Fidelidade ao magistério: católicos chineses são os ''primeiros da turma''

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03 Março 2018

O próximo Sínodo católico sobre os jovens já começou, e começou na China. Na Arquidiocese de Taiyuan, na província de Shanxi, 2.000 rapazes e moças da região desfilaram pelas ruas da cidade na quinta-feira passada, levando em procissão grandes ícones de santos modernos: Madre Teresa, João Paulo II e São Gregório Maria Grassi, o vigário apostólico morto em 1900 na revolta dos Boxers (e canonizado justamente pelo Papa Wojtyla).

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 01-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Começou assim o “Ano dos Jovens”, convocado pela Igreja local com a intenção declarada de “caminhar junto com a Igreja universal, de acordo com a indicação do Papa Francisco, rumo à XV Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos”. Os católicos de Taiyuan sabem muito bem que a próxima assembleia sinodal católica se concentrará sobre os jovens e seu “discernimento vocacional”: e o bispo Paulo Meng Zhuyou, durante a missa, recordou um dado da realidade geralmente ignorado pela retórica clerical produzida sobre o tema, quando reconheceu que, geralmente, é a “falta de fé” que atrofia e esvazia também o “discernimento vocacional”.

A iniciativa da arquidiocese chinesa de Taiyuan, documentada pela agência Fides, é apenas o último indício da prontidão com que o catolicismo chinês acompanha e assume as sugestões e as indicações pastorais que vêm da Igreja de Roma e de seu bispo. A preciosa sequência de notícias chinesas não “gritadas”, produzida pela agência Fides, atesta que, há pelo menos 15 anos, as paróquias chinesas se conformem em tempo real ao magistério ordinário que a Igreja universal propõe no seu caminho na história, para anunciar o Evangelho da salvação a todos os povos.

Um dado da realidade que faz parecer enganosas e interessadas as propagandas obsessivas daqueles que querem imprimir o estigma do cisma sobre toda a área eclesial chinesa submetida à política religiosa do governo.

Os tempos “especiais” do Papa Wojtyla

Em 2004, quando João Paulo II anunciou a intenção de proclamar o Ano da Eucaristia, as publicações da Fides, agência das Pontifícias Obras Missionárias, com sede em Roma, atestaram que a decisão do papa foi anunciada nas igrejas chinesas já nas missas dominicais do dia 13 de junho.

Quatro meses depois, no início efetivo do tempo especial dedicado ao sacramento da comunhão, nas missas das paróquias de Pequim, os sacerdotes explicaram as razões do Ano da Eucaristia, comentando a carta apostólica de promulgação, Mane nobiscum Domine.

Poucos meses depois, com a morte de João Paulo II, apenas em Pequim, milhares de fiéis participaram da missa solene de sufrágio pelo papa polonês, junto com dezenas de sacerdotes e centenas de seminaristas.

E mais de um mês depois, às vésperas do conclave, em todas as paróquias, rezou-se pela eleição do futuro pontífice, “com o desejo de que o novo papa possa realizar o sonho de João Paulo II de visitar a China”.

Em 19 de abril, quando se divulgou a notícia sobre a eleição do Papa Ratzinger, o sacerdote responsável pela editora Faith Press declarou: “Agora temos João Paulo II no céu e Bento XVI conosco na Terra, todos juntos guiados pelo Espírito Santo”, e desejou que “com o Papa Bento XVI possam se abrir novas perspectivas na relação entre a China e o Vaticano”.

A série de publicações da Fides narra a trama capilar de orações, liturgias, catequeses e iniciativas pastorais inspiradas diretamente pelo magistério ordinário da Igreja, que se entrelaçam com o tecido comum da vida eclesial das dioceses e das comunidades católicas chinesas individuais, marcando seu caminho cotidiano que continua na simplicidade da Tradição.

Surgem os rostos íntimos e reais de uma realidade de vida eclesial geralmente ignorada ou até mesmo obscurecida pelos clichês desviantes e baratos que condicionam o mainstream midiático nos momentos de atenção intermitente dirigidos ao controverso “dossiê” das relações China-Vaticano.

Do Ano Paulino ao Ano da Fé

Na primavera de 2005, o boletim Faith, publicado em Hebei e dedicado ao evento para a eleição do Papa Bento XVI, literalmente desapareceu das paróquias chinesas, e as fotos de João Paulo II e do papa recém-eleito terminaram em um piscar de olhos. Em 2008, quando Ratzinger convocou o ano dedicado a São Paulo, nas comunidades e nas dioceses, houve uma viva floração de iniciativas dedicadas ao apóstolo dos gentios, que pareceu não ter igual em outros grupos eclesiais.

A Diocese de Wenzhou promoveu conferências sobre as cartas paulinas. A de Changzhi inaugurou cursos de teologia missionária, enquanto na Diocese de Yinchuan a missa de abertura do Ano Paulino foi presidida pelo bispo de 96 anos João Batista Liu Jing-shan, reconhecido por Roma e pelo governo, que encorajou a todos a “seguir os passos do Apóstolo missionário por excelência e o ensinamento do Santo Padre, com o testemunho de Cristo na vida cotidiana”.

