Francisco. Profeta da misericórdia para o mundo. Artigo de Walter Kasper

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12 Março 2018

É dedicado ao quinto aniversário do pontificado do Papa Francisco o estudo do mês proposto na nova edição da revista Il Regno. É assinado pelo o cardeal Walter Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, um dos colaboradores mais próximos do Papa. Significativamente é intitulado "Anuncio-vos um tempo" e vai para o coração do magistério de Francisco, a partir de uma das suas palavras-chave: misericórdia.

A seguir apresentamos, em antecipação, um grande extrato da reflexão do cardeal alemão.

O extrato é publicado por Avvenire, 11-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Aproximando-nos do quinto aniversário do pontificado do Papa Francisco nos perguntamos: qual é a mensagem central desse pontificado, tão rico de gestos e palavras surpreendentes? O próprio Papa respondeu com estas palavras à pergunta de um repórter em 28 de julho de 2013, no voo do Rio para Roma: "Eu acho que este é o tempo da misericórdia". Assim ele mencionou uma - se não a - palavra básica do programa pastoral de seu pontificado, e ao mesmo tempo fez um diagnóstico significativo do nosso tempo.

Estamos em um período de transição complexo ou, como ele disse recentemente, não é apenas uma época de transição e de mudanças rápidas em todas as esferas da vida, mas de uma "mudança de época" (Veritatis gaudium, n. 3), o advento de uma nova era, qualificada pelo Papa de modo profético surpreendentemente como um tempo de misericórdia. Essa caracterização da mensagem do Papa Francisco como profética, é claro, não quer negar uma competência teológica específica.


Tempo como profecia

Na linguagem profética bíblica, que fala não só com palavras, mas também por gestos, por "tempo" não se entende só o tempo cronológico, o que transcorre ao longo dos dias, semanas, anos, inarrestável, que tudo relativiza, mas o tempo qualitativamente pleno no sentido do kairós bíblicos, segundo o qual tudo tem seu momento. Um tempo para nascer e morrer, um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo de prantear e um tempo de dançar; um tempo para a guerra e um tempo de paz (cf. Qo3,1-8 ).

João XXIII e o Concílio Vaticano II falam de "sinais dos tempos", não significando apenas o tempo vazio, que escorre, mas o escatológico do reino de Deus que chega, surge, irrompe (cf. Lc 12,56, Mt 16, 3).

Nesse caso, o tempo não é um futuro que se aproxima, mas um advento que chega. O fim do tempo escatológico não é futuro distante, no fim dos tempos, mas é o tempo de Deus aqui e agora.

Para Deus é o tempo de graça da vinda e da proximidade de Deus, para nós é o tempo da decisão, da conversão e da fé. Se perdermos ou desperdiçarmos o tempo da graça, então virá o tempo do juízo. O discurso profético não é uma sábia previsão de eventos futuros, mas uma anunciação do tempo; diz que está aqui agora o que está se aproximando; incentiva, desperta, sacode, convida à conversão.

Quando o Papa Francisco fala de um tempo de misericórdia, oferece uma dessas interpretações proféticas do nosso tempo. É uma mensagem de graça para o nosso tempo, que às vezes parece tão vazio e enredado na violência e no conflito, e é também um incentivo para abrir nossos corações ao Deus misericordioso e aos irmãos e irmãs que estão em necessidade. Porque esta palavra que soa um pouco ultrapassada, misericórdia, e significa literalmente 'ter coração (cor) para os pobres (míseros)'.

Já era a mensagem central do Antigo Testamento, e ainda mais de Jesus: Deus é um Deus misericordioso. Jesus apresentou-se com a boa notícia de que "o tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo" (Mc 1,15); ele falou de um ano de graça do Senhor (cf. Lc 4:19), e convidou à conversão e à fé para abrir nossos corações para Deus e para os pobres no sentido mais amplo do termo: os pobres materialmente, os cultural e socialmente pobres, e até mesmo aqueles que são pobres espiritualmente, como aqueles que estão desorientados e interiormente vazios, aqueles que estão oprimidos pela tristeza e desolação, aqueles que arrastam sentidos de culpa e pesados fardos e vivem longe de Deus.

Para muitos essa mensagem de Jesus tornou-se um escândalo, uma pedra em que tropeçaram e caíram (cf. Lc 4,27-30). Assim Jesus tornou-se um sinal de contradição (cf. Lc 2,34). Se, portanto, o Papa Francisco anuncia hoje o tempo da misericórdia e, junto a muito consenso encontra também objeções e resistências, isso não depõe contra ele, mas mostra que ele já está seguindo Jesus.

