Crer é manter a vigília... não só no Advento

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12 Dezembro 2017

"Mais ainda: uma sociedade não pode ser cristã ou não-cristã. Uma sociedade não pode ser convertida, não pode mudar de vida, ser discípula. Seus membros, certamente, têm o dever de promover as instituições certas: serão instituições em consonância com o evangelho, e isso é evidentemente preferível ao ódio, à discriminação e à violência do poder. Mas mesmo com uma esmagadora maioria de cristãos, nós nunca realmente conseguimos isso", escreve Patrick Royannais, padre francês, da diocese de Lyon, em artigo publicado por Baptisés, 01-12-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Inicia-se o Advento. Isso significa que devemos fazer o que em outros momentos não somos obrigados a fazer porque não está na agenda? Não, ao contrário, significa viver a fé como uma vigília, sempre; o tempo do Advento, mais do que um tempo de vigília, é um momento que nos lembra que a vigília, a espera, é uma forma que constitui e é constante da vida do discípulo.

Estar em vigília, não para se preparar para o Natal. Ficamos até enjoados por essa preparação. Eu entendo que pode ser importante para as crianças, mas o movimento comercial ensejado pelo evento, o consumo desenfreado, o desperdício, são como uma indigestão. Enquanto o planeta está sofrendo, continuamos a iluminar as ruas como se nada estivesse acontecendo. Como se o importante fosse alegrar as nossas cidades por algumas semanas. Nós não as alegraríamos mais garantindo que ninguém tivesse que dormir ao relento, ao frio?

Vamos celebrar o nascimento de Jesus, pobre entre os pobres. E, para homenageá-lo, o que fazemos? Fazemos sacrifícios ao ídolo. É o deus dinheiro que controla nossas ações, que toma posse das ruas e das vitrines e esconde os pobres dos nossos olhares e das nossas preocupações.

Fazer a vigília é viver a fé, ser discípulo. Acreditar, de fato, não significa saber coisas sobre Deus. Acreditar não é assumir um conjunto de valores ou saberes. Pelo contrário, acreditar é aceitar viver com as mãos vazias, estendê-las como mendigos, para receber, para esperar de Deus. Nós não sabemos nada sobre ele, ou tão pouco, apenas o mínimo para não confundi-lo com o ídolo, apenas o mínimo para não encerrá-lo em uma definição, mesmo que seja a do catecismo. Como poderia o Deus grande, infinito, ser definido?

Ao tornar-se a religião de toda a sociedade, o evangelho foi traído. Não porque todos acreditam nele, mas porque se deixou de acreditar nele: do evangelho tirou-se proveito, tirou-se vantagem para sacralizar um tipo de sociedade. Cristãos somos sim, é claro, mas crentes? E às vezes sentimo-nos nostálgicos daqueles tempos, desesperados diante de um mundo que já não é mais cristão. (Note-se que o evangelho nunca foi a religião de toda a sociedade. Sempre existiram judeus e quase sempre muçulmanos. O cristianismo sempre foi um sonho, a posteriori, ou um pesadelo, porque é pela força e pela exclusão que nos livramos dos não-cristãos).

Mais ainda: uma sociedade não pode ser cristã ou não-cristã. Uma sociedade não pode ser convertida, não pode mudar de vida, ser discípula. Seus membros, certamente, têm o dever de promover as instituições certas: serão instituições em consonância com o evangelho, e isso é evidentemente preferível ao ódio, à discriminação e à violência do poder. Mas mesmo com uma esmagadora maioria de cristãos, nós nunca realmente conseguimos isso.

O evangelho advertiu: estaremos divididos em famílias, por causa do nome de Jesus, a tal ponto que até mesmo os parentes mais próximos não perseguirão! E nós que estamos agora desorientados, perdidos, porque não conseguimos transmitir a fé aos nossos filhos! Estamos à procura de bodes expiatórios, de responsáveis, de explicações para a descristianização: o que diz o padre, o que faz o Papa, a liquidação do sentido do sagrado, a perda de valores, etc. Mas nos questionamos bem pouco sobre o nosso modo de viver a fé, diga-se de passagem. Mas não, já se falava no evangelho de famílias divididas. Se as famílias não são unanimemente cristãs, como poderia sê-lo a sociedade? De onde surge o problema?

Fizemos da fé de um sistema de pensamento, um sistema social e político, um código moral, de valores. Em vez disso, é preciso a vigília. A fé não é o que possuímos, mas o precisamos esperar; fé é esperar e não ver, não possuir. “Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos" (Rm 8,24-25). O que se vê, o que se possui, como esperá-lo ainda, como acreditar ainda nele?

E o que nós esperamos na fé? O que esperamos durante o advento como manifestação de que estamos sempre à espera? "Quem nos fará ver a felicidade?" Pergunta o salmista. "Livrai-nos do mal", responde a nossa oração.

Claro que, se temos tudo o que é preciso para sermos felizes, se o mal não nos atinge, não temos nada a esperar. Mas por maior que seja a nossa alegria, é alegria completa? Por mais cegos que estejamos diante da miséria dos outros ou resignados ante o mal, nós realmente temos que aceitá-lo? Não se trata de nos flagelarmos para que chegue o bem no final. Trata-se, ao contrário, de não arrefecer o nosso desejo de uma vida boa. Trata-se de sempre querer mais, de nunca nos resignarmos diante dos obstáculos para a felicidade e a vida. "Tenho-vos dito essas palavras, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa" (Jo 15,11).

Sem essa felicidade, a vida não é digna. Acreditar não tem nada a ver com a organização de uma sociedade cristã, uma família cristã. É um protesto, uma vigília, para que sempre haja mais vida, é a recusa de tudo o que não é suficientemente bom para nós. Os nossos valores são muito pequenos, muito sábios.

Acreditar é ter esperança pela vida, é estar em vigília pela vida. Quem vai vigiar para manter aberta a esperança de uma vida divinamente humana, humanamente divina?

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