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26 Fevereiro 2018

Durante a quaresma, o Bondings 2.0, sítio da organização News Ways Ministry apresenta reflexões espirituais escritas por um grupo de alunos da Graduate Theological Union, em Berkeley, na Califórnia, por pessoas que se identificam como LGBTQ+ ou que estão envolvidas em pesquisas teológicas e/ou no ministério LGBTQ+.

O artigo de hoje, publicado por Bondigins 2.0, 25-02-2018, é de Fernanda Belderol, transqueer, filha de segunda geração de filipinos-americanos, e professora de teologia na escola Cristo Rey Network, no noroeste dos EUA. Fernanda concluiu o mestrado em ética no ano de 2014 pela Graduate Theological Union. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

As leituras do 2º domingo da Quaresma são de Gênesis 22,1-2, 9a; 10-13; 15-18; Salmo 116,10; 15; 16-17; 18-19; Romanos 8,31-34; Marcos 9,2-10.

Eis o artigo.

A certa altura de nossas vidas, Deus realmente nos “põe em teste”, como ouvimos na leitura de hoje, onde Deus põe Abrahão a teste instruindo-o a matar seu filho único e querido, Isaque. Recentemente, eu também fui posta “a teste”: queira ou não, a minha vocação é trabalhar com os marginalizados, jovens com passados traumáticos a quem sirvo.

A história começou um ano atrás, quando vivi na região da baía, em San Francisco. Encontrava-me num ambiente confortável: conhecia a missão e o carisma da escola onde trabalhava; conhecia bem meus colegas e alunos; finalmente estava pegando o ritmo da arte que é ensinar. Me sentia enraizada na cidade para a qual me mudei cinco anos antes e estava construindo uma comunidade e uma família que me alimentavam espiritual, emocional e mentalmente.

Ao mesmo tempo, vinha discernindo a ideia de retornar ao meu lar no noroeste do país. Ponderei a ideia de trabalhar numa escola de ensino médio integrante da Cristo Rey Network, rede de escolas que servem comunidades de baixa renda e que dão aos jovens a oportunidade de se prepararem para entrar na universidade. Por ser queer filipina de segunda geração, por ser uma pessoa de cor que cresceu nas montanhas do noroeste estadunidense, senti um desejo profundo de voltar para casa e me doar à comunidade, servindo e caminhando com os alunos de cor, de baixa renda, moradores de uma cidade predominantemente branca.

Quando abriu uma vaga na Cristo Rey, me senti testada. Fiz a inscrição para o trabalho, fui contratada e aceitei a oferta. Sempre senti um chamado a servir os mais marginalizados do mundo e da sociedade, já que a minha própria experiência é ser marginalizada como queer, descendente de filipinos da segunda geração, pessoa de cor – não só na sociedade como também na Igreja.

Sabia que a mudança da velha para a nova escola seria uma transição, mas não fazia ideia da dificuldade que seria essa transição. O saber versus a experiência vivida são duas realidades diferentes. A população de alunos de cor a quem sirvo não se vê como maioria na comunidade em que vivem. Eles vêm de ambientes onde os pais trabalham em múltiplos empregos para pagar os estudos e fazer face às despesas numa cidade cada vez mais cara. Vêm de lares rompidos, de realidades traumáticas e abusivas, onde muitos são o primeiro na família a considerar a opção de entrar para a faculdade.

Eles sabem do risco que é ser negro ou pardo. Através das mídias sociais e dos noticiários, ouvem de seus irmãos e irmãs serem atingidos e mortos devido ao preconceito implícito por ser negro. São as disparidades que se juntam contra eles.

Pode ser desafiador tentar ensinar teologia a jovens destes contextos, e o mais importante ainda: tentar ajudá-los a encontrar Deus nas experiências diárias ou mesmo tentar encontrar algo a agradecer a cada dia. Estes alunos constroem muros emotivos enormes devido às lutas e à experiência vivida fora da escola.

O meu trabalho ministerial vem sendo também difícil, já que estes alunos não sabem o que pensar de mim. Veem uma mulher de cor que não se conforma com o gênero visível, a professora de teologia deles; eles não conseguem entender por que eu me consideraria católica com uma instituição que não quer me aceitar. Também veem muitos dos professores deixando o emprego porque trabalhar com essa população e não receber o mesmo pago pelas escolas públicas tem levado a um esgotamento extremo e a desistências. Estes jovens buscam estabilidade, previsibilidade e base em todos os aspectos da vida, já que muitos não têm isso em casa. Como Abraão, estou em teste. Estou sendo testada a me apresentar, diariamente, na intersecionalidade das minhas identidades, e a aprender com eles sobre como melhor viver e incorporar a minha fé.

Na leitura do Evangelho do 2º domingo da Quaresma, Pedro Tiago e João unem-se a Jesus numa montanha isolada onde Jesus se transfigura diante deles. Acho interessante que Pedro quer marcar este momento incrível oferecendo-se a construir tendas para Elias, Moisés e Jesus. Eu também quero construir tendas por aqueles momentos profundos em minha vida em que mais me senti próxima de Deus. Quis construir uma tenda para sempre permanecer em meu lar confortável em San Francisco, com a minha comunidade queer e com a minha família, e tudo o que lá me era familiar.

Mas Jesus nos convida para além das nossas zonas de conforto. Se quisermos segui-lo, precisamos servir os mais marginalizados em nossas comunidades, sociedade e mundo. A transfiguração pode ser um prenúncio da morte e ressureição de Jesus: em ambos os relatos, Jesus diz a seus apóstolos, seguidores e familiares que não se apeguem a ele, já que a sua missão vai além da compreensão humana.

Onde em nossas vidas sentimos que estamos sendo “testados”, como Abraão? Onde em nossas vidas queremos, como Pedro, construir “tendas” para cimentar aqueles momentos especiais e tê-los para sempre? Será que conseguimos nos permitir entrar no mistério de conectar-nos com Deus, ao invés de nos apegarmos à zona de conforto?

Para que pudesse me apresentar, todos os dias, a meus alunos, me vi na necessidade de dar um passo para fora da minha zona de conforto para viver a partir de um lugar de autenticidade, vulnerabilidade e compaixão. Este “teste” tem sido uma graça e um desafio. Brene Brown, professora da Universidade de Houston, usa a linguagem do “pertencimento verdadeiro” como um “tipo de pertença que nunca nos obriga a ser inautêntico ou mudar quem somos, mas um tipo de pertença que demanda quem somos – que sejamos quem somos – e quando comprometemos a conexão com os demais”. Talvez parte da nossa caminhada quaresmal tem a ver com desafiar-nos a buscar um “pertencimento verdadeiro” com os outros em nossa comunidade onde nos apresentamos nos nossos eus mais autênticos, apesar do risco de perder a conexão com os demais.

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