Francisco verá uma Irlanda "muito, muito diferente" do que João Paulo II, dizem historiadores

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20 Agosto 2018

Quando o Papa Francisco visitar a Irlanda no final do mês para o Encontro Mundial das Famílias em Dublin, chegará a um país “irreconhecível” em comparação com a ilha que o Papa João Paulo II viu em 1979, de acordo com historiadores católicos e protestantes.

A reportagem é de Claire Giangravè, publicada por Crux, 17-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Enquanto as velhas lutas e sectarismo continuam a influenciar as dinâmicas políticas e religiosas, novos desafios surgiram, como uma onda crescente de secularismo, as incertezas políticas trazidas pelo Brexit e - talvez o mais importante - os danos causados à Igreja Católica por uma crise de abuso sexual de grandes proporções.

Quando João Paulo II visitou a Irlanda, conheceu uma sociedade dilacerada pelo conflito sangrento entre católicos e protestantes, unionistas e republicanos, nacionalistas e legalistas, no período conhecido como “The Troubles” (O Problema, em tradução livre). Naquela época, o Papa enfrentava a enorme tarefa de encorajar a reconciliação e a paz.

Embora menos evidentes, essas questões não perderam totalmente sua relevância. No entanto, Francisco também terá que enfrentar o desafio de que muitas pessoas, incluindo os católicos, perderam a fé na religião e exigem mudanças sistemáticas.

Apesar de tudo isso, o entusiasmo pela visita papal continua forte e o consenso é que as palavras e a presença de Francisco podem ter um impacto significativo nesta ilha em um momento de profundas mudanças.

O fim de uma era: a visita de João Paulo II à Irlanda

Quando o Papa polonês João Paulo II, de 59 anos, chegou à semper fidelis, “sempre fiel”, Irlanda no final de setembro de 1979, a ilha estava passando por confrontos violentos ligados à divisão católica / protestante.

"Ele estava chegando no auge dos problemas", disse Eamon Phoenix, conhecido historiador católico especializado em história da Irlanda e colunista da BBC, em entrevista por telefone ao Crux.

Em 27 de agosto - dois dias antes da chegada do Papa - lorde Mountbatten da Birmânia, primo da rainha Elizabeth II, foi morto junto com outros três durante uma viagem de pesca pelas mãos de terroristas do IRA.

No dia seguinte, 18 soldados ingleses foram mortos por uma bomba detonada pelo IRA perto da fronteira da República da Irlanda, no que é conhecido como o massacre de Warrenpoint.

À luz de tais atrocidades, quando João Paulo II fez sua homilia durante a missa em Drogheda, as palavras mais memoráveis foram um apelo aos paramilitares do país para que trabalhassem para a paz.

“Agora quero falar com todos os homens e mulheres engajados na violência”, disse João Paulo II a uma plateia de milhares de pessoas. “Eu apelo para vocês, na língua da súplica arrebatada. De joelhos, peço-lhes que se afastem dos caminhos da violência e retornem aos caminhos da paz”.

Ele também falou diretamente aos jovens que foram envolvidos e seduzidos pela violência na Irlanda, dizendo que “com todo o amor que tenho por vocês, com toda a confiança que tenho nos jovens: não escutem as vozes que falam a língua do ódio vingança, retaliação”.

Representantes políticos se ajoelharam para beijar o anel do papa e receber sua bênção enquanto ele pedia o fim da violência em uma Irlanda pacificada.

"Tivemos essa combinação de nacionalismo do norte e católicos para receber o papa", disse Phoenix, algo que não ocorrerá nesta viagem, já que Francisco não terá reunião oficial com o governo local.

Apesar de João Paulo II usar a palavra "paz" cinquenta vezes, Phoenix acredita que "o papa não teve impacto" e "suas palavras atingiram ouvidos surdos", já que a violência continuou mesmo após o Acordo da Sexta-feira Santa em 1998.

Mas de acordo com o reverendo Johnston McMaster, um teólogo, historiador e coordenador do programa Education for Reconciliation (Educação para a Reconciliação, em tradução livre) da Irish School of Ecumenics (Escola Irlandesa de Estudos Ecumênicos, em tradução livre) em Belfast, as palavras do papa deixaram sua impressão por gerações.

O apelo de João Paulo II para a paz "foi uma contribuição significativa, dentre outras contribuições", que finalmente abriram o caminho para a reconciliação, disse McMaster ao Crux por telefone.

Ele disse que mudanças profundas estavam ocorrendo na Irlanda a partir dos anos 60 e, enquanto a visita de João Paulo II comoveu católicos no país, a religião já estava perdendo sua influência e apelo.

