Renúncia de Viganò: bastidores e perguntas ainda em aberto

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23 Março 2018

O Mons. Dario Viganò, o homem forte da comunicação vaticana, renunciou com uma carta ao Papa Francisco datada de 19 de março. A renúncia foi acolhida nessa quarta-feira, 21, “não sem alguma fadiga” pelo pontífice, que, por sua vez, escreveu ao seu agora ex-“ministro” das comunicações pedindo-lhe para permanecer como “assessor” no mesmo dicastério, cargo inventado ad hoc. É o epílogo para alguns inevitável, para outros surpreendente, do “suspense” em torno da carta de Bento XVI e das suas omissões. Um “suspense” que ainda deixa interrogações sem resposta.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 22-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na segunda-feira, 12 de março, apresentando a coleção de 11 volumes dedicados à “Teologia do Papa Francisco”, o Mons. Viganò leu uma carta enviada a ele pelo papa emérito. Bento XVI rotulava como “tolo preconceito” considerar Francisco como desprovido de preparação teológica, falando, ao mesmo tempo, de “continuidade interior” entre os dois pontificados.

O comunicado oficial apresentava a missiva ratzingeriana como um endosso ao pontífice no cargo, limitando-se, porém, a reproduzir apenas os dois primeiros parágrafos do texto. Durante a coletiva de imprensa, Viganò também leu um terceiro parágrafo, no qual Ratzinger recusava o convite para escrever um prefácio aos livrinhos, explicando que não os tinha lido e que não tinha nem a força nem a possibilidade de fazê-lo.

A não citação dessa passagem no comunicado oficial fez explodir, na terça-feira, 13 de março, uma primeira polêmica à qual se somava a da foto da carta divulgada pelas mídias vaticanas, que havia sido desfocada de propósito nas duas últimas linhas.

Como se não bastasse, no sábado, 17 de março, enquanto Francisco estava visitando os lugares do Padre Pio, divulgou-se o rumor sobre a existência de mais um parágrafo omitido: aquele em que Bento XVI apontava para a impropriedade da escolha de um dos editores da coleção, o teólogo alemão Peter Hünermann, que, no passado, foi crítico ao próprio Ratzinger e João Paulo II. A indiscrição obrigava a Santa Sé a publicar, finalmente, o texto original.

Viganò optou por divulgar uma carta privada, omitindo algumas de suas partes, sem o conhecimento de seu autor, Ratzinger? Ou avisou de algum modo o séquito de Bento XVI e, em particular, seu secretário, o arcebispo Georg Gänswein? Perguntas ainda sem resposta.

Sobre a gestão do caso, surgiu um tsunami de reações, com reiterados pedidos de demissão do prefeito, um “ministro” poderoso da Cúria Romana, porque, em junho de 2015, recebera um mandato pleno e carta branca do pontífice – que sempre o defendeu – para implementar a reestruturação das mídias vaticanas.

O estudo inicial do projeto havia sido confiado à McKinsey (consultoria de 420.000 euros, mais outras despesas). A ideia era a de unificar as várias realidades informativas, colocando-as na rede e criando uma plataforma digital única para divulgar artigos, imagens e podcasts. Com a tarefa de reduzir gradualmente o importante déficit, cortando as despesas.

Na carta de renúncia, Viganò não faz referência explícita à confusão das omissões. “Nestes últimos dias – escreve o prefeito demissionário – levantaram-se muitas polêmicas acerca da minha atuação que, para além das intenções, desestabiliza o complexo e grande trabalho de reforma que o senhor me confiou e que vê, agora, graças à contribuição de muitíssimas pessoas, começando pelo pessoal, o cumprimento do trecho final”.

Viganò agradece ao papa pelo apoio e pela renovada estima. Mas acrescenta: “No respeito das pessoas, porém, que trabalharam comigo nesses anos e para evitar que a minha pessoa possa, de algum modo, retardar, prejudicar ou até mesmo bloquear” o caminho da reforma, “e, acima de tudo, por amor à Igreja e ao senhor, Santo Padre, peço-lhe que acolha o meu desejo de me colocar à parte, ficando à disposição, se o senhor desejar, para colaborar em outras modalidades”.

Francisco respondeu elogiando o compromisso de Viganò e acolheu, “não sem alguma fadiga”, sua renúncia, deixando-o no organograma do dicastério. Portanto, defende com a espada desembainhada o projeto sobre as mídias “por mim aprovado e regularmente compartilhado”. Acrescentando um parágrafo particularmente significativo, em que especifica que a reforma “já chegou ao trecho conclusivo com a iminente fusão do L’Osservatore Romano dentro do único sistema comunicativo da Santa Sé”.

Citação não casual, porque justamente essa última fusão havia sido procrastinada pelo diretor do jornal vaticano, Gian Maria Vian, com o aval da Secretaria de Estado. O papa agora disse claramente que quer levá-la até o fim, mesmo sem Viganò.

O e-mail do dia 17 de março

Na origem da retumbante renúncia do prefeito da comunicação vaticana, certamente está a gestão comunicativa da carta de Ratzinger. Mas é indubitável que o que contribuiu com a saída de cena do Mons. Viganò e com o epílogo dessa quarta-feira foram as tensões com outros órgãos curiais, em particular com a Secretaria de Estado.

A reforma das mídias centrou nas mãos do prefeito um notável poder, e sua gestão causou mais do que um cabo de guerra. O último episódio remonta a sábado passado. No dia anterior, na manhã de sexta-feira, 16 de março, Francisco recebera em audiência seminaristas e sacerdotes dos colégios romanos. O papa havia dado indicações de que não queria que o encontro acontecesse com a transmissão ao vivo em áudio e vídeo.

O L’Osservatore Romano, que tinha um jornalista presente, publicou na edição que foi distribuída naquela mesma tarde um relato sucinto, resumindo os conteúdos, mas sem quaisquer aspas do papa. No sábado de manhã, enquanto o papa estava em San Giovanni Rotondo, a Secretaria de Estado perguntou a Francisco se ele desejava que a transcrição na íntegra do diálogo com os seminaristas fosse distribuída aos jornalistas e, portanto, publicada. Bergoglio teria respondido que não, acrescentando que a linha a se seguir seria a do relato resumido do L’Osservatore, sem aspas.

Assim, a Secretaria de Estado, por volta das 10h30, enviou uma mensagem a uma dezena de endereços de e-mail das mídias vaticanas e da Sala de Imprensa, para informar que a transcrição do texto papal não seria publicada e que era preciso se ater à notícia do L’Osservatore.

Dentro de poucos minutos, chegou a todos os endereços de e-mail uma dura réplica de Viganò, sem saber que a indicação através da Secretaria de Estado vinha diretamente do papa: o prefeito denunciou “confusão”, reivindicando a autonomia da Sala de Imprensa e, mais em geral, da Secretaria para a Comunicação, em relação ao L’Osservatore Romano.

Em sua resposta, acrescentou que as outras mídias vaticanas teriam relatado a crônica do diálogo do papa com os seminaristas como consideravam mais apropriado. Quando essa troca de e-mails ocorreu, a polêmica em torno dos rumores sobre o último parágrafo omitido da carta de Ratzinger ainda não tinha explodido.

A notícia sobre as linhas não divulgadas do papa emérito provocou mais um terremoto, e, depois de uma rápida rodada de consultas entre Viganò, a Secretaria de Estado e a comitiva de Bento XVI, decidiu-se finalmente por publicar o texto na íntegra.

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