Francisco, um papa ''burguês''? Uma resposta a Andrea Grillo

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19 Junho 2018

Andrea Grillo, como a maioria da teologia contemporânea, demonstra ter suspeitas em relação às categorias, à arquitetura conceitual, à clareza doutrinal. Por reação ao intransigentismo fechado da velha Escolástica, ele cede à tentação oposta, a celebração de um historicismo experiencial em que a ‘profecia’ se torna uma categoria fluida, uma ‘crítica’ do existente, um conceito dialético à la escola de Adorno ou de Bloch.”

A opinião é do filósofo italiano Massimo Borghesi, professor da Universidade de Perugia, Itália. O artigo foi publicado em Frammenti di Pace, 16-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Depois das críticas de direita ao meu livro “Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual” (Vozes, 2018), não podia faltar uma crítica de esquerda.

Andrea Grillo, professor de teologia no Pontifício Ateneu Sant’Anselmo de Roma, pensou nisso na sua resenha “A virada profética do Papa Francisco: virtudes histórico-filosóficas e vícios sistemáticos de uma biografia intelectual”.

Grillo acaba de retornar de um importante Simpósio IHU, realizado em Porto Alegre, no Brasil, dedicado à “Virada profética do Papa Francisco”.

Lá, ele percebeu a relevância do meu livro. Segundo o autor, ele

“apareceu de modo particularmente importante justamente no Simpósio IHU, porque foi publicado no ano passado em italiano, mas já tem uma tradução em português e, em breve, terá uma tradução em inglês. Na apresentação que foi feita dele no congresso brasileiro, aparecia claramente a intenção de pedir ao livro a delicadíssima função de ‘apresentar’ e ‘acompanhar’ Francisco nos Estados Unidos, que eclesialmente sentem uma grande dificuldade em receber serena e plenamente o seu magistério. A biografia de Borghesi, portanto, deveria ‘tranquilizar’ e ‘garantir’ o magistério de Francisco”.

A “tranquilização” levantou suspeitas em Grillo, como se o objetivo do meu trabalho fosse o de “neutralizar” a novidade do pontificado, a ponto de induzir o teólogo a uma resenha que, para além de alguns reconhecimentos, ressoa como uma dura crítica.

Desse modo, um volume que queria mostrar a grande originalidade do pensamento de Jorge Mario Bergoglio, a novidade do seu testemunho no cenário mundial, é agora apresentado como uma versão fluidificante-suavizante da figura do papa, uma versão “burguesa” dele.

O “branqueamento” dependeria do método usado, o histórico-filosófico, cujo objetivo seria o de ofuscar a teologia “profético-revolucionária” que guiaria a obra do papa latino-americano.

Como escreve Grillo em um artigo anterior:

“Uma leitura ‘filosófica’ e ‘místico-ascética’ do Papa Francisco se orienta mais facilmente a uma continuidade substancial com os antecessores, também em vista de uma redução o maior possível do ‘escândalo’ que Francisco traz ao catolicismo burguês. Essa abordagem não tematiza a teologia mais por medo do que por escolha. Isso parece objetivamente favorecido por uma leitura ‘filosófica’ das fontes de Francisco, que não avança até o fim na análise teológica das suas inspirações. Quase como se a ‘teologia’ ficasse ‘suspensa’, para fazer falar apenas a mística inaciana e a inspiração filosófica (essa orientação está presente sobretudo em [Austin] Ivereigh e [Massimo] Borghesi).”

Grillo também envolve na sua crítica, além do meu trabalho, a grande biografia de Austen Ivereigh, traduzida para o italiano com o título Tempo di misericordia. Vita di Jorge Mario Bergoglio (Mondadori, 2014).

O “punto dolens”, portanto, estaria dado por uma leitura “filosófica” do pensamento de Bergoglio que colocaria em segundo plano a sua teologia disruptiva, a sua radical “descontinuidade” em relação à dos papas anteriores, de Bento XVI em primeiro lugar.

