Na Ásia, o Papa apoia diálogo inter-religioso – com um “porém”

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14 Janeiro 2015


Papa Francisco cumprimenta o hindu Kurukkal SivaSri T. Mahadeva depois de receber uma túnica dele durante um encontro nesta terça-feira com líderes religiosos no Salão Internacional de Conferência Bandaranaike, em Colombo, Sri Lanka. (CNS, Paul Haring)

Ao visitar um país dilacerado por uma guerra civil de 30 anos que pôs budistas contra hindus e muçulmanos, tendo cristãos tanto como observadores quanto como vítimas, esperava-se que o Papa Francisco tivesse algo importante a dizer sobre as relações inter-religiosas.

E assim o fez na terça-feira no Sri Lanka, dizendo numa sessão com líderes religiosos do país que a harmonia entre os diferentes credos é fundamental, mas que ela não pode vir à custa da identidade distintiva de cada fé.

Ao citar os ensinamentos do Concílio Vaticano II (1962-1965), Francisco disse que a Igreja Católica tem um “respeito profundo e duradouro pelas outras religiões”.

A reportagem é de John L. Alles Jr., publicada por Crux, 13-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Falando em inglês, o pontífice reafirmou o que se tornou um tema emergente: o esforço de negar a legitimidade a todo aquele que usa a religião para justificar a brutalidade. Ele disse que “jamais se deve permitir que as crenças religiosas sejam usadas na causa da violência e da guerra”.

Sobre este assunto, ele também ouviu um  muçulmano local condenar, duramente, o recente ataque terrorista em Paris, insistindo que agora é o momento para os líderes religiosos “apoiarem uns aos outros”.

No entanto, o respeito pelas outras religiões, o papa deu a entender, não deve significar afrouxar ou suavizar as próprias crenças.

“Como a experiência mostrou, para que um tal encontro e diálogo seja eficaz, ele deve estar fundamentado numa apresentação completa e franca das nossas respectivas convicções”, disse o pontífice no dia de abertura de sua viagem de uma semana ao Sri Lanka e às Filipinas.

“Os homens e mulheres não precisam abandonar a sua identidade, seja ela étnica ou religiosa, no intuíto de viver em harmonia com os seus irmãos e irmãs”, falou Francisco.

“Se formos honestos ao apresentar as nossas convicções”, disse, “teremos condições de ver mais claramente aquilo que temos em comum”.

Francisco fez estes comentários durante um encontro com líderes religiosos num salão de conferências local, encerrando o primeiro dia de sua ida ao Sri Lanka e às Filipinas. Esta viagem, do dia 12 a 19 de janeiro, é a segunda à Ásia desde sua eleição ao papado.

O Sri Lanka constitui um ambiente religioso altamente diversificado. Os budistas compõem cerca de 70% da população, seguido por hindus com 12%, muçulmanos com 9% e por cristãos, 7%.

Na terça-feira de noite, Francisco viu expressões desta diversidade, incluindo um canto entoado por um monge budista, tendo outros se unindo a ele no salão principal, além das bênçãos recebidas de sacerdotes hindus e muçulmanos e uma oração conduzida por um bispo anglicano.

A certa altura, um sacerdote hindu chamado Suwami Sommasundaram deu ao pontífice um xale açafrão, cora sagrada para os hindus, que Francisco pôs sobre seus ombros e vestiu ao longo do evento.

O Xeique M.F.M. Fazil, sacerdote muçulmano, referiu-se ao recente ataque ao Charlie Hebdo em Paris, em que o assassinato de 12 pessoas por homens armados que enunciavam dizeres islâmicos despertou indignação ao redor do mundo. Cinco outras pessoas foram mortas por outro extremista muçulmano – uma policial e quatro pessoas num mercado judaico em outra parte da cidade.

Ao dizer que as vítimas do ataque “foram massacradas e mortas em nome do Islã”, Fazil insistiu que o Islã “não tem relação alguma com tais práticas e ações más”, e que esta religião é uma religião de “paz e harmonia”.

Fazil disse que o terrorismo e o extremismo são, na verdade, “uma religião por conta própria”.

“Pedimos aos líderes religiosos e dignitários que nos unamos, que possamos compreender religião uns dos outros, que nos apoiemos”, disse.

A própria sessão ocorrida entre os líderes religiosos foi um fato válido de nota, visto que a última vez que um papa veio ao Sri Lanka, em 1995, foi imediatamente após João Paulo II enfurecer muitos budistas ao chamar o credo destes de “um sistema ateu em larga medida”. Em protesto, alguns líderes budistas boicotaram um encontro inter-religioso semelhante durante aquela viagem, sem haver nada de mais violento.

