Memória do Holocausto. A mulher que viveu seis vezes

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29 Janeiro 2018

De Terezin para Auschwitz, de Mauthausen para Bergen-Belsen, Zdenka Fantlova, família judia checoslovaca, foi deportada de campo a outro. Tirou sua força atuando em peças cômicas de teatro.

Uma fotografia tirada em 1948 retrata sua figura ousada, os lábios bem desenhados, uma beleza luminosa, até descarada. Nada sugere que aquela jovem mulher com suas pérolas fosse uma sobrevivente de Auschwitz. E de outros cinco campos de concentração: primeiro Terezin, depois Kurzbach, Gross-Rosen, Mauthausen, Bergen-Belsen. Talvez porque Zdenka Fantlova, filha de uma família judia checa, nunca aceitou a identidade da vítima. Mesmo suas memórias, agora publicadas na Itália, mostram um tom inédito na literatura do Holocausto, justamente por sua adesão à vida que não admite sombras nem suspensões.

A entrevista é de Simonetta Fiori, publicada por La Repubblica, 27-01-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Como se o horror vivido nos campos de concentração não tivesse deixado uma marca em seu olhar. Como se realmente fosse possível sobreviver intacto a Auschwitz (6 campi, ‘Seis campos, a incrível história de uma das últimas testemunhas vivas do Holocausto’, edições tre60, traduzido do inglês The tin ring).

Aos noventa e cinco anos, a voz enérgica de Zdenka sugere ao telefone um caráter firme, mesmo imperioso. Algumas tossidas esparsas não a distraem de uma narrativa que mistura urgência moral e liturgia repetitiva. Às questões emocionalmente mais difíceis tende a se esquivar, trazendo de volta a atenção sobre uma vivência que justamente exige silêncio e escuta. Ela agora vive em Londres, numa elegante rua perto de Kensington. Desembarcada na Austrália no imediato pós-guerra, durante vinte anos, frequentou os palcos com algum sucesso, recebendo inclusive um prêmio pelo papel de camponesa siciliana em The Rose Tattoo de Tennessee Williams. Casou-se, teve uma filha e dois netos. "A vida foi muito generosa comigo", afirma Zdenka.

Pode parecer um paradoxo para uma mulher que participou da "marcha da morte". Na realidade não é. Na luta contra a dor, ela foi a vencedora.

Eis a entrevista.

Senhora Fantlova, por que decidiu escrever sua história somente depois de cinquenta anos?

Porque só depois de meio século é que voltei para casa. No começo eu queria esquecer, como muitos dos sobreviventes do Holocausto. Eu vivi muitos anos na Austrália, depois, em 1969, mudamo-nos para Londres. Mas para voltar a Tchecoslováquia esperei até o fim do comunismo. Primeiro não o considerava um lugar seguro.

Foi sua volta para casa que lhe deu vontade de escrever?

Na verdade, foram as perguntas de meus antigos colegas de escola que reencontrei em Rokycany, uma cidade a 80 km de Praga. Não nos víamos desde janeiro de 1942, quando a minha família foi deportada para Terezín. ‘Mas por que você é a única sobrevivente?’. ‘Que vida você levou nos campos de concentração?’. Perguntas simples que, no entanto, não eram fáceis de responder. Então, de volta a Londres, voltaram à minha memória tantos detalhes que eu tinha guardado em algum lugar.

Seu relato difere de outros testemunhos pelo tom incrivelmente vital. Mas a senhora realmente viveu sua prisão dessa forma ou optou por contá-la assim?

Eu a vivi assim. Isso é porque eu nunca me senti como uma vítima, mesmo nas condições mais adversas. Eu sempre me percebi como uma observadora dos acontecimentos, fatos que, porém, não me diziam respeito pessoalmente. Eu cultivava teimosamente uma espécie de alheamento, também por desconhecer a tragédia que eu estava vivendo. E mesmo enquanto eu sofria humilhações pavorosas, eu tratava de fazer com que não me dominassem por completo.

Como foi possível?

