Gastronomia é política contra o sistema alimentar criminoso. Entrevista com Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food

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26 Janeiro 2018

Carlo Petrini, fundador e presidente do movimento global Slow Food, participou de um colóquio realizado em Santiago, na Universidade Diego Portales (UDP), organizado pela rede Pilgua santiaguina do Slow Food, o movimento que ele fundou em 1986 e que no Chile é presidido por Rita Peña. Também houve a exposição de Alicia Muñoz, dirigente da ANAMURI (Associação de Mulheres Rurais e Indígenas), Raúl González, da Academia de Humanismo Cristão, e de Lucía Sepúlveda, da Rede de Ação em Praguicidas - RAP - Chile. Referiram-se à agroecologia, aos perigos que a semente camponesa enfrenta e à importância da alimentação local.

Petrini, um ativista italiano e global do tema da alimentação local, sociólogo e escritor, vinha de uma participação no Congresso Futuro. A imprensa nacional ignorou sua colocação no painel Comermos o Planeta, de quinta-feira passada. No UDP, uma plateia atenta acolheu com entusiasmo suas explanações. Iniciou se desculpando por falar castelhano “estilo Maradona na Itália”. Carlo Petrini se referiu assim aos programas sobre chefs e comidas da televisão:

“Em qualquer parte do mundo, a todo momento, você vê na televisão homens falando de receitas, de gastronomia, de panelas. E onde estão as mulheres? A história da gastronomia é de milhares de mulheres que, em qualquer parte do mundo, produziram do nada coisas fantásticas, a comida. Onde está a paixão? Elas são as que alimentaram o mundo e dar de comer é um ato de amor. O primeiro gesto de amor é o de um bebê que ao nascer se prende ao peito da mãe. Esses programas não são de gastronomia, isso é pornografia alimentar”.

A entrevista é Lucía Sepúlveda Ruiz, publicada por America Latina en Movimiento (ALAI), 22-01-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

E o que é a gastronomia, então?

É falar de agricultura, de economia, de antropologia, de transformação da ciência. A gastronomia é uma ciência multidisciplinar. Nunca se falou tanto de gastronomia, mas se ignora o essencial. Os camponeses não são respeitados, não se respeita sua dignidade. Estão desaparecendo os verdadeiros produtores da comida, disso é preciso falar. Esse sistema alimentar criminoso nos levou a esta situação dramática. Em 118 anos, perdemos 70% da biodiversidade, são milhares e milhares de frutas, hortaliças e raças de animais que se perdem por não ser consideradas produtivas. Que futuro aguarda nossos filhos? Não vamos comer celulares, nem textos de internet! Necessitamos com urgência uma mudança de paradigma.

Qual é sua mensagem para os gastrônomos e ambientalistas chilenos?

Diria a eles que um gastrônomo que não é ambientalista é um tonto, e um ecologista que não é gastrônomo é triste. Muda-se o mundo com alegria. Esta é a política em tais momentos. O sistema alimentar precisa de uma mudança urgente, porque vivemos do que comemos.

Que relação vê entre o sistema alimentar e a mudança climática?

O sistema alimentar é o principal responsável pela mudança climática porque gera 34% das emissões de carbono. Faz viajar a comida milhares e milhares de quilômetros. E, além disso, está gerando as vítimas dessa mudança: os camponeses e as populações afetadas. Vivemos uma situação esquizofrênica. Há anos, na Itália, comendo em uma região que tem um pimentão especial, percebi que esse pimentão não tinha sabor algum. Explicaram-me que agora produzem a variedade híbrida, porque sai muito mais barato.

Os camponeses já não plantam o pimentão antigo. Dedicam-se a plantar bulbos de tulipas que são enviadas a Holanda! Outra região nossa tinha um queijo único, maravilhoso. Contudo, perdemos essa raça de vaca que só produzia 14 litros diários por favorecer outras, holandesas, que dão muito mais leite. Agora temos leite muito barato, processado, sem nenhuma vitamina, e pagamos um preço especial por leite com Ômega 3. Perdemos a vaca e seu queijo tradicional. Ao tomar consciência disto, fundamos Slow Food, começamos a defender a biodiversidade e a remar contra a lógica produtivista. Temos uma rede de produtores Terra Madre em 160 países do mundo. E criamos uma Universidade de Ciências Gastronômicas, com 600 estudantes de 80 países do mundo. E estudam de tudo porque um gastrônomo tem que saber de tudo.

Também de política?

Claro, porque a gastronomia é economia política... porque o verdadeiro poder tem a ver com governar o estômago das pessoas. Hoje não se briga por terras. Para quê? Já que a indústria alimentar controla a semente e é a mesma que produz os fertilizantes, os químicos, os organismos geneticamente modificados e os medicamentos. Têm nome: Monsanto, Cargill, Nestlé... O poder da comida se concentra em poucas mãos e isto é de uma violência inaudita.

Na África, os camponeses já não produzem tomate, pois toneladas de tomates cultivados na China são processados na Itália e exportados enlatados para a África a um preço de dumping. Índia, China e os Emirados Árabes compraram 80 milhões de hectares na África e os camponeses perderam suas terras ancestrais. Esta é a nova forma assumida pelo colonialismo. Por isso, os jovens africanos vão para a Europa, pressionam. As economias locais estão sendo destruídas. Contudo, os políticos de direita e de esquerda dormem, só falam de desenvolvimento e produção. No mundo, produz-se comida para 12 bilhões de pessoas e 38% disso se perde, é uma vergonha. São 210 milhões de pessoas que passam fome e 1 milhão sofre de desnutrição com doenças como diabetes, obesidade, hipertensão. São duas caras da mesma moeda.

O que ocorreu com a comida, então?

Nos últimos 60 anos, a comida perdeu valor. Antes tinha um significado profundo, tinha a ver com a gente do campo que é quem a produz, com o ambiente, com a paisagem. Agora, é apenas algo que tem um preço, uma mercadoria a mais, uma commodity. E o que ocorre com este sistema é que, por exemplo, na Itália, em fins da Segunda Guerra Mundial, 50% da população era camponesa e agora o número é de apenas 3%. Antes, não existia a fome no campo. Agora, no México, 5% dos camponeses passam fome. Isto é falar de gastronomia. É falar da perda de valor da comida e da situação dos produtores.

E qual é a saída?

Ao ver um prato, é necessário perguntar ao cozinheiro quantos quilômetros aqueles ingredientes viajaram. E quanto pagaram aos produtores. Precisamos fortalecer a agricultura local. Vocês têm que comprar produtos chilenos, comer local. Temos que exercer uma cidadania ativa, e de consumidores de alimentos passar a ser coprodutores, conhecer a rastreabilidade, gerar uma economia participativa. Penso que hoje, em todo o mundo, fazer uma horta é uma prática revolucionária. É necessário também sustentar comunidades que tenham objetivos de produção, pagando-lhes adiantado para que tenham segurança. E é importante reconhecer que existe uma sabedoria e uma ciência dos camponeses, dos indígenas, com a qual os acadêmicos da ciência oficial devem dialogar. Alicia Muñoz, a dirigente camponesa que falou neste colóquio, deveria ter se pronunciado no Congresso Futuro do qual participei, onde só havia cientistas e intelectuais. O diálogo deve ser transversal e entre iguais. Conseguir a mudança parece difícil, mas é alentador saber que somos muitos. Todos juntos temos esperança. Quero tomar as palavras de Francisco de Assis, que para mim é o maior italiano. Ele dizia que para começar, é preciso realizar o necessário. Depois, vamos poder realizar o que é possível. E de repente, vamos poder realizar o impossível.

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