Francisco foi levado para dentro do salão de conferências usando uma guirlanda de flores colocada no seu pescoço e acompanhado por uma fila de músicos percussionistas. Tomaram seus assentos num palco com símbolos de cada uma das religiões ao fundo.

Monges budistas participam de encontro do Papa Francisco com os líderes religiosos na terça-feira no Salão Internacional de Conferência Bandaranaike, em Colombo, Sri Lanka. (CNS, Paul Haring)

No espírito do século XXI, muitos dos seguidores das diferentes religiões no salão tiraram fotos uns dos outros usando seus aparelhos telefônicos e publicando-as via Twitter.

Um bispo do Sri Lanka considerou o encontrou um “evento sagrado e singular” na história do país.

Os pensamentos do Papa Francisco sobre as relações inter-religiosas serão atenciosamente ponderados durante esta visita por dois motivos.

Religiosamente falando, o Sri Lanka é um estudo de contrastes. É uma das sociedades mais intensivamente espirituais do planeta – a terceira mais religiosa do mundo, segundo um estudo do grupo Gallup de 2008 –, onde a tolerância e a diversidade são, frequentemente, apontadas como valores nacionais definidores.

“Somos um povo que acredita na tolerência e coexistência religiosa com base em nossa herança espiritual de séculos”, disse o presidente Maithripala Sirisena ao papa na terça-feira ao saudá-lo na chegada deste à Ásia.

Como se quisesse provar o que estava dizendo, Sirisena, budista que completava 100 horas no cargo de presente na ocasião, contou ao pontífice que se sentia privilegiado em recebê-lo no começo de seu período de governo, pois poderia pedir sua bênção.

Na quarta-feira, Francisco irá visitar um santuário mariano no norte do país, local católico que, no entanto, atrai um significativo número de peregrinos budistas, hindus e muçulmanos. No centro de Colombo, igrejas protestantes e templos budistas puseram à mostra banners saudando o pontífice.

Por outro lado, o Sri Lanka também é um lugar onde os budistas foram para a guerra contra uma minoria hindu e muçulmana, e onde, cinco anos depois de terminado o conflito, nacionalistas budistas linha-duras e militantes muçulmanos parecem, às vezes, à beira de iniciar um novo período de ataques.

Francisco referiu-se a este passado e ao presente momento, dizendo que “por durante muitos anos, os homens e mulheres deste país foram vítimas de conflitos e da violência”, e que aquilo de que se precisa hoje é “cura e unidade, não mais conflito e divisão”.

O papa disse que o grande trabalho de reconstrução deve se focar na infraestrutura e pobreza material, mas mais ainda em “promover a dignidade humana, o respeito pelos direitos humanos e a plena inclusão de cada membro da sociedade”.

A linguagem de Francisco sobre a identidade e o diálogo será escrutinado com muita atenção. As tenções entre os bispos asiáticos e o Vaticano neste tocante têm uma longa história, e durante as décadas de 1990 e 2000 vários teólogos progressistas foram disciplinados por irem longe demais em misturar conceitos e práticas espirituais orientais dentro do cristianismo.

Um destes teólogos era do Sri Lanka, o falecido Tissa Balasuriya, que esteve por alguns anos excomungado antes de assinar um juramento de lealdade.

Em geral, Francisco é considerado como sendo mais flexível em tais assuntos, embora a sua linguagem empregada nesta quarta-feira dê a entender que há limites, e que ele poderá estar vigilante a respeito de se manter uma identidade católica distintiva na Ásia como os seus predecessores, os papas João Paulo II e Bento XVI.

Pouco antes de partir para a sua segunda viagem à Ásia, Francisco se referiu, de maneira ligeiramente cética, a algumas práticas orientais durante uma homilia em sua residência no Vaticano.

“Uma sessão de yoga não poderá ensinar um coração a ‘sentir’ a paternidade de Deus”, disse, “nem um curso de espiritualidade zen o tornará mais livre de amar”.

Na terça-feira, Francisco pediu que os seguidores das diferentes religiões se reunissem para a construção de um mundo melhor, esforçando-se, em especial, para “atender às necessidades materiais e espirituais dos pobres” e – algo central num país que viveu uma guerra durante 30 anos – “às necessidades das muitas famílias que continuam a velar pela perda de seus entes queridos”.

Esta semana promete ser cansativa para o Papa Francisco, visto ser esta a mais longa viagem internacional de seu papado desde julho de 2013, quando foi ao Brasil.

O clima no Sri Lanka na chegada do papa estava ensolarado e quente, com temperaturas elevadas, e a propensão deste pontífice de se mover em meio às