Walter Kasper: os três critérios para ler a Amoris laetitia

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19 Fevereiro 2018

A Amoris laetitia é um texto que visa a difundir coragem e serenidade nas famílias, “uma mensagem libertadora sobre a alegria do amor”. Podemos e devemos discuti-la, mas sem divisões e sem contraposições. Ao contrário, iniciando “discussões fraternas”, “com amigável afeto por todos aqueles que são de opinião diferente”.

A reportagem é de Luciano Moia, publicada por Avvenire, 17-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dado o leque muito amplo de assuntos abordados pela exortação pós-sinodal, pensar que o debate possa se fechar em breve seria enganador e talvez até injusto. O debate é bem-vindo, mas deve ser feito em um plano de atenção respeitosa e recíproca.

A indicação vem de um cardeal-teólogo que talvez esteja entre os mais profundos conhecedores da exortação pós-sinodal. Walter Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, não é apenas um dos teólogos mais ouvidos pelo papa, mas também o especialista ao qual o próprio Francisco confiou o relatório introdutório ao Consistório de 21 de fevereiro de 2014 sobre o “Evangelho da família”. Uma intervenção corajosa que abriu caminho para o debate sinodal e é considerado uma espécie de “rascunho” ideal da Amoris laetitia.

O livro que chega nestes dias às livrarias italianas – Il messaggio di Amoris laetitia. Una discussione fraterna [A mensagem da Amoris laetitia. Uma discussão fraterna] (Queriniana, 77 páginas) –, a quase dois anos de distância da publicação do texto do Papa Francisco, não pretende ter tons finais, mas oferecer pontos de reflexão para orientar o debate de forma mais racional e menos violenta.

E Kasper, em primeiro lugar, dá prova de uma reflexão dialogante. É claro, as opiniões, como de costume, são expressadas de modo claro, sintético, eficaz, mas sem a pretensão de excluir outras contribuições, até mesmo de sinal diferente.

A análise abrange, de forma resumida, todo o percurso da exortação pós-sinodal, sem se deter apenas na diatribe usual – “Sim ou não à comunhão aos divorciados em segunda união?” –, mas também sem evitar o assunto.

Precisamente sobre esse tema, a contribuição de Kasper parece ser de profundo equilíbrio e de grande refinamento. Ele respeita o pensamento autêntico do papa, sem pretender alistá-lo nem entre os rigoristas nem entre os laxistas. Reitera que o critério de julgamento para todas as situações críticas é o do discernimento, que é sinal de consideração e gesto de prudência. De algum modo, uma confirmação da resposta que chegou do Papa Bergoglio no diálogo com os coirmãos jesuítas durante a viagem ao Peru, em 19 de janeiro passado, isto é, a exigência de superar a lógica do “até aqui se pode, aqui não se pode”.

Cada situação deve ser contextualizada, analisada nas suas premissas e em seus desdobramentos, considerada à luz das condições particulares e únicas em que se concretizou. Diante do dilema de um casal de divorciados em segunda união – para chegar ao contestado capítulo VIII – que se interroga sobre o sentido do novo vínculo e sobre a coerência do próprio caminho de fé, a Amoris laetitia – explica Kasper – “não dá uma resposta concreta direta”. Acima de tudo, ela evita entrar na casuística que seria, mesmo assim, incompleta, prescritiva e, portanto, incapaz de abranger todas as possibilidades.

Porém, ela oferece três critérios de julgamento que o cardeal de origem alemã sintetiza assim.

O primeiro é o da integração. O papa explica com clareza que os casamentos civis, as uniões de fato e as uniões entre pessoas homossexuais “não correspondem à visão cristã do matrimônio”, mas, mesmo nessas situações, pode haver elementos positivos quando apresentam “relações duradouras, na presença de afeto mútuo e de um vínculo de fidelidade, de responsabilidade e de cuidado recíproco, como o cuidado e a educação dos filhos”.

Matrimônio sacramental e uniões irregulares (o papa teria posto o adjetivo entre aspas, mas Kasper não as usa) não estão no mesmo nível, mas as pessoas envolvidas podem ser convidadas a participar da vida da Igreja “rumo à plena realização do ideal”.

O segundo critério é o discernimento entre proibição objetiva e culpabilidade subjetiva. Aqui, entra em jogo o papel da consciência pessoal e de casal, que, de acordo com a visão de Francisco, tem uma dignidade inviolável.

A Igreja, explicou ele na Amoris laetitia, tem a tarefa de contribuir para a formação das consciências, não de se substituir a um julgamento pessoal.

O terceiro critério é o inspirado pelo amor e pela misericórdia, que sempre deve guiar a aplicação de uma lei. Kasper explica que, nesse caso, a referência vai a Tomás, segundo o qual “toda lei geral é incompleta, porque não prevê todas as circunstâncias concretas e, portanto, não pode, antecipadamente, regular concretamente todas as situações”.

Há uma diferença substancial entre essa “ética da situação”, inspirada na prudência, e a “teologia das situações”, que pretenderia ignorar a lei geral. Nessa lógica, observa ainda o purpurado teólogo, “não se pode condenar ou excluir” uma pessoa para sempre.

Uma reviravolta na teologia moral? Kasper prefere falar de uma “mudança de paradigma” no rastro da tradição, “um desafio a mais à reflexão teológica e para repensar a prática pastoral”, um convite a recuperar “o carisma do discernimento espiritual”, não a abrir “uma época de conflitos fatais, mas sim de uma nova alegria (laetitia) na Igreja”.

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