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15 Julho 2018

“Não resta dúvida de que as políticas de migração de Trump justificam toda a indignação do mundo. Mas, as suas são apenas as últimas do estremecimento de Washington – quando não eliminação – às vidas centro-americanas. Se enganamos a nós mesmos, se optamos em acreditar que suas ações derivam de alguma norma moral, corremos o risco de ficar satisfeitos com mudanças de políticas superficiais. É preciso uma revisão mais profunda para garantir o fim do sofrimento centro-americano”, escreve Nick Alexandrov, em artigo publicado na versão espanhola por Rebelión, 13-07-2018. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Parece ser que os especialistas e políticos estadunidenses acabam de descobrir que as decisões de Washington provocam muitos danos às famílias centro-americanas. Para o New York Times, “separar as famílias... é algo novo e malicioso” que reflete a “falta de coração de Trump” e viola os “valores fundamentais estadunidenses”. “Pelo visto, é como se estivesse pervertendo a ideia dos Estados Unidos”, acrescenta Alex Wagner (The Atlantic). Los Angeles Times pensa que “o enfoque desalmado da administração em relação à aplicação da lei cruzou a linha para uma abjeta desumanidade”, ao abandonar – assim se supõe que devemos acreditar nisso – as práticas anteriores.

Estas são acusações exatas em parte: a política de Trump é maliciosa, cruel, desalmada. Mas, não é nova. Tanto na América Central como ao longo de sua fronteira mexicana, há décadas, Washington tem ajudado a separar as famílias, obrigando as crianças a suportar um mundo sem seus pais e às mães enfrentar o repugnante final de suas crianças. A desumanidade abjeta, em outras palavras, é um selo distintivo da política exterior dos Estados Unidos.

Guatemala, Nicarágua, El Salvador, Honduras..., revisem suas histórias. Esmagados pelas evidências, verão que revelam quais são os valores que formam a conduta de Washington, quais normas governam sua conduta em uma região onde desfruta de uma imensa influência. E começarão a entender a razão pela qual tantas pessoas tiveram que fugir desses países.

Comecem por Guatemala: Ríos Montt, o ditador que os Estados Unidos financiaram, armaram e estimularam, supervisionando ali o genocídio maia. Em um episódio, no dia 3 de abril de 1982, o exército guatemalteco invadiu a aldeia Chel massacrando seus habitantes e deixando Pedro Pacheco Bop órfão. Seus avós, pais e cinco irmãos (de 2 a 14 anos) foram assassinados e seu sangue acabou correndo pelo rio Chel, onde as tropas lançaram os mortos.

Tomas Chávez Brito tinha dois anos quando, sete meses depois, o Exército caiu sobre seu povo, Sajsibán, incendiando seu lar com sua mãe, irmãs e outros familiares dentro. Nas montanhas, onde Tomas se escondeu durante o ano seguinte, alimentando-se de plantas para sobreviver, é possível imaginar como a ideia de orfandade, sua nova realidade, ficou estabelecida em sua mente.

A separação de Margarita Rivera Ceto de Guzmán de sua família foi mais rápida. Os soldados a esfaqueou no ventre, matando seu nascituro.

Egla Martínez Salazar, ao abordar este genocídio, explica que os assaltos aos lares maias transmitiam “a mensagem de que os maias não viviam em famílias “reais”, mas em “modos de vida” que constituíam espaços de criação para ‘o doutrinamento comunista internacional’”. Erradicar estes espaços requeria o “assassinato massivo das crianças”, mais “a transferência forçada das crianças maias sobreviventes para famílias militares e paramilitares”, táticas que também foram adotadas pelas forças salvadorenhas, nos anos 1980.

Além de matarem a maioria dos 75.000 assassinados de 1980 a 1992 - na tramoia em que Carter, Reagan e Bush I canalizaram 6 bilhões de dólares para o país -, “os soldados [também] sequestraram crianças naquilo que um tribunal internacional denominou ‘padrão sistemático de desaparições forçadas’”.

Modelos de violência similares atingiram a Nicarágua e Honduras. Os Contras ostentaram o seu talento na hora de destruir famílias no primeiro desses países, como no dia 3 de abril de 1984, quando uma massa de Contras invadiu o povo de Waslala. Ali, um pai desesperado para salvar sua mulher e seus filhos se refugiou com eles em uma vala. Os Contras o encontraram e o retiraram dali. Eles o “torturaram, cortando as pontas de seus dedos, em seguida, a mão direita, para finalmente o matar a golpes de baionetas”, e depois o decapitaram, relata Reed Brody. Como gesto final da pureza de sua missão, os Contras fizeram uma cruz à base de cortes nas costas do morto.

Brody conta outra história: Em “El Achote, um grupo Contras arrastou um trabalhador da reforma agrária para fora de sua casa e, diante de sua mulher e seus filhos de onze meses e três anos, lhe despedaçaram com suas baionetas. Em seguida, dispararam em sua mulher, embora tenha vivido o suficiente para observar como cortavam a cabeça de seu bebê de onze meses”.

Foi o batalhão 316 que se dedicou a atacar as famílias hondurenhas. The Baltimore Sun informava que a unidade, “treinada e apoiada pela Agência Central de Inteligência”, “sequestrou, torturou e assassinou” centenas de pessoas nos anos 1980. Um exemplo: Nelson Mackay Chavarría “tinha 37 anos e cinco filhos” quando o batalhão o atingiu. Quando descobriram seu cadáver, tinha “as mãos e pés amarrados com uma corda” e “um líquido preto saia de sua boca”: creolina, a substância que se aplica ao gado para acabar com carrapatos e ácaros”.

Em décadas mais recentes, o governo estadunidense converteu a fronteira mexicana em uma região para destroçar famílias. Por exemplo, a Operação Guardião do presidente Clinton “só serviu para dificultar que as pessoas cruzassem a fronteira por lugares relativamente seguros, obrigando-as a fazer isso por lugares mais perigosos, como o deserto de Arizona”, escreve Carolina Bank Muñoz. Destaca que “a política separou as famílias, já que muito poucas delas estavam dispostas a assumir tais riscos cruzando juntos uma fronteira perigosa”.

Maggie Morgan e Deborak Anker, citando um trabalho da ACLU, destacam que “o risco de morrer enquanto cruzavam pelo Arizona era 17 vezes maior em 2009 que apenas uma década antes” e que a “taxa de mortalidade quase duplicou”, de 2009 a 2012, sob a vigilância de Obama, “constituindo as crianças 10% das mortes a cada ano”. Todd Miller estima que esses “Campos da morte do sudoeste” acabaram com 21.000 vidas, desde os primeiros anos da década de 1990.

Não resta dúvida de que as políticas de migração de Trump justificam toda a indignação do mundo. Mas, as suas são apenas as últimas do estremecimento de Washington – quando não eliminação – às vidas centro-americanas. Se enganamos a nós mesmos, se optamos em acreditar que suas ações derivam de alguma norma moral, corremos o risco de ficar satisfeitos com mudanças de políticas superficiais. É preciso uma revisão mais profunda para garantir o fim do sofrimento centro-americano.

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