A um Papa que torna atual a mensagem de Jesus não pode acontecer nada de diferente. As objeções mostram que é um verdadeiro profeta, que não diz como os falsos profetas “paz, paz!'', “mas, não há paz" (Jer 6:14). Apresenta-se como o apóstolo que "no momento oportuno e não oportuno" (2Tm 4,2) diz qual é o problema e o que decorre de decisivo para a atualidade.


Radical, ou seja, nas raízes

Em sua primeira carta apostólica programática de 2013, Evangelii gaudium, o Papa Francisco diz claramente que em sua opinião tudo depende do Evangelho. Ele remete à Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (1975) do Papa Paulo VI, em cujo pontificado Jorge Mario Bergoglio adquiriu a formação teológica, que o marcou profundamente, e que recebeu, em 1969, a ordenação sacerdotal.

Da mesma forma, o fato de que ele foi o primeiro Papa da história a ter escolhido o nome de Francisco o vincula a São Francisco de Assis, para quem a única preocupação era viver o Evangelho, sine glossa.

Francisco é, não no sentido confessional, mas no original da palavra, um Papa evangélico, um Papa não liberal, mas radical, ou seja, um papa que vai às raízes.

O Evangelho não é para ele um compêndio de doutrinas ou um código de normas morais, mas - como em Tomás de Aquino - é o dom do Espírito Santo, que se manifesta na fé, que atua pelo amor (cf. Evangelii gaudium, n. 37). No coração do Evangelho há a misericórdia. Em Jesus Cristo, o rosto misericordioso do Pai que se tornou finalmente visível para nós, experienciável.

Na misericórdia de Deus, incompreensível e oculto, que habita em uma luz inacessível (cf. 1 Ti 6:16), revela-se a nós como amor que se auto comunica e é generoso (cf. 1 Jo 4, 8), e, comunicando conosco através do Espírito Santo, fica perto de nós de maneira amorosa, ajudando e curando, perdoando, consolando, encorajando e apoiando. Martinho Lutero em um sermão falou de Deus como uma fornalha ardente cheia de amor.

Essa mensagem do Evangelho da misericórdia de Deus hoje encontra um tempo de violência brutal e desumano, em que muitas pessoas estão feridas no corpo e na alma; uma época em que muitas antigas supostas certezas colapsam e o futuro é cheio de incertezas; onde muitos estão com medo e muitas vezes já não veem nenhuma saída nem futuro; um momento em que o deus dinheiro domina o mundo sob a forma de um capitalismo hegemônico globalizado, em que o amor esfria, o individualismo e o egoísmo triunfam; um tempo de indiferença globalizada para os milhões de pessoas que estão excluídas das bênçãos da civilização e se tornaram em certo sentido um descarte. A face de Deus para muitos ficou obscurecida. As palavras de Friedrich Nietzsche "Deus está morto", muitas vezes entendida também como diagnóstico de uma época, não significa que Deus não exista ou não esteja mais lá, mas que não parece mais emanar dele qualquer força vital. Deus tornou-se indiferente para tantos que vivem como se Deus não existisse (etsi Deus non daretur). (...).


Um Papa que ama (também) o tango

Para o Papa Francisco a valorização da consciência humana, cada vez única na nossa civilização pós-moderna e pluralista, também tem consequências políticas e sociais. Já o Concílio Vaticano II, após um longo debate, na Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae redefiniu o lugar e o papel da Igreja na sociedade pluralista moderna após o fim do período pós-Constantino.

Nessa declaração, o Concílio, como resultado do reconhecimento da dignidade da consciência pessoal, ensinou que as normas morais dizem respeito e vinculam as pessoas em sua consciência e são reconhecidas pela mediação de consciência (cf. Dignitatis humanae, n. 1, 3).

Enquanto isso no mais de meio século decorrido desde o Concílio o mundo mudou ainda mais dramaticamente. A globalização, as novas mídias, a migração e, não menos importante, a rápida e crescente urbanização fizeram da convivência entre diferentes religiões, culturas e grupos étnicos uma realidade diária e um desafio para a paz.

Nessa situação é um sinal da Providência que com o Papa Francisco tenha subido ao trono de Pedro o primeiro Papa que não provêm do território do Império Romano, nem da Europa e do mundo ocidental, mas cresceu em uma metrópole do hemisfério sul. Jorge Mario Bergoglio cresceu em Buenos Aires, respirando a atmosfera dessa metrópole desde jovem, junto aos filmes modernos, ao teatro e à música. Em cidades como Buenos Aires, São Paulo, Cidade do México, Nova York, Tóquio, Manila e Cairo os contrastes são acentuados: entre ricos (ou super ricos) e pobres, entre os centros com modernos arranha-céus de aço e vidro e as periferias pobres das favelas e dos subúrbios. Em uma urbanização que avança rapidamente, o mundo global parece estar ficando cada vez mais uma grande metrópole global. O Papa Francisco está ciente da nova situação e as consequências que tem para a pastoral. Embora tenha uma grande sensibilidade pela piedade popular, não cultiva saudades do idílico vilarejo rural ou da pequena cidade. A sua preocupação é a pastoral das grandes cidades (cf. Evangelii gaudium, n. 71-75).