De fato, esse é o verdadeiro ponto de discórdia, o ponto crítico que explica as objeções de Grillo ao meu livro. Para o teólogo de Sant’Anselmo, a minha afirmação – segundo a qual se trata de “superar o lugar-comum da oposição de Francisco a Bento XVI, promovido pelos conservadores. Na realidade, estamos diante de uma diversidade de estilos e de ênfases, não de conteúdos” – é
inaceitável.

Porém, eu acrescentava, na Introdução ao meu texto, uma passagem de Massimo Faggioli que esclarecia bem a minha posição, mostrando que a diversidade de ênfases significa também uma prioridade diferente concedida aos conteúdos. Faggioli escreve no seu livro Papa Francesco e la Chiesa-mondo (Armando, 2014):

“Se o longo pontificado Wojtyla-Ratzinger se caracterizou pelo magistério da Igreja sobre as questões morais e sociais, por uma decisiva ênfase ‘antropológica’ ligada à ideia de ‘lei natural’, o Papa Bergoglio parece ser animado por uma visão mais histórico-cultural alinhada com o ambiente teológico latino-americano do qual provém, e por uma visão mais espiritual do que teológica do ministério do pontificado romano. O pontificado de Bento XVI, ‘papa teólogo’ (no sentido do teólogo acadêmico), poderia permanecer como uma exceção na história do catolicismo moderno. O deslocamento da ênfase com Bergoglio, do papado teológico ao espiritual, apresenta algumas incógnitas para os futuros arranjos do catolicismo. Mas essa escolha alternativa à de Ratzinger não faz de Bergoglio um progressista ou um liberal (assim como Ratzinger não era um reacionário). Bergoglio é um ‘católico social’ com uma visão ambivalente e complexa da ‘modernidade’.”

O texto de Faggioli responde, antecipadamente, às críticas de Grillo ao meu livro. Bergoglio é um “católico social”, e não um católico “progressista”, como Grillo gostaria.

Em segundo lugar, ele não é um “papa teólogo” como Ratzinger. Sobre esses dois pontos, verte a minha profunda discordância com Grillo. Ele me acusa de reconstrução ideológica porque eu “aburguesaria” a figura do futuro pontífice. Na realidade, a partir da minha reconstrução, emerge com força o radicalismo social de Bergoglio – “Nunca fui de direita”, diria ele ao Pe. Spadaro na sua entrevista para a revista La Civiltà Cattolica –, a sua crítica impiedosa a um sistema financeiro e a uma economia que mata, mas, ao mesmo tempo, a sua profunda fidelidade à tradição em matéria de doutrina.

O filão de Bergoglio é do grande pensamento católico entre os séculos XIX e XX, o filão da Igreja como “coincidentia oppositorum”, que inclui Mohler, Przywara, Guardini, De Lubac, Fessard.

A partir daí surge, na revisitação dos Exercícios Inacianos, realizada por Gaston Fessard, a “teologia” de Bergoglio, a concepção da relação entre graça e liberdade, mística e teologia, fé e promoção humana, misericórdia e verdade. Eu não fiz de Bergoglio um “filósofo”.

Isso seria ridículo.

Eu escrevi um livro sobre a sua “biografia intelectual”, sobre o seu pensamento católico. Grillo me acusa de olhar o papa com lentes filosóficas. Temo que seja ele quem o leia com as suas lentes, as de uma “teologia” que não pertence a Bergoglio, mas somente a Grillo.

Uma teologia da descontinuidade que colide fortemente com o modelo da polaridade que guia toda a ação pastoral do papa, que não oferece razões, por exemplo, sobre a reforma da teologia da libertação realizada pela escola do Río de La Plata, justamente para não romper com a fé eclesial.

A descontinuidade radical entre Francisco e Bento, que o autor propõe a partir da teologia “profética” de Francisco, é uma “construção” conceitual de Grillo, uma projeção ideal sua.

