Que diabos aconteceu com o Brasil? Artigo de Paul Krugman

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15 Novembro 2018

“O que aconteceu [no Brasil] foi que o real se desvalorizou principalmente devido a esse choque nas condições comerciais, o que acabou elevando temporariamente a inflação. O banco central entrou em pânico, fixando-se no problema da inflação em detrimento da economia real. Agora que o aumento induzido pela moeda acabou, a inflação está realmente baixa pelos padrões históricos, mas o estrago já está feito”. A análise é do economista norte-americano Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, em artigo publicado por The New York Times, 12-11-2018. A tradução é de André Langer.

Segundo ele, "é uma história extraordinária e deprimente; além disso, essa combinação de má sorte e má política certamente desempenhou um papel no subsequente desastre político".

Eis o artigo.

Acredito que posso fazer uma pausa na crise política estadunidense para falar sobre os acontecimentos em outros lugares. Então, como diz o ditado, que diabos aconteceu com o Brasil?

Na verdade, não falo sobre a recente eleição, em que os eleitores brasileiros escolheram alguém que parece ser um verdadeiro fascista. Estou tão horrorizado quanto qualquer outra pessoa. No entanto, não tenho conhecimento algum da política brasileira. Além disso, o pano de fundo desta eleição foi a extraordinária crise econômica do Brasil entre 2015 e 2016: uma nação que estava em uma trajetória ascendente, que parecia ter se livrado do legado da instabilidade, sofreu uma recessão terrível e está passando por uma fase muito difícil, uma recuperação muito lenta. E macroeconomia é um assunto sobre o qual eu deveria saber alguma coisa.

Então, o que aconteceu? Surpreendentemente, tem havido pouco debate internacional sobre a experiência brasileira, embora o que aconteceu seja muito grave e o Brasil seja uma economia bastante grande (o PIB com paridade de compra é cerca de dez vezes maior do que o da Grécia). Talvez estivéssemos todos muito distraídos com a crise política no Ocidente – Trump, Brexit, etc. De qualquer forma, venho tentando analisar a história da crise no Brasil, bem consciente de que posso estar ignorando aspectos importantes.

Eis o que penso que aconteceu: o Brasil parece ter sido atingido por uma tempestade perfeita de má sorte e más políticas, com três aspectos principais. Primeiro, o ambiente mundial deteriorou-se de maneira acentuada, com a queda dos preços das exportações de commodities, ainda muito importante para a economia brasileira. Em segundo lugar, os gastos privados domésticos também caíram, talvez por causa de um acúmulo excessivo de dívidas. Em terceiro lugar, a política, em vez de combater a depressão, exacerbou-a, com austeridade fiscal e aperto monetário, mesmo quando a economia já estava em queda franca.

Talvez a primeira coisa a dizer sobre a crise brasileira seja o que não foi. Nas últimas décadas, quem acompanhou a macroeconomia internacional está mais ou menos acostumado a crises de "parada súbita", nas quais os investidores abruptamente dão as costas a um país que (como diria Otelo) não amavam sabiamente, mas de que gostavam muito bem. Esta é a história da crise mexicana de 1994-95, das crises asiáticas de 1997-99 e, de mais importante, da crise do sul da Europa depois de 2009. É também o que aparentemente estamos vendo na Turquia e na Argentina neste momento.

Sabemos como esta história se passa: o país aflito vê sua moeda se depreciar (ou, no caso dos países do euro, suas taxas de juros disparam). Normalmente, a depreciação da moeda impulsiona a economia, tornando seus produtos mais competitivos nos mercados mundiais. Mas os países de parada súbita têm enormes dívidas em moeda estrangeira, de modo que a desvalorização da moeda prejudica os balanços patrimoniais, provocando uma queda acentuada na demanda interna. E os formuladores de políticas têm poucas opções boas: aumentar as taxas de juros para sustentar a moeda só afetaria a demanda desde outra direção.

Mas, embora possam ter presumido que o Brasil era um caso semelhante – seu declínio de 9% no PIB per capita é comparável ao de crises de crises repentinas do passado –, acontece que não é isso. O Brasil não tem muita dívida em moeda estrangeira, e os efeitos da moeda nos balanços não parecem ser uma parte significativa da história. Em vez disso, o que aconteceu?

Em primeiro lugar, o ambiente econômico global deu uma grande guinada que piorou as coisas. O Brasil, em certa medida, diversificou-se em manufaturas, mas ainda depende fortemente das exportações de commodities, cujos preços despencaram. Como mostra a Figura 1, as condições comerciais do Brasil – a relação entre os preços das exportações e o das importações – tiveram um grande impacto.

Condições comerciais do Brasil

 

Figura 1 | Banco Mundial

 

Isso teria sido desagradável em qualquer caso; no entanto, isso aconteceu em combinação com uma queda acentuada nos gastos do consumo doméstico (figura 2). Atif Mian e coautores dizem-nos que isso estava ligado a um aumento do endividamento das famílias nos anos anteriores – que o Brasil experimentou algo mais parecido com a deflação da dívida de países avançados de 2008 do que uma crise tradicional de mercados emergentes.

Figura 2. Linha vermelha, produto interno bruto por gastos a preços constantes: gasto em consumo final privado para o Brasil; linha azul, produto interno bruto por gasto a preços constantes: gasto em consumo final do governo para o Brasil. À esquerda, mudança percentual em comparação há um ano.
Fonte: Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

 

No entanto, o que realmente afundou a economia brasileira foi a forma como o país respondeu a esses impactos: com uma política fiscal e monetária que tornou as coisas muito piores.

Do lado fiscal: o Brasil tem grandes problemas de solvência a longo prazo, que requerem soluções de longo prazo. O que aconteceu, ao contrário, foi que o governo de Rousseff decidiu impor pesados cortes de gastos no meio de uma recessão. O que eles estavam pensando? Incrivelmente, parece que compraram como válida a doutrina da austeridade expansionista.

E, além disso, a política monetária também se tornou bastante contracionista, com um grande aumento nas taxas de juros (figura 3). O que foi aquilo?

Figura 3. Taxas de juros, títulos do governo, títulos do tesouro para o Brasil. À esquerda, porcentagem anual.
Fonte: Fundo Monetário Internacional - FMI

 

Pelo que sei, o que aconteceu foi que o real se desvalorizou principalmente devido a esse choque nas condições comerciais, o que acabou elevando temporariamente a inflação (figura 4). O banco central entrou em pânico, fixando-se no problema da inflação em detrimento da economia real. Agora que o aumento induzido pela moeda acabou, a inflação está realmente baixa pelos padrões históricos, mas o estrago já está feito.

Figura 4. Taxas de juros, títulos do governo, títulos do tesouro para o Brasil. À esquerda, porcentagem anual.
Fonte: Fundo Monetário Internacional - FMI

É uma história extraordinária e deprimente; além disso, essa combinação de má sorte e má política certamente desempenhou um papel no subsequente desastre político.

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