Nesse novo ambiente não quer uma igreja que se preocupe só de si mesma e que se celebre de maneira autorreferencial, mas uma Igreja em movimento, uma Igreja em estado permanente de missão (cf. Evangelii gaudium, n. 22-25). Tal missão pastoral inclui hoje, mais do que nunca, o encontro com outras culturas e religiões e nos obriga a uma reflexão mais profunda sobre o diálogo inter-religioso e intercultural, que são muito importantes para a paz no mundo atual (cf. Evangelii gaudium, n. 250-254).

Para o Papa Francisco a missão e diálogo não são a mesma coisa, mas estão intimamente ligadas. A missão não acontece através do proselitismo, mas através da atração (cf. Evangelii gaudium n. 14) e o diálogo não é sincretismo, confusão ou uma recíproca absorção, não é banal diplomacia e tática, mas o entendimento e desmantelamento mútuo de preconceitos e mal-entendidos.

Todo diálogo pressupõe um terreno comum.

Diálogo e anúncio: no coração ou no corpo da Igreja

Aqui, novamente Francisco refere-se a um documento da Comissão Teológica Internacional, O cristianismo e as religiões (1996), que evidencia que o ponto de encontro entre as religiões é a consciência pessoal de cada homem. Segundo o Evangelho de João, o Logos, que na plenitude do tempo se fez carne (cf. Jo 1,14), era desde sempre a luz dos homens (cf. Jo 1,4).

Portanto, também os não-cristãos, que escutam a sua consciência e seguem o mandamento fundamental do amor de acordo com a Regra de Ouro, que de uma forma ou de outra é encontrada em toda religião, cumprem o que a Lei e os Profetas exigem (cf. Mt 7,12; 22,40). Assim, mesmo os não-cristãos em sua consciência são guiados pelo Espírito de Deus, que trabalha no mundo mesmo fora da Igreja. Eles também estão envolvidos no caminho de Deus com os homens, estão ligados ao mistério pascal e podem encontrar a salvação eterna. Não pertencem ao corpo visível da Igreja, mas ao coração da Igreja.

Tal reflexão confere ao Papa Francisco uma abordagem teológica ampla e profunda para o problema fundamental da coexistência e da paz no nosso mundo globalizado e urbanizado, e lhe permite assumir o comando de um magistério universal, que o torna com a sua mensagem profética de misericórdia um operador de paz (Mt5,9).

Em suas viagens, especialmente na Ásia, ele falou sobre a abertura do coração, que é o requisito de toda cultura de encontro. É a porta que nos permite trilhar o caminho de um diálogo não apenas teórico, mas de um diálogo de vida. Esse diálogo é como uma escada para alcançar o absoluto, em que a cada degrau torna o nosso olhar mais claro para entender e apreciar os outros. Finalmente, é um caminho que conduz à busca da bondade, da justiça e da solidariedade. Tem-se a impressão de que em Francisco a ideia de harmonia que deriva de teologia argentina e da cultura do povo aproxime-se muito da ideia de harmonia e inclusão da cultura asiática.

Com essa mensagem católica entendida no sentido original o Papa Francisco encontrou-se entre duas frentes dentro da Igreja: por um lado provoca medos e resistências de um conservadorismo fundamentalista, pelo outro, sua visão decepciona muitos reformistas liberais do Ocidente. O seu programa não é liberal, é radical, vai à raiz (radix).

É por isso que Francisco não fala de reforma, mas de conversão de toda a Igreja, do episcopado e, algo considerável para um Papa, do papado (Evangelii gaudium, n. 32). A tradução de uma visão profética tão radical em formas institucionais e em elaborações teológicas refinadas leva tempo. Como para toda profecia há muito ainda em aberto, algumas coisas são mencionadas apenas de forma sugestiva.

No entanto, é equivocado reduzir o Papa Francisco a um pragmatismo indiferente pela verdade. Em vez disso, em sua mais recente constituição, a Veritatis gaudium de 29 de janeiro de 2018, o Papa Francisco fala da alegria da verdade, que é sempre muito maior do que todos os conceitos tenham capacidade de expressar. Nesse último documento, o Papa convoca toda a comunidade teológica acadêmica ao dever de esclarecer teologicamente e aprofundar a visão universal e concreta, e, portanto, autenticamente católica.

O desejo de muitas pessoas, dentro e fora da Igreja, para o quinto aniversário do pontificado do Papa Francisco é, portanto, que Deus possa lhe dar ainda mais tempo e energias para completar a sua missão profética.

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