilidade (quase) exclusiva por elas, o que sempre pode se transformar num enorme e improdutivo lavar de mãos, e mais a compreensão de como, em um curto espaço de tempo, uma democracia que se imaginava estável se viu vitimada por uma onda de ódio não só a um partido ou a uma figura política específica, mas a ela própria, por amplos setores da população, mas especialmente pelas  classes médias e altas que acalentaram com sucesso a candidatura do capitão da reserva."

O comentário é de Arthur Lima de Avila, professor de Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e Erick Kayser, Mestre e doutorando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Eis o artigo.

Tempo de derrotas, tempo de balanços. Após o catastrófico resultado das últimas eleições presidenciais, há um notório e compreensível mal-estar nos setores progressistas brasileiros. “Como chegamos a esse ponto?” parece ser a indagação mais recorrente entre seus intelectuais e militantes: como foi possível que, menos de uma década após a experiência governamental de centro-esquerda mais bem sucedida da história do país, ascendesse ao cargo-magno da nação um capitão de reserva conhecido por suas inclinações, para dizer o mínimo, fascistoides? Como foi possível que uma democracia que se mostrava vicejante e consolidada, a despeito de seus inúmeros limites, pudesse testemunhar uma campanha política baseada em ódio vil, mentiras abjetas e falsificações históricas impressionantes, que vão desde os elogios públicos a torturadores de triste memória até o pânico moral delirante acerca de kit gays e mamadeiras em formato de pênis? Como chegamos a um momento em que um candidato à Presidência possa, para além de suas notórias invectivas homofóbicas e misóginas, declarar ser sua intenção exilar, perseguir e enjaular opositores e não só ser aplaudido efusivamente, como ser eleito? De fato: como chegamos a esse ponto?

Desta maneira, para a esquerda brasileira, compreender o processo que culminou na eleição de um presidente da extrema-direita é um esforço necessário e vital, não apenas para salvaguardar a democracia existente e organizar a resistência, como para buscar recuperar uma nova condição de protagonismo social. Podemos enquadrar esta eleição dentro de um processo mais amplo, em um contexto de prolongada crise política nacional, acompanhada por uma crise econômica que alterou os rumos do país, promovendo uma sucessão de rupturas que podemos situar, a grosso modo, a partir dos protestos de junho de 2013, quando a momentânea hegemonia petista viria a ser questionada. Mas também pode-se observar esta eleição de forma mais circunscrita, uma que se inicia com a prisão de Lula, até então líder nas pesquisas, e passa por um conjunto de situações que escapam a qualquer normalidade democrática. Sendo inserindo a vitória de Bolsonaro dentro de um processo mais geral iniciado nos últimos anos, ou destacando as peculiaridades e anormalidades desta eleição, ou ainda combinando estas duas abordagens possíveis, abriu-se uma série de balanços que buscam captar a complexidade e os sentidos desta derrota eleitoral e política.

Partidos e lideranças políticas da esquerda, dos movimentos sociais e da intelectualidade iniciaram, dentro de suas perspectivas, análises que buscam explicar esta derrota e compreender a conjuntura em que estamos inseridos. Em comum, todos estes setores objetivam a compreensão política desta eleição findada e orientar a ação futura. Como sabemos, balanços sempre veem acompanhados de sentenças, julgamentos políticos e morais dos acontecimentos que situam o lugar em que se está localizado na arena política (e na luta de classes). Aqui nos deteremos a comentar, criticamente, um certo tipo de análise e sentença, de intelectuais que colocam-se nas “fronteiras” ou “a margem” da esquerda predominante no Brasil e, particularmente, numa oposição ao Partido dos Trabalhadores. Ainda que não sejam influentes, do ponto de vista de força social, até porque não são propriamente um “grupo” e tendo inclusive distanciamentos e antagonismos entre seus integrantes, eles possuem importância e audiência na esquerda ou em setores que a tangenciam. Por esta razão, entendemos ser importante debater seus argumentos e os agrupar aqui a partir de um conjunto de sentenças similares.

Entre os argumentos comuns deste grupo heterogêneo e eclético, encontramos aquelas análises que buscam pintar o bolsonarismo vencedor com o análogo direitista perfeito do petismo derrotado, clamando por uma terceira via que, supõe-se, teria facilmente derrotado o militar da reserva (de nossa parte, não temos tanta certeza disso). Do mesmo modo, há as injunções contra o PT por ter, aos olhos destes e destas analistas, ajudado a criar o monstro bolsonarista somente para tentar derrotá-lo nas eleições – o que teria cabalmente falhado e nos atirado ao desastre [2]. Aqui, a mensagem é clara: o problema da atual situação histórica brasileira seria a competição entre dois “populismos” e “personalismos” que se retroalimentam em suas irresponsabilidades.