Em seu famoso discurso em Drogheda, João Paulo II disse procurar “lugares que carregam em si mesmos o sinal de um novo começo”, embora, de acordo com Phoenix, a realidade na Irlanda fosse o oposto.

"Sua visita marcou o fim de uma era", disse ele.

O desafio do Papa Francisco

De acordo com Phoenix, "a Irlanda hoje é irreconhecível" em comparação com trinta anos atrás. A secularização, as celebrações do “Mardi Gras” (carnaval) que se seguiram a um recente referendo para legalizar o aborto, vocações decaindo e a participação decrescente na missa, pintam um quadro muito diferente para a visita de Francisco de 25 a 26 de agosto.

Phoenix disse que o papel da Igreja Católica diminuiu consideravelmente e, embora tenha "consistentemente condenado a violência", não faz o suficiente para promover a reconciliação.

"Acho que ele vai chegar a uma Irlanda muito diferente, que mudou radicalmente, norte e sul", disse McMaster, afirmando que "é uma Irlanda secular".

Mudanças profundas na textura e no contexto do país, disse ele, levaram a uma separação estrita entre a religião e a esfera política. Mas McMaster sugere que "secular" deve ser entendido como uma separação saudável entre Igreja e Estado, e não "o fim da fé".

Em sua opinião, os anos 60 trouxeram uma onda de esclarecimento à qual a ilha havia resistido por séculos, mas à qual se adaptou lentamente, pondo fim ao “fenômeno europeu da cristandade”, onde as esferas religiosas e políticas eram entendidas como uma única entidade.

"Isso finalmente alcançou a Irlanda", disse ele, acrescentando que "as igrejas, todas elas, não reconheceram a mudança completamente".

Esta visita, disse ele, também forçará Francisco a confrontar o “lado sombrio da vida da Igreja aqui na Irlanda”. A crise dos abusos sexuais, amplificada por outros em todo o mundo, é uma questão delicada.

"O papa Francisco dirá algo sobre a responsabilidade da Igreja em lidar com o problema do abuso?", perguntou McMaster, acrescentando que a falta de tal declaração seria recebida com decepção.

"Isso precisa ser colocado em termos de políticas e regras no futuro e garantir que esse tipo de coisa não aconteça ou seja encoberta, que é a percepção geral", acrescentou.

"O que ele dirá terá importância de um jeito ou de outro."

Irlanda do Norte: uma oportunidade perdida

Para muitos católicos e não-católicos que vivem na Irlanda do Norte, o fato de Francisco não fazer uma visita é uma "grande decepção", disse Phoenix. "Ele deveria ter reconhecido os católicos da Irlanda do Norte", acrescentou.

"As pessoas se sentem abandonadas", disse ele, e elas perguntam: "E nós?".

Phoenix disse que as palavras do papa poderiam ter repercutido em muitos jovens no país, praticantes ou não, chamando o não comparecimento de uma "oportunidade perdida".

McMaster concordou que “decepcionante é um eufemismo” na Irlanda do Norte com relação à falta de uma visita papal, especialmente porque todos os líderes religiosos receberam bem o evento.

O que é ainda mais notável, disse McMaster, é que os líderes políticos olharam favoravelmente para a visita apontando para "uma sociedade mais tolerante e [estavam] dispostos a reconhecer que o papa representa 40, ou 50 por cento das pessoas na Irlanda do Norte".

Embora as coisas não estejam tão ruins quanto eram quando João Paulo II visitou a República da Irlanda em 1979, a Irlanda do Norte “não está sem dificuldades”, disse ele, “e ainda continua sendo um processo de paz frágil, com muito trabalho a ser feito."

O sectarismo entre católicos e protestantes e entre diferentes visões para o futuro da Irlanda do Norte está muito vivo hoje, disse McMaster.

“Essa divisão ainda é um 'elefante na sala', mas acho que devemos falar sobre isso”, continuou ele, referindo-se à questão da reunificação. “Somos uma sociedade na Irlanda do Norte onde nos instalamos em uma espécie de apartheid benigno longe da paz e da reconciliação.”

Como o país se move em direção ao centenário da partição da Irlanda em 1921, no contexto do Brexit, as perspectivas na ilha estão mudando. Algumas pessoas temem "que eles possam acabar do lado errado da fronteira novamente, mas desta vez a fronteira europeia", disse ele.

Entre essa incerteza e mudança, uma visita papal poderia ter sido um sinal de encorajamento, disse McMaster, para uma região que já se sente ignorada pelo governo inglês em termos de suas necessidades e aspirações.

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