Eu não tinha medo. E isso me deixou mais forte. Mesmo no pós-guerra, eu me mantive livre de tais memórias, não tentei sufocá-las debaixo de uma pedra, como fizeram outros sobreviventes alimentando assim suas ansiedades. Acredito que cada um de nós - nós, sobreviventes do Holocausto – tenha sofrido e resistido de forma diferente.

A senhora viveu a experiência extraordinária do teatro em Terezin.

"Sim, eu trabalhava nas cozinhas do campo quando fui abordada por um rapaz pálido com o ar triste de Pierrô. ‘Desculpe-me, moça, você sabe chorar?’. Em seguida, ele me convidou para os ensaios no galpão Magdeburg. Era Josef Lustig, ator e dramaturgo famoso por suas comédias satíricas".

O que significava fazer teatro em um campo de concentração?

Não era entretenimento ou distração, mas esperança! (Nde: Zdenka repete três vezes: hope, hope, hope). A gente esperava que a guerra fosse acabar logo e estaríamos de volta para casa. Todas as atividades culturais - incluindo música, concertos, recitais - nós levavam de volta para a vida civilizada que vivíamos antes da guerra. O teatro nos dava a força para continuar, mais precioso que um pedaço pão. Ainda me lembro da canção final do espetáculo de Karel Svenk, uma espécie de Charlie Chaplin checo.

Suas sátiras eram manifestamente políticas e refletiam os desejos de cada judeu sentado na plateia. ‘Querer é sempre poder, então se segurem pelas mãos, segurem-se com força e sobre as ruínas do gueto poderemos finalmente dar risadas’. Estávamos todos convencidos de que isso iria acontecer.

Muitas eram peças cômicas. O que significava rir junto com os próprios carrascos?

Mas nós não nos concebíamos como prisioneiros. Nós usávamos as nossas roupas, nos encontrávamos com os amigos. Havia mais liberdade em Terezín do que teríamos no mundo normal. Em poucos meses a cidade foi se povoando de artistas, atores, diretores, músicos que eram o melhor da sociedade cultural checa: para uma garota como eu, foi uma oportunidade única. Aliás, nós nem mesmo víamos os alemães. Nós só tínhamos guardas checos que, naturalmente, recebiam ordens do comando nazista.

Entre as disposições mais temidas, havia a ordem de subir em um trem para o leste.

Sim, basicamente, era como dançar debaixo da forca. Mas lembre-se que não sabíamos nada sobre Auschwitz. Vivíamos em uma espécie de engano total. Os alemães nos haviam condenado à morte sem nos contar, permitindo-nos tocar e cantar até o final. Ainda me lembro de um grupo de idosos a quem foi prometido um passeio até um famoso centro de águas termais: sua preocupação era colocar nas malas os vestidos para a noite. Em vez disso, eles foram enviados para uma câmara de gás.

Depois o trem para Auschwitz também chegou para você, sua mãe e sua irmã. Mesmo transmitindo o horror, seu testemunho está cheio de esperança. Alguém levantou a objeção de que pode ser "perigoso" porque existe o risco de os leitores não entenderem completamente a barbárie dos campos e as feridas deixadas nas vítimas.

Eu contei a minha experiência exatamente como a vivi. E a única vez em que o meu desejo de viver faltou foi quando cheguei a Estocolmo, logo depois da libertação, e descobri que minha família havia sido aniquilada. Eu era a única sobrevivente. Sobrevivi também a Arno, meu grande amor perdido e encontrado em Terezín: em casa ainda conservo o anel de latão em que gravou a data da nossa separação.

Quais são os seus sentimentos, hoje, em uma Europa atravessada por pulsões neonazistas e racistas?

As pessoas geralmente me perguntam se o Holocausto pode acontecer de novo. Eu respondo que sim. Porque não foi uma catástrofe natural, mas o produto da humanidade. E os homens, infelizmente, não mudam. Enquanto não aprenderem o que é a tolerância, haverá o perigo de uma tragédia ainda pior.

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