Por isso, ela não se contenta em intervir nos casos particulares, como a Amoris laetitia faz em relação à possível eucaristia para os divorciados em segunda união. Ela quer a modificação da doutrina. Grillo dá a entender claramente isso em um artigo recente:

“Para poder ‘sair da autorreferencialidade’ e tornar-se realmente ‘heterorreferencial’ – ou seja, para não pôr o centro em si mesma, mas o Outro e o outro – a Igreja, acima de tudo, deve reconhecer que é investida com uma autoridade real e eficaz. Em outras palavras, ela deve poder confiar na possibilidade de intervir com autoridade sobre a própria doutrina e disciplina – sobre aquilo que pensa de si mesma e sobre aquilo que faz consigo mesma – sem ceder à tentação de ‘impedir-se uma reavaliação’, talvez em nome da fidelidade à tradição.

“Se a Igreja pensa que o único modo de ser fiel ao Evangelho é continuar em tudo e para tudo como antes – tanto doutrinal quanto disciplinarmente – ela se convencerá imediatamente que deve permanecer absolutamente imóvel para ser plenamente si mesma. Fará do imobilismo a sua obsessão.

“A essa tentação, Francisco quis responder com três anos de uma palavra profética, que, acima de tudo, quer persuadir a Igreja e o mundo de duas coisas: que a fidelidade é mediada pelo movimento, pela conversão, pela saída pelas ruas, não pela estase, pelo medo e pelo fechamento dentro dos muros; que, para se mover, é preciso reconhecer a autoridade de estar na história da Igreja e da salvação de modo partícipe e ativo, não como espectadores mudos e passivos, ou como simples ‘notários’.”

Parece difícil atribuir tal leitura a Francisco. A “descontinuidade formadora” do papa, como Grillo a chama, investe sobre a prática, não sobre a doutrina. Sua reforma da Igreja visa a colocar em primeiro plano o kerygma em relação aos ditames ético-morais, a desclericalizar, a se contrapor aos processos de burocratização eclesiástica. No plano social, ela visa a reposicionar o catolicismo, fortemente aburguesado na era da globalização, com base no compromisso pelos “descartados” do mundo e pela paz.

Ao contrário, Grillo apresenta um sonho, o sonho de um papado que, no pretenso “espírito” do Concílio Vaticano II, romperia com 2.000 anos de história da Igreja. Francisco, o messias da virada, introduziria a Igreja na terra prometida da liberdade após a longa Idade Média que – desde sempre? – envolveu o cristianismo histórico.

Essa é uma versão utópica que entende a “reforma” conciliar como uma “revolução”, é o Concílio visto com os óculos do pensamento de 1968.

É a mesma ideia, com uma avaliação invertida, que a direita católica tem de Francisco. Grillo, lamento dizer, oferece o álibi a esse mundo, que, assim, com a consciência tranquila, pode continuar a sua batalha contra um papa que “não existe”! É o Bergoglio imaginário de Aldo Maria Valli [cf. Il Bergoglio immaginario di Aldo Maria Valli].

Eu não tenho a pretensão, obviamente, de que o “meu” Bergoglio represente todo o Bergoglio.

Guzmán Carriquiry, na sua Introdução ao livro, esclarece bem isso. Eu sei, porém, com certeza, que o texto foi fortemente apreciado pelo papa, que, ao que parece, não detectou nenhuma redução “filosófica” da sua figura. O meu livro visa a restituir o rosto “poliédrico” do futuro papa, não pretende esmagá-lo em uma tese.

O fato de ele traçar um fio dourado do seu pensamento não o enjaula em um sistema, pela simples razão de que o sistema de Bergoglio – modulado pela teoria dos princípios e dos pares polares – é, assim como o de Guardini, um sistema “aberto”, em conformidade com o primado da mística.

Grillo, como a maioria da teologia contemporânea, demonstra ter suspeitas em relação às categorias, à arquitetura conceitual, à clareza doutrinal.

Por reação ao intransigentismo fechado da velha Escolástica, ele cede à tentação oposta, a celebração de um historicismo experiencial em que a “profecia” se torna uma categoria fluida, uma “crítica” do existente, um conceito dialético à la escola de Adorno ou de Bloch.

Assim, divididos entre os neoescolásticos tradicionalistas críticos do papa e os “profetas” de uma fé pós-conceitual e pós-doutrinal, consuma-se o vácuo do pensamento católico contemporâneo.

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