Padre Lenaers, o jesuíta que reescreve a ressurreição

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09 Março 2018

O homem moderno deixou de acreditar na ressurreição.

Na esteira do Iluminismo, considera verdadeiro somente o que ele pode provar. Por isso não sabe que sentido dar ao túmulo vazio e à vitória de Cristo sobre a morte, o terceiro dia do Calvário. Aquilo que os Evangelhos relacionam com o mistério do final de Jesus para ele parece impossível, inventado, pior ainda, ridículo.

O artigo é de John Baker, publicada por Pacem in Terris, 18-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Em um contexto em que valem apenas os atos de à ciência, aqueles que acreditam, e não estamos falando aqui da grande maioria que segue um cristianismo-religião civil (muitos assumem o ditado de Benedetto Croce que afirma "não podemos não nos chamar de cristãos”), estão diante de uma encruzilhada: continuar a professar a vida eterna, aquela do Nazareno e, consequentemente, a nossa própria, da maneira que foi transmitida nos saecula saeculorum, confinando-se às margens da modernidade, ou adaptar-se ao sentimento comum e repudiar a ressurreição, recusando-se, assim, a crer, como adverte Paulo em 1 Cor. 15-14: ( "Se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação é também é vã a vossa fé")?

De que lado virar-se? Para a conservação ou a renúncia?

O teólogo Roger Lenaers foge ao dilema e propõe uma terceira via para os cristãos do novo milênio. Há muitos anos empenhado na tentativa de conjugar cristianismo e modernidade, o jesuíta belga, acaba de publicar um livro, Gesù di Nazareth. Uomo come noi? (Jesus de Nazaré. Homem como nós?, da editora Gabrieli), que levanta a possibilidade de "emancipar a noção de ressurreição do revestimento mitológico que a envolve". Um caminho, o de desmitificar a Bíblia que não é novo (o precursor foi o exegeta alemão Rudolf Karl Bultmann, mas que, garante o padre Lenaers, evita a colisão entre o dogma de fé e as respostas da ciência moderna.

Na prática, para o teólogo "a noção de ressurreição surgiu em uma cultura pré-moderna: é uma tentativa culturalmente determinada de definir experiências que na época não era possível explicar de forma diferente e melhor".

Na época, porque hoje as mesmas situações podem ser "expressas de forma diferente e melhor e isso, além de possível, é irrenunciável." Mas para fazer isso é preciso abandonar as certezas dadas por uma linguagem hiperbólica, adotada pelos evangelistas para descrever algo tão inimaginável como o retorno à vida de Jesus. "É muito fácil e, portanto, pouco plausível - adverte padre Lenaers – pensar em uma ressurreição corporal". O que aconteceu com Cristo foi mais "uma fusão com o mistério original que é Deus", realizada não depois de três dias, mas no Gólgota no exato momento do sacrifício na cruz. É naquele instante que o Filho do homem adquire a sua glorificação, explica o teólogo apoiando-se no Evangelho de João, o único dos quatro que "rompe por um instante a lógica mitológica".

Morte e ressurreição, por conseguinte, já não são mais duas etapas distintas. Elas coincidem. E nós podemos ver Jesus vivo (ressuscitado), da mesma forma que os discípulos de Emaús para os quais no caminho de volta para casa o desconhecido abre os olhos. "Propicia para eles um olhar interior - explica o jesuíta – uma experiência de significado e plenitude à qual participam crendo em Jesus como naquele que vive. Das cinzas frias não nascem faíscas e de uma morte não surge vida".

Chegamos assim que outro fundamento da fé: a ressurreição dos mortos, ou, como se dizia antigamente, da carne. "Os bilhões de seres humanos que foram se sucedendo na história do mundo – questiona-se o padre Lenaers - e que agora se tornaram pó (ou até menos), todos deveriam ressurgir, sãos e salvos, em carne e ossos, despertados do sono da morte pelas trombetas do Dia do Juízo?". Assim entendia o dogma da igreja pré-moderna. Mas, hoje, também poderia ser feita uma releitura de tal paradigma? O jesuíta aceita o desafio: "Cada um de nós 'ressurgirá', mais ou menos plenamente, com base na possibilidade que teve a semente divina de se desenvolver na profundidade do nosso ser. E nós não ressurgiremos no Dia do Juízo, mas no momento da morte. Como Jesus". Verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Igual a nós, também na ressurreição.

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