Desta maneira, não surpreende que intelectuais de esquerda vejam um continuum entre o “lulismo” e o “bolsonarismo”, em que a “esperança” representada pelo primeiro teria se convertido simplesmente no “ódio” pregado pelo segundo [3]. Finalmente, há os que veem em Bolsonaro uma espécie de reação última à “insurreição” de 2013, mesmo que esta nunca possa ser “realmente domada” (temos dúvida disso, diga-se de passagem), em uma narrativa, palavra ao gosto destes e destas articulistas, que retira Junho do rés do chão da nossa história e o atira em um mundo de idealizações pouco ou nada factíveis, ainda que retoricamente sedutoras [4]. Em resumo: para essas interpretações, que, ainda assim, são importantes para a conjuntura em que vivemos, um espectro emerge como o único ou o mais importante responsável pela derrota acachapante sofrida pela esquerda: o “PT” (ou, o que dá na mesma, “Lula”, o “petismo” ou o “lulismo”).

Não se trata aqui, obviamente, de minimizar os graves erros políticos daquele que ainda é o maior partido de esquerda da América Latina. É evidente que, desde o segundo governo de Dilma Rousseff, o PT tem cometido equívocos sérios: da guinada neoliberal anunciada logo após a eleição da presidenta à minimização da ameaça representada por um antipetismo raivoso e autoritário, passando pela manutenção de alianças políticas que acabaram por contribuir para o golpe contra Dilma, tais desacertos não devem ser negligenciados. Daí, contudo, a colocar o bolsonarismo (ou, sejamos mais honestos, o neofascismo brasileiro) na conta do partido vai larga distância, assim como a obsessão em se encontrar uma “terceira margem” para ancorar os navios da esquerda também não deixa de revelar um antipetismo tenaz, ainda que “progressista”, incapaz, em seus preconceitos, de analisar a nossa tragédia de forma mais ampla.

Em artigo recente, Giuseppe Cocco, notório intelectual antipetista, imputa quase que exclusivamente ao PT, ou ao círculo do “petismo”, a catástrofe eleitoral de 28 de outubro (ainda que faça uma brevíssima concessão ao “cenário global”): nenhum outro ator social seria tão responsável quanto o partido pelo triunfo das hostes bolsonaristas. Aqui, mesmo as manifestações de 2015 e 2016 seriam somente uma canalização de um antipetismo, até então difuso, pela direita; nenhum outro tipo de causa é buscada para este efeito e o que é um fenômeno bastante complexo resta reduzido a uma mera reação a um mal maior, o PT. Saltam aos olhos, contudo, tanto a ausência, no texto de Cocco, dos aspectos de classe, inegáveis, do antipetismo contemporâneo, mesmo que este não possa ser somente uma resposta classista aos governos petistas, quanto sua fetichização, de outro modo esperada, das manifestações de Junho de 2013, como se estas não fizessem, como foi dito acima, parte das condições de possibilidade da emergência do neofascismo e estivessem apartadas do processo histórico brasileiro mais amplo. Igualmente, é transparente o elitismo de Cocco ao se referir às experiências de governo petistas e à lealdade que um quarto, mais ou menos, do eleitorado brasileiro devota ao partido e a Lula: as únicas multidões criativas de seu texto são as que, em 2013 ou depois, se opõem ao petismo – às outras, representadas principalmente por uma legião de trabalhadores e trabalhadoras pobres que, como indicam as pesquisas, confiaram a Fernando Haddad seu voto, emergem como agentes manipulados pela “demagogia” do “grande líder”, numa linguagem que não esconde seu desprezo pelos “desvios populistas” da imaginação política latino-americana.

