O escândalo de demitir católicos LGBTs

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23 Fevereiro 2018

A demissão recente de uma professora católica que lecionava para as primeiras turmas de uma escola de ensino fundamental da Flórida que havia se casado com uma parceira homoafetiva levanta novamente a questão sobre se as instituições católicas dos Estados Unidos estão reforçando, seletivamente, a ética sexual da Igreja de um modo a visar injustamente os gays e lésbicas. Na medida em que estas demissões tornam-se cada vez mais comuns, as lideranças católicas deveriam reconhecer as feridas profundas que estão causando a pessoas que amam e servem a Igreja. Uma resposta mais prudente e, em última instância, mais cristã faz-se necessária em casos complexos como estes.

O artigo é de John Gehring, diretor do programa católico do Faith in Public Life, ex-diretor de relações públicas da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, autor de “The Francis Effect: A Radical Pope’s Challenge to the American Catholic Church” (Rowman & Littlefield, 2015) e editor da revista Commonweal, publicado por La Croix International, 21-02-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Jocelyn Morffi trabalhava na escola Sts. Peter and Paul, em Miami, havia sete anos e coordenava uma organização de voluntários que anda com alunos pela cidade distribuindo refeições a sem-tetos. “Eles a trataram como uma criminosa”, disse Cintia Cini, um dos pais dos alunos, ao jornal Miami Herald. “Sequer deixaram pegar as suas coisas que estavam na sala de aula”. Pelo menos, oitenta pessoas foram demitidas de instituições católicas americanas em casos parecidos, segundo o New Ways Ministry, organização que atua na construção de pontes entre católicos LGBTs e a Igreja.

A resposta dos representantes escolares nestes casos é, em geral, simples: os professores conhecem o ensinamento da Igreja sobre o casamento, e como empregados de uma instituição católica espera-se que eles vivam de acordo com a doutrina. Quando um professor ou outro funcionário de alguma escola desafia publicamente este ensinamento, a ação causa – na linguagem da teologia moral – “escândalo” aos fiéis.

Façamos uma pausa para refletir sobre essa ideia. Neste contexto, esse vocábulo talvez não seja o melhor para uma instituição que criou o seu próprio escândalo com o tratamento dispensado à crise de abusos sexuais. Escândalo é também um conceito teológico mais complicado, como explica Christopher Vogt, professor de teologia e estudos religiosos, em capítulo escrito para o novo livro “The Bible and Catholic Theological Ethics” [A Bíblia e a ética teológica católica, sem tradução para o português].

Vogt pontua que Tomás de Aquino “faz a observação importante de que o escândalo às vezes pode ser causado pela malícia dos escandalizados”. Os fariseus ficaram escandalizados por Jesus porque, como escreve Vogt, “o sentido de certeza deles relativo à Lei e ao que constituía viver em santidade e sem pecados tornou impossível para eles responder ao convite de Deus em Cristo”. O escândalo de Jesus não foi só porque ele trazia uma mensagem desafiadora. “Jesus e seus discípulos engajaram-se num comportamento que muitos consideravam moralmente ofensivo e errado”, continua Vogt. “Jesus se tornou uma ofensa ou um escândalo ao desafiar as crenças mais profundas das pessoas e ao violar as suas pressuposições sobre a maneira como o mundo deveria ser”. O autor enxerga paralelos nos equívocos dos fariseus e em algumas respostas aos debates contemporâneos sobre as relações homoafetivas, incluindo a demissão de funcionários gays de instituições católicas.

“Uma compreensão do escândalo mais plenamente instruída pelo Novo Testamento deveria nos levar à pergunta sobre se o fenômeno dos gays e das lésbicas que prometem amor e um compromisso para a vida toda uns com os outros deveria ser uma ocasião para que os cristãos se escandalizem num sentido bem diferente: de ver as certezas há tempos sustentadas serem invertidas inesperadamente pelo Deus vivo. Isso não é um convite a retirar-se para dentro de um relativismo moral. É uma sugestão de que as ações punitivas contra gays e lésbicas por diretores, pastores e bispos não estão coerentes com a caridade cristã, provavelmente causam “escândalo contrário” e não refletem o fato de que estamos num momento que requer um discernimento orante”.

A questão de se as instituições católicas deveriam ou não demitir os funcionários gays que se unem no civil também deveria ser contemplada à luz do debate, cada vez mais robusto, na Igreja sobre como responder, de maneira mais pastoral, às pessoas LGBTs. Dom Franz-Josef Bode, vice-presidente da conferência episcopal alemã, propôs a discussão sobre se o clero católico deve abençoar as uniões civis homoafetivas. “Preocupo-me com as questões fundamentais de como lidamos uns com os outros; embora ‘casamento para todos’ difira claramente do conceito católico de matrimônio, neste momento trata-se de uma realidade política”, disse o bispo em janeiro deste ano. “Precisamos nos perguntar como estamos encontrando aqueles que formam tais relacionamentos e que se envolvem na Igreja, como acompanhamos eles em termos pastorais e litúrgicos”.

Nos EUA, Dom John Stowe, da Diocese de Lexington, Kentucky, realizou um encontro nacional de católicos LGBTs no ano passado, onde disse que “numa Igreja que nem sempre valorizou ou acolheu a presença de vocês, precisamos ouvir suas vozes e levar as suas experiências a sério”. O cardeal de Newark Joe Tobin deu as boas-vindas a uma peregrinação de católicos LGBTs na Basílica do Sagrado Coração. Dom Robert McElroy, da Diocese de San Diego, sugeriu que a Igreja precisa parar de empregar a linguagem do “intrinsecamente desordenadas” para descrever as relações sexuais entre gays. Em entrevista à revista America, descreveu esta terminologia como “uma linguagem muito destrutiva que, penso eu, deveríamos não usar no trabalho pastoral”.

Sempre houve gays e lésbicas atuando em escolas e paróquias católicas. Mas, conforme se generalizou o apoio ao casamento e aos direitos homoafetivos, os católicos que certa vez escondiam sua sexualidade e seus relacionamentos sentem-se, hoje, menos compelidos a viver às sombras. Mesmo assim, católicos LGBTs são pegos naquilo que o teólogo da Fordham University, o Rev. Bryan Massingale, chama de “o armário aberto”. As instituições católicas tinham uma “tolerância particular” para com os gays e as lésbicas, disse ano passado Massingale, mas assim que os relacionamentos homoafetivos tornaram-se públicos, estes católicos correram o risco do estigma, da condenação e de perder o emprego. Massingale considera este paradoxo um erro completo. “A justiça é inerentemente pública”, disse ele. “A justiça é o rosto social do amor”. Junto desta disjunção, os funcionários católicos gays têm suas vidas sujeitas ao escrutínio moral de uma forma que os católicos heterossexuais não o têm. Católicos héteros não são demitidos por fazerem uso de anticoncepcionais, por exemplo, ou por fazer sexo antes do casamento. Este policiamento seletivo do comportamento e a resposta desproporcional aos funcionários gays que não vivem em pleno acordo com o magistério da Igreja deixam as instituições católicas abertas à crítica de que a homofobia desempenha um papel maior nestas decisões do que alguma vez já se reconheceu.

As escolas católicas têm todo o direito contratual de demitir professores que se encontram em uniões homoafetivas. Mas não discernir uma resposta diferente, mais pastoral irá apenas continuar a privilegiar uma cultura da exclusão em detrimento de uma cultura do encontro, deixando as autoridades eclesiásticas em maus lençóis na hora de explicar por que o legalismo religioso – em lugar da justiça – é a essência da identidade católica.

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