Com os budistas em Mianmar, a mensagem do Papa foi o encontro

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30 Novembro 2017

Nesta quarta-feira, o Papa Francisco realizou uma reunião com a liderança budista de Mianmar, que foi um caso clássico em que a mensagem foi o encontro, que aconteceu em um país onde, como disse Francisco, o diálogo entre líderes religiosos representa uma forma essencial de promover paz e justiça.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 29-11-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Em Mianmar e no mundo todo, como disse Francisco ao Conselho Supremo Sangha de monges budistas de Mianmar, as pessoas precisam de um "testemunho comum" por parte dos líderes religiosos.

"Quando falamos numa só voz afirmando o valor perene da justiça, da paz e da dignidade fundamental de todo o ser humano, oferecemos uma palavra de esperança", disse ele.

Este testemunho, disse, é particularmente necessário em uma época em que, apesar do progresso tecnológico e de uma crescente consciência de nossa humanidade comum pela sociedade, "as feridas dos conflitos, da pobreza e da opressão persistem e criam novas divisões".

"Nunca devemos nos resignar diante desses desafios", disse Francisco.

Demonstrando respeito a seus anfitriões, ao chegar ao templo Kaba Aye, Francisco tirou os sapatos e ficou de meias pretas, o que já é uma exceção, pois ambos monges e visitantes sempre andam descalços no pagode.

A grande maioria da população de Mianmar é budista, e as minorias religiosas e étnicas muitas vezes reclamam que sofrem opressão e têm uma cidadania de segunda classe. Nesse contexto, Francisco disse aos monges budistas que toda a sociedade é chamada para trabalhar na superação dos conflitos e da injustiça, acrescentando que líderes civis e religiosos têm a responsabilidade de garantir que toda voz seja ouvida.

O nome oficial do grupo que se reuniu com Francisco é Comitê Estatal Sangha Maha Nayaka, um órgão nomeado pelo governo com 47 grandes monges budistas que supervisiona e regula o clero budista em Mianmar.

Estima-se que haja 500.000 monges budistas e 70.000 monjas em Mianmar.

Francisco foi recebido pelo Presidente do Comitê, Bhaddanta Kumarabhivamsa, dizendo que mesmo professando diferentes religiões, "todos andam no mesmo caminho que conduz ao bem-estar da humanidade".

O monge disse que todas as religiões podem, de alguma forma, levar à paz e à prosperidade, e que é por isso que ainda há crenças diferentes ao redor do mundo.

Ele também disse que é "lamentável ver 'o terrorismo e o extremismo' sendo levados adiante em nome de crenças religiosas", algo que, segundo ele, é "inaceitável".

"Acreditamos firmemente que o terrorismo e o extremismo surgem a partir de más interpretações dos ensinamentos originais de suas religiões, porque alguns seguidores introduzem alterações aos ensinamentos originais pelo impulso de seus próprios desejos, instintos, medos e decepções", disse.

Por isso, acrescentou, os líderes religiosos têm a responsabilidade de transmitir os ensinamentos genuínos de cada fé.

Em seu discurso, Francisco disse que o desafio que os líderes religiosos enfrentam hoje é ajudar as pessoas abertas ao transcendental e olhar para dentro de forma profunda e ver que estão interligadas com todas as pessoas, porque "nós não podemos nos isolar uns dos outros".

"Se é para estarmos unidos, como é nosso propósito, precisamos superar todas as formas de incompreensão, intolerância, preconceito e ódio", declarou. Para exemplificar, usou duas citações, uma de Buda e outra atribuída a São Francisco de Assis, ambas expressando sentimentos semelhantes.

"Supera a raiva com a serenidade; supera a maldade com a bondade; supera a avareza com a generosidade; supera a mentira com a verdade", diz a frase atribuída a Buda.

Já a citação muitas vezes atribuída a São Francisco diz: "Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão... Onde houver trevas, que eu leve a luz, onde houver a tristeza, que eu leve alegria".

O Papa também pediu aos monges para continuarem se encontrando com bispos católicos locais, bem como líderes de outras religiões e autoridades civis, dizendo que tais reuniões são "essenciais se quisermos aprofundar nossa compreensão uns dos outros". Segundo ele, isso é necessário porque "só será possível atingir a verdadeira justiça e a paz duradoura quando estiverem garantidas para todos".

Esta é a segunda vez que Francisco visita um país de maioria budista. O primeiro foi o Sri Lanka, em 2015. Ainda que não houvesse nenhuma visita programada a uma comunidade budista na sua agenda no país do sul da Ásia, o Pontífice argentino, conhecido por ser um homem de surpresas e de amplo alcance, visitou um templo budista inesperadamente.

Em 2015, um porta-voz do Vaticano disse que uma autoridade budista que havia cumprimentado Francisco no aeroporto tinha convidado-o para visitar, e que o Papa "quis demonstrar amizade e atitude positiva".

Na quarta-feira, Francisco expressou um sentimento de "estima" àqueles que vivem de acordo com as tradições religiosas do Budismo, uma vez que, através dos ensinamentos de Buda e do testemunho dos monges e freiras de Mianmar, a população "teve formação nos valores da paciência, da tolerância e do respeito pela vida, bem como uma espiritualidade atenta para - e que respeita profundamente - o nosso ambiente natural".

Esses valores, disse, são essenciais para o desenvolvimento integral da sociedade, começando "com sua menor mas mais essencial unidade, a família, e estendendo-se pela rede de relacionamentos que nos aproximam - relacionamentos enraizados na cultura, na etnicidade e na nacionalidade, mas, em última instância, em nossa humanidade comum".

No início do dia, o Papa rezou uma missa para cerca 150.000 pessoas, pedindo que evitem a tentação de responder à violência com vingança e chamando a Cruz de Cristo de "GPS espiritual que infalivelmente nos guia para a vida interior de Deus e o coração do próximo".

Francisco está em Mianmar para uma visita, de 27 a 30 de novembro, após a qual vai a Bangladesh, onde fica até 2 de dezembro, quando retorna a Roma. No final da quarta-feira, ele deve atender aos 20 bispos do país.

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