Francisco convida à mudança, mas nós somos a mudança

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12 Março 2018

Houve uma época na vida em que eu queria as coisas feitas e queria agora. Eu ainda quero as coisas feitas agora, mas ao longo dos anos descobri que, pelo menos quando se trata da Igreja, eu estava procurando ação nos lugares errados. Como diz Sean Freyne, o teólogo irlandês especialista em Escrituras: "É um erro pensar que um papa tem o poder de fazer tudo." Tradução: O direito de reinar como um autocrata, tomar medidas unilaterais sobre quase tudo, não vem com a mitra e as chaves cruzadas. Nem com as capas e cruzes dos bispos.

Percebi que papas e bispos são quem mantém a tradição da Igreja. Eles geralmente se movimentam com um olho no passado — o ponto no qual se encontra, seguro, o território canônico. Só nós temos o verdadeiro poder de mudar a Igreja.

O artigo é de Joan Chittister, irmã beneditina de Erie, Pensilvânia, publicada por National Catholic Reporter, 10-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

É o leigo comum que vive a fé em cada época que estrutura o futuro. É o professor visionário, o crítico amoroso, o profeta revelador que move a Igreja de uma época para a outra. Foram os que tiveram que negociar a nova economia que viram juros justos em investimentos como a virtude da prudência, em vez do pecado da usura, por exemplo. Foram os que se viram em relacionamentos abusivos que perceberam que o divórcio poderia ser uma decisão mais amorosa do que uma situação familiar destrutiva.

E, ainda, o movimento dos papas e bispos, o fato de manterem os ouvidos abertos ao mundo, o coração que demonstram, o amor e o modelo de liderança que trazem podem fazer toda a diferença no tom e na eficácia da Igreja.

Cinco anos atrás, por exemplo, fomos de um estilo de Igreja a outro. Aconteceu tranquilamente, pousou em meio aos fiéis como o livro do Apocalipse. Foram-se as imagens de papas que apontavam o dedo, histórias de investigações teológicas e repreensões públicas e excomunhões de pessoas que se atreviam a questionar os valores dos velhos costumes.

Quando Jorge Bergoglio, o recém-eleito Papa Francisco, apareceu na sacada da Basílica de São Pedro, em Roma, ele curvou-se ao povo e pediu a bênção. Os fiéis então aprovaram um homem que sabia que necessitava da nossa ajuda e direcionamento.
Quando ele disse a bispos aristocráticos para serem "pastores com cheiro de ovelha" — para circularem entre as pessoas, tocá-las, atendê-las, compartilhar a vida —, os palácios episcopais e as cercas altas perderam a preferência eclesiástica. O que o povo queria era que os bispos saíssem do gabinete, caminhassem com eles e entendessem o quão difícil era o caminho.

Quando Francisco disse aos sacerdotes para lidarem com o aborto na confissão, em que todas as lutas da humanidade encontram consolo e perdão, e não tratá-lo como pecado imperdoável, a Igreja cresceu em compreensão. Quando disse: "quem sou eu para julgar" a qualidade espiritual da comunidade gay, a Igreja tornou-se Igreja novamente. A fluidez da natureza humana e a grande necessidade de misericórdia e força que vêm com as decisões mais dolorosas da vida tornaram-se simples.

A partir de bases estabelecidas pelo Papa João Paulo II e o Papa Bento XVI, Francisco abriu o coração e as portas a Cuba, independentemente de sua política, e com o governo Obama aliviou seu isolamento do mundo moderno. Francisco chamou a atenção do mundo para os migrantes que fugiam da guerra e de situações econômicas opressivas; falou contra o massacre no sudeste da Ásia e na África central. Disse não de forma definitiva a armas nucleares e incentivou a reflexão sobre a chamada guerra justa.

Claramente, Francisco é um convite para mudar a nossa posição no mundo. Temos um novo modelo do que a Igreja deve ser para os outros, bem como o que nós próprios podemos esperar dela em nossas próprias vidas. Começamos a ver a Igreja como um sinal do amor de Deus, e não do espectro de sua ira.

E, no entanto, algumas coisas que precisam mudar claramente não mudaram nestes últimos cinco anos. Pelo contrário, há fumaça sem fogo, foram prometidas comissões que não foram criadas, já se pode perguntar, sim, mas ainda são escassas as respostas.
Reconhecer o problema, segundo o mundo moderno, já é começar a resolvê-lo. Há muita promessa e possibilidade, mas, em muitos casos, se nada acontecer, cada vez mais pessoas, decepcionadas, afastam-se do navio à deriva.

E os casais que estiveram em relações abusivas, em casamentos mais tóxicos do que vivificantes, esperam pelo entendimento de que, apesar de se casarem novamente, eles merecem o direito de ter o apoio espiritual que a Igreja oferece ao tentarem construir um casamento mais amoroso. Eles esperam, mas a declaração de inclusão na Igreja não vem.

É formada uma comissão sobre a restauração do diaconato feminino, mas a própria Igreja não participa da conversa, nenhum relatório é publicado e uma parte muito importante e duradoura da história da Igreja Católica fica em silêncio novamente.

O Leviatã do abuso infantil, o problema mais gritante que a Igreja enfrenta, reaparece novamente, estende-se por todo o mundo e chega até mesmo à casa do Papa. A menos que bispos e cardeais sejam suspensos até as acusações serem resolvidas - ou enquanto isso não acontecer -, a mácula na integridade do Vaticano vai continuar minando a sinceridade das tentativas da Igreja de dissipar o veneno. Enquanto isso, foi formada uma comissão sobre casos de abuso, que caducou e dizem que agora foi formada novamente, mas tudo isso com pouca ou nenhuma evidência de resposta palpável para o problema em si.

Promete-se que haverá mulheres em posições oficiais do alto escalão da Igreja — mas nada acontece. Isso significa, é claro, que o papel da mulher ainda não mudou em nada — apesar de estarem prontas academicamente, da vida dedicada a servir, sem contar no discipulado oferecido por seu batismo. O efeito é claro: as mulheres não têm nada que ver com as comissões teológicas em que são tomadas as decisões que afetam a vida espiritual de sua parte da Igreja. Mas Francisco diz que nada mais pode ser dito sobre as mulheres, porque os antecessores do Papa já se pronunciaram antes.

A pergunta é: Por que este papado parece estar estagnado? Se situações como esta vem da falta de compromisso de Francisco ou da resistência interminável da Cúria à liderança papal é um mistério. Mas elas de fato marcam este papado. Significam desconfiança a longo prazo.

No meu ponto de vista, este papado voltou a tornar o pensamento possível. Abraçou a ideia de que a mudança faz parte do processo da vida. Mas não tem direcionado o suficiente algumas grandes questões. Em casos como esses, a promessa de ação e ausência de resultados, como dizem, só traz ilusão. Dão falsas esperanças. Por isso, no final, não agir é ainda mais decepcionante do que se nunca tivessem feito falsas promessas.

São Paulo alertou a Igreja sobre este tipo de liderança obscura séculos atrás. Ele escreve, em 1 Coríntios 14:8, "se a trombeta não emitir um som claro, quem se preparará para a batalha?"

É um aviso para um papado que chegou cheio de esperanças e é profundamente respeitado por isso. Como diz Talmud, “quem mais arrisca é quem não arrisca nada”.

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