Não é gratuita, assim, a dependência de Cocco em relação ao vocabulário teórico do binômio Antonio Negri-Michael Hardt, em especial, e suas ponderações sobre a “multidão contemporânea”, já amplamente criticadas por uma série de autores e autoras, como Eduardo Grüner, Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. Se recuperarmos as considerações de Grüner, em especial, fica clara a razão de tal dependência: ela permite, por um lado, descarnar processos históricos de seus agentes mais específicos, criando uma espécie de entidade que paira acima da história mundana dos homens e mulheres que tentam, de fato, fazê-la e, com isso, auxilia a resolver teoricamente situações politicamente complexas através do recurso ao deus ex machina da “multidão”; por outro, escamoteiam, mesmo que de forma inconsciente, os problemas mais concretos de raça, gênero e classe que perpassam os conflitos sócio-políticos de um país pós-colonial como o Brasil e acabam por ocultar, por trás dos recursos ao “poder redentor”, diria Grüner, da multidão, a distribuição das forças em uma dada situação histórica. É por isso que, no nosso entendimento, o problema da classe, em especial, não é senão aludido indiretamente por Cocco: se ele emergisse ao primeiro plano, a questão do antipetismo e sua relação com outras pulsões destrutivas tipicamente brasileiras e latino-americanas, como o autoritarismo, o nacionalismo excludente e o exterminacionismo higienista, fundamentais ao sucesso eleitoral de Bolsonaro, adquiriria uma outra conotação, muito mais complexa e trágica do aquelas lhes imputadas por Cocco.

Uma das indagações principais para avaliação das derrotas sucessivas da esquerda brasileira, petista ou não, desde 2016 passa a ser menos a responsabilidade (quase) exclusiva por elas, o que sempre pode se transformar num enorme e improdutivo lavar de mãos, e mais a compreensão de como, em um curto espaço de tempo, uma democracia que se imaginava estável se viu vitimada por uma onda de ódio não só a um partido ou a uma figura política específica, mas a ela própria, por amplos setores da população, mas especialmente pelas classes médias e altas que acalentaram com sucesso a candidatura do capitão da reserva. Seria isso, como quer Vladimir Safatle, o resultado lógico da tenaz obstinação da democracia brasileira em não acertar as devidas contas com nosso passado ditatorial? Ou seria isso devido ao fato da democracia pós-1988 nunca ter sido senão uma quimera, como afirmam os vários articulistas da Uninômade, ainda que, em alguns casos, de forma bastante ahistórica? Seria isso o efeito mais imediato do fim do pacto social e da pax lulista que, por um tempo, tentou assegurar que, na democracia social brasileira, ninguém, dos ricos aos pobres, sairia perdendo? Seria isso decorrente do esgotamento global da democracia liberal, a despeito das declarações autocongratulatórias (e cínicas) de seus líderes? Seria isso consequência da reorganização despudorada das classes dominantes brasileiras e internacionais em direção a um autoritarismo neoliberal cada vez mais explícito, refletida no crescimento do neofascismo globo afora? Ou, finalmente, seria isso somente a reação aos acertos dos governos petistas, em especial a sua luta contra as nossas pobrezas e a desigualdades seculares?

Sejam quais forem as respostas para estas perguntas, todas fundamentais para a compreensão, para parafrasear John Williams, do abismo sem fundo que se abre aos nossos pés, uma certeza permanece: precisaremos, urgentemente, encontrar formas de viver em tempos em que, como diria o Dr. Real de Juan José Saer, a barbárie, em seus “instintos inconfessáveis”, se erigiu, ainda que fragilmente, na lei e na ordem bolsonaristas. Isto implica na recuperação da política para além de seu âmbito estritamente eleitoral, na proteção incansável às formas de existência atacadas pelo neofascismo, no resgate daqueles projetos “social-democratas” que Paulo Guedes, o tsar da economia do novo regime, quer ver substituídos por ruínas, e, e talvez isso doa aos proponentes obsessivos de uma “terceira margem” e do “fim da polarização” (que, ao fim e ao cabo, se mostrou menos um efeito de “narrativas” do que algo inscrito no tecido mesmo da sociedade brasileira), na reabilitação, como uma constelação para o presente e o futuro, dos aspectos positivos da única experiência governamental que fez da guerra à pobreza, e não aos pobres, sua razão de ser, mesmo que contraditória, incompleta e limitada por seus erros ou pelos embates aos quais foi submetida. Talvez, enfim, isso tudo passe pela reconstituição de uma ideia de “povo”, e não de “multidão”, que saiba incorporar em si todas as multiformes possibilidades de ser que compõem a experiência brasílica e que deveria ser, já nos disse Laclau, a tarefa de uma política realmente radical. Ou fazemos isso ou sucumbiremos cada vez mais ao horror de uma ordem que ao colocar o Brasil de poucos acima do de todos acabará por obliterar o próprio país em que diz crer.

Notas

[1] Ver a seguinte entrevista de Ruy Fausto: 

[2] Ver a análise, que criticaremos a seguir, de Giuseppe Cocco.

[3] Ver as problemáticas, no nosso entendimento, asseverações de Rosana Pinheiro-Machado.

[4] Ver as colocações de Bruno Cava Rodrigues, com sua conhecida postura hipeteorizante, em uma série de artigos publicados no próprio IHU.

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