"Em nossas sociedades tecnocráticas se perde a alegria do viver", constata o Papa Francisco

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26 Setembro 2018

Muita confiança no progresso tecnológico “pode fazer com que se perca a capacidade de criar vínculos interpessoais”. Em nossas “sociedades tecnocráticas” se perde “o sentido da vida, da alegria de viver”, “o bem-estar e o viver bem nem sempre são sinônimos”. O Papa Francisco passou da Lituânia, de maioria católica, para Letônia, onde a metade da população se declara não crente. Agora, conclui sua viagem aos países bálticos com um dia em Tallinn, na Estônia, uma nação na qual 70% da população não professa nenhuma religião. Mais uma vez, dirigindo-se às autoridades políticas no monumental palácio presidencial, referiu-se aos perigos de uma sociedade que perde o sentido da vida e da própria identidade.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 25-09-2018. A tradução é do Cepat.

Saudando sua visita, a presidente Kersti Kaljulaid recordou que “a liberdade religiosa é precisamente uma das rochas sobre as quais se funda nossa democracia”. Recordou também a amizade e a proximidade do Vaticano com seu país: “A Santa Sé nunca reconheceu a ocupação da Estônia. Durante a época soviética, manteve a administração apostólica da Estônia vacante por razões políticas. Com sua autoridade política e moral, a Santa Sé foi fonte de poder espiritual para as nações europeias que foram reféns do comunismo”.

Kersti Kaljulaid observou: “Sempre temos que colocar a atenção em salvaguardar nossa liberdade e os direitos humanos. Se não fazemos isso, podemos obter alguns dias de leve despreocupação, mas herdaremos um futuro cheio de preocupações. Ocultar-se diante dos problemas do mundo não torna ninguém mais forte, nem mais feliz, porque por trás das portas fechadas só pode crescer o medo, nunca um futuro criativo e seguro. É uma responsabilidade compartilhada por cada um de nós encontrar soluções para os problemas do mundo, sejam os sofrimentos das pessoas que escapam das atrocidades e da guerra, da mudança climática e dos problemas migratórios, ou da pobreza”.

Também afirmou que “enfrentar o problema da mudança climática representa uma questão crucial em nossa época, e conhecemos claramente o vínculo que existe entre ele e o problema migratório”.

Também aqui, como na Lituânia e na Letônia, ao tomar a palavra, Francisco recordou os sofrimentos que a população precisou enfrentar: “seu povo precisou suportar em diversos períodos da história momentos duros de sofrimentos e tribulações. Lutas pela liberdade e a independência que sempre se viam questionadas ou ameaçadas. No entanto, nos últimos pouco mais de 25 anos – em que reingressaram com título pleno na família das nações –, a sociedade da Estônia deu “passos de gigante” e seu país, mesmo sendo pequeno, encontra-se em primeira linha no índice de desenvolvimento humano, em sua capacidade de inovação, além de demonstrar um alto nível em relação à liberdade de imprensa, democracia e liberdade política. Também estreitaram vínculos de cooperação e amizade com vários países”.

O Papa explicou que “cultivar a memória agradecida permite identificar todas as conquistas daqueles que hoje gozam de uma história de homens e mulheres que lutaram para que esta liberdade fosse possível, e que por sua vez os desafia a lhes render homenagem, abrindo caminhos para os que virão depois”. E advertiu: “é necessário recordar com insistência que o bem-estar e o viver bem nem sempre são sinônimos. Uma das consequências que podemos observar em nossas sociedades tecnocráticas é a perda do sentido da vida, da alegria de viver e, portanto, um apagar lento e silencioso da capacidade de assombro, que muitas vezes submerge os cidadãos em um cansaço existencial”.

E, assim, pode acontecer que a “consciência de pertencer e de lutar por outros, de estar enraizados em um povo, em uma cultura, em uma família” vai se perdendo pouco a pouco, “privando, especialmente os mais jovens, de raízes onde construir seu presente e seu futuro, já que são privados da capacidade de sonhar, de arriscar, de criar”.

“Colocar toda a confiança no progresso tecnológico como única via possível de desenvolvimento – concluiu Francisco – pode fazer com que se perca a capacidade de criar vínculos interpessoais, intergeracionais, interculturais. Em definitivo, esse tecido vital tão importante para nos sentir parte uns dos outros e partícipes de um projeto comum no sentido mais amplo da palavra”. Uma das responsabilidades “mais importantes que temos todos aqueles que assumimos uma responsabilidade social, política, educacional e religiosa radica justamente em como nos tornar artesãos de vínculos”.

Francisco se deparou com uma temperatura mais baixa na Estônia em relação à Lituânia e Letônia. Brilha o sol, mas há rajadas de vento frio. Durante o discurso, uma dessas rajadas derrubou o solidéu do Papa no Jardim das Rosas do palácio presidencial.

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