Em Ningxia, o jovem bispo coadjutor José Li Jing convidou a todos a “aproveitar ao máximo o Ano Paulino para relançar a evangelização em todos os campos”, porque “cada um de nós é missionário e cada um de nós é chamado para levar pelo menos uma pessoa para a casa do Pai, seguindo os passos de São Paulo”.

A mesma solicitude para seguir as sugestões do magistério ordinário da Igreja foi registrada na China quando Bento XVI convocou o Ano Sacerdotal. Em muitas dioceses, o fim do Ano Paulino coincidiu com o início do novo ano especial dedicado aos sacerdotes. Na Diocese de Jinzhong, ainda no fim de junho de 2009, foi apresentada e estudada a Carta do Papa aos Sacerdotes, enquanto o bispo João Batista Wang Jin presenteou a cada padre uma cópia em chinês dos escritos de São João Maria Vianney.

A inclinação a irrigar a vida pastoral das dioceses chinesas com o magistério ordinário do pontífice também se manifestou quando o Papa Ratzinger anunciou a convocação do Ano da Fé (11 de outubro de 2012 a 24 de novembro de 2013). Ainda em junho de 2012, a Diocese de Nanchong, na província de Sichuan, organizou jornadas de estudo da carta apostólica Porta fidei, com a qual Bento XVI convocou o novo ano especial.

Os bispos chineses também prestaram muita atenção à “Nota com indicações pastorais para o Ano da Fé”, divulgada pela Congregação para a Doutrina da Fé. A Diocese de Fengxiang, na província de Shaanxi, organizou cursos preparatórios para os catequistas, “chamados a transmitir o anúncio do evangelho com especial dedicação no Ano da Fé”.

Uma paróquia da Diocese de Taiyuan organizou, ao longo daquele ano, nada menos do que 13 cursos de aprofundamento ligados ao Ano da Fé. Enquanto os católicos de Huangshi, na província de Hubei, foram ao encontro do Ano da Fé com obras de caridade dirigidas aos necessitados.

Em outubro de 2012, com o início efetivo daquele tempo especial, ganhou vida nas dioceses católicas chinesas uma miríade impressionante de iniciativas inspiradas nas solicitações contidas em Porta Fidei.

Em Lanzhou, o bispo José Han Zhihai – naquela época ainda não reconhecido como chefe da diocese pelas autoridades civis – inaugurou a Associação Caritativa do Espírito Santo e começou o Ano da Fé com uma procissão e um discurso totalmente centrado no Catecismo da Igreja Católica, a exposição dos conteúdos da fé e da doutrina católica preparada sob a direção do então cardeal Joseph Ratzinger.

Enquanto na Diocese de Liaoning o bispo Paulo Pei Junmin dedicou uma carta pastoral ao Ano da Fé e exortou os fiéis a rezarem, refletirem e aprofundarem o Credo. Em 18 de novembro de 2012, no marco do Ano da Fé, em uma paróquia da Diocese de Haimen, foram administradas nada menos do que 766 crismas: quem as celebrou foi o novo bispo José Shen Bin, ordenado há pouco tempo para guiar uma diocese que ficou oficialmente vacante por 30 anos e onde, sem o bispo, não se podia administrar o sacramento da confirmação. Milhares de fiéis participaram da celebração.

Na homilia, Shen Bin – bispo hoje apreciado e valorizado pelos aparatos governamentais, atual vice-presidente da Associação Patriótica e do Conselho dos Bispos Chineses (não reconhecido pela Santa Sé) – exortou os presentes a “responderem ao apelo do papa para o Ano da Fé, em comunhão com a Igreja universal, para que todos os irmãos e as irmãs chineses e do mundo inteiro possam gozar da graça do Senhor Jesus Cristo”.

A tenacidade de um afeto combatido

Nos anos do papa reinante, o desejo dos católicos chineses de saborearem a comunhão com a Igreja universal no seguimento do magistério ordinário do pontífice encontrou cumprimento para além de todas as expectativas durante o Ano Santo da Misericórdia. Com multidões de fiéis que atravessavam as Portas Santas das catedrais. E muitos bispos que divulgavam cartas pastorais para relançar as palavras do Papa Francisco sobre a misericórdia.

Nos relatos chineses do Jubileu da Misericórdia, também emergiu em alguns de seus traços reais a condição da catolicidade na China popular de hoje. E se reconheceu o gosto de saborear a comunhão com o papa e com a Igreja universal. Sinal evidente de que os contrastes sofridos nas décadas passadas apenas deixaram mais forte e intenso o afeto dos católicos chineses pelo sucessor de Pedro.

Assim, sem fanfarras e sem ter que ostentar qualquer “alinhamento” com supostas ou reais corjas curiais vaticanas, a China valorizou na vivência eclesial cotidiana as sugestões encontradas no magistério “ordinário” do bispo de Roma. Com todo o respeito aos agressores obsessivos que continuam derramando suspeitas de covardia e acusações de “rendições” doutrinais sobre milhões de católicos chineses, a fim de lucrar um pouco de visibilidade.

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