O cristianismo do futuro. “Reconhecer Deus nesse mundo e não mais no passado”

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28 Novembro 2017

Como pensar o cristianismo de hoje e de amanhã? Esta semana, vai a primeira parte da nossa série de entrevistas com os autores de Plaidoyer pour un nouvel engagement chrétien (Éditions de l'Atelier).

Jean-Victor Élie e Pierre-Louis Choquet, doutorandos e pesquisadores, escreveram com Anne Guillard um “Pleito por um novo compromisso cristão”, livro pelo qual eles esperam atestar um “cristianismo mergulhado no mundo”.

A entrevista é de Sixtine Chartier, publicada por La Vie, edição de 02-11-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O livro de vocês se apresenta como um pleito. Pelo que vocês pleiteiam e quem são seus contendores?

Pierre-Louis Choquet: Nós quisemos escrever esse livro, no contexto que se segue às manifestações Manif pour tous, em 2015, porque nós não estávamos satisfeitos com o modo como alguns jovens católicos se manifestavam na esfera pública. Nós estávamos incomodados com o viés conservador que emanava do seu discurso e que estava em defasagem com a experiência que nós fizemos da vida cristã no dia a dia. E o nosso desejo era tomar posição publicamente. Nós também tínhamos o sentimento de que essas parcelas da Igreja estavam se apropriando do Papa Francisco, mas de uma maneira muito “integralista”.

O que vocês entendem por “integralista”?

Jean-Victor Élie: Nós fazemos referência a uma noção como a “ecologia humana”, que traz embutida uma visão conservadora e contra-cultural, isto é, que pensa a modernidade como uma espécie de impasse, um lugar em que o cristianismo corre o risco de se perder. Os católicos dessa corrente imaginam o mundo de hoje como o fim do catolicismo na França. Em vez disso, nós acreditamos que é nesse mundo, aqui e agora, que Deus escolhe se revelar e que a tarefa que nos incumbe é reconhecer Deus nas dobras desse mundo, e não na nostalgia de um mundo passado, imaginado.

Mas a fé cristã não deve também ser um “sinal de contradição” para o mundo, como está escrito no Evangelho?

Jean-Victor Élie: É evidente que a fé deve ser sinal de contradição. Mas não é porque vamos buscar Deus na nossa vida presente e no mundo, à medida que evolui; esse não é o caso. O estilo de vida de Jesus continua sendo um sinal de contradição para o mundo presente. Mas ele está sempre em diálogo com os seus contemporâneos, com seu modo de vida e seus questionamentos, e não na rejeição. Cristo não chega se posicionando imediatamente contra tudo o que existe. Ele é judeu e tem uma forma de penetração completa na realidade em que vive.

Pierre-Louis Choquet: A fé não deve ser uma contradição que seja moral, mas uma contradição que gera perplexidade nas pessoas que estão prontas para ouvi-lo e que as remete para o que realmente acreditam. Foi o que disse Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça!”

Ainda é necessário que os fundamentos filosóficos e antropológicos do cristianismo sejam entendidos. Isso não tem nada de evidente hoje...

Pierre-Louis Choquet: Mas quais são os fundamentos antropológicos do cristianismo? No Evangelho, não há muita coisa sobre essa questão. A pesquisa em antropologia nos ensina que o fenômeno humano é muito diverso e que há pouquíssimas constâncias. Para nós, a única invariável antropológica sobre a qual se pode articular o cristianismo é que a pessoa humana foi feita para celebrar. A maneira como o cristianismo celebra o fenômeno humano e a vida é, do nosso ponto de vista, sem dúvida extraordinário.

Jean-Victor Élie: Celebrar é entrar em uma dinâmica de reconhecimento. É reconhecer que nós recebemos alguma coisa de muito grande, como disse Paulo aos cristãos de Corinto: “O que você tem que não tenha recebido?” Desse dom incrível brota um imenso sentimento de gratidão que nos dá uma profunda alegria. E é isso, sem dúvida, que precisamos comunicar ao mundo de hoje: esta esperança indescritível de que nós recebemos de um imenso dom.

Pierre-Louis Choquet: Mas o fato de operar esse deslocamento e de colocar em perspectiva os fundamentos antropológicos da teologia de João Paulo II não quer dizer que nós pensamos que o dogmático não tem nenhuma serventia...

Vocês abordam, além disso, no livro, as questões bioéticas, que são, de acordo com vocês, questões “maiores”...

Jean-Victor Élie: Sobre esses temas de bioética como o aborto, a PMA [procriação médica assistida], a eutanásia, nós temos uma posição muito clara. Mas isso não é o que mais importa, para nós, nesse livro, mas na medida em que nós constatamos um investimento massivo da Igreja católica na França nesses temas. Pelo contrário, nós ouvimos, naquele momento, algum padre falar em uma homilia sobre as desigualdades sociais e ecológicas, ou sobre a lei do antiterrorismo que torna os poderes da polícia administrativa preocupantes? Há um verdadeiro silêncio sobre essas questões na Igreja católica. Isso não quer dizer que nós escondemos os temas bioéticos. Mas esse desequilíbrio não nos parece ajustado.

Nesse caso, vocês se reconhecem no conceito de “ecologia integral”, que relaciona os combates bioéticos com os combates ecologistas, e que foi desenvolvido pelo Papa Francisco na Laudato Si’?

Pierre-Louis Choquet: Na França, depois do Manif pour tous e do [movimento] dos Veilleurs, uma parte da contestação mudou efetivamente de dimensão e abordou as dimensões ecológicas, sociais, etc. Isso deu “a ecologia integral”. Mas essa expressão é muito conotada. Para uma pessoa que não participa da Igreja, que realmente têm motivos para se sentir ferida pela instituição (por exemplo, se sua vida não está conforme aos “cânones” católicos), falar de “ecologia integral” é quase impossível, porque a expressão tem uma tendência enclausurante e moralizante.

Jean-Victor Élie: Mas tudo depende da maneira como a compreendemos. Pessoalmente, eu tenho sido interpelado pela frase do Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado”. A “revista de ecologia integral” Limite retomou-a como uma divisa. E, na realidade, o social está ligado ao ecológico. Mas como vamos poder traduzir isso para pessoas para as quais isso não está inteiramente claro?

Em seu livro, vocês analisam a evolução dos católicos conservadores, de direita, e vocês a deploram. Mas eles não têm pelo menos o mérito... de existir? Os cristãos que se reivindicam como sendo de esquerda parecem ter desaparecido dos radares.

Jean-Victor Élie: Somos nós cristãos de esquerda? Nós nunca nos reivindicamos como tais. Para nós, não faz sentido esquecer a dogmática e a liturgia para ficar apenas com a ecologia, por exemplo. Um dos erros do catolicismo de esquerda – expressão muito datada hoje – foi, talvez, o de entrar de cabeça na luta política e social sem cultivar ao mesmo tempo um amor à Igreja, até mesmo criticando violentamente a instituição. Nós nos sentimos, ao contrário, muito ligados à Igreja.

Vocês assumem outras diferenças com os cristãos de esquerda “à antiga”?

Jean-Victor Élie: O que é verdadeiramente novo é o século XXI e suas questões. A ecologia é uma questão central para nós, ao passo que os “católicos de esquerda” dos anos 1960-1970 não a abordavam, à exceção de algumas correntes ecologistas em torno de Lanza Del Vasto. Nós nos atemos a questões do nosso tempo e não queremos reavivar uma espécie de oposição eterna entre correntes.

Pierre-Louis Choquet: E, além disso, a filosofia da história marxisante não existe mais hoje. Nos anos 1960-1970, as pessoas ainda pensavam, de maneira mais ou menos explícita, que haveria uma revolução e que uma sociedade sem classes poderia surgir...

Vocês, então, estão propondo uma espécie de atualização do catolicismo de esquerda?

Jean-Victor Élie e Pierre-Louis Choquet: Não!

Jean-Victor Élie: Nós não nos sentimos realmente herdeiros desta tradição. Nós simplesmente procuramos refletir sobre o sentido que “o compromisso cristão” pode ter no mundo de hoje.

Pierre-Louis Choquet: Quando dizemos “cristão de esquerda”, ouvimos “cristão, portanto de esquerda”, como explica o deputado Dominique Potier. Ele prefere dizer: “cristão e de esquerda”. Não é sem relação, mas o discurso político e o discurso religioso são bem distintos.

Em seu livro, vocês opõem esperança e contra-cultura. Mas, na realidade, são contraditórias? A mudança não passa por uma verdadeira contra-cultura? Por exemplo, uma contra-cultura anticapitalista face ao modelo burguês...

Pierre-Louis Choquet: Se é uma contra-cultura que é moral e que deplora o pluralismo, não. Se é uma contra-cultura que abre passagens que permitem às pessoas saírem dos impasses nos quais elas se encontram, ótimo.

Jean-Victor Élie: Eu diria que isso não é fonte de inquietações para nós. Pelo contrário, isso nos põe a imaginar novas maneiras de ser no mundo enquanto cristãos. Qual será o centro: o culto – isto é, a missa –, a partilha do Evangelho entre vários? Ou outra coisa ainda?

E esta nova maneira de ser no mundo é passível de frear e até de inverter a tendência?

Jean-Victor Élie: A fé não se transmite, se propõe. Eu não me levanto de manhã dizendo para mim mesmo: “Hoje, eu vou converter 10 pessoas e terei atingido a minha cota”. Eu vivo como um cristão, não o escondo, isso me faz viver e me dá alegria, e eu posso compartilhá-lo com os outros sem que meu objetivo seja o de converter o máximo de pessoas. A conversão é um caminho pessoal, íntimo, que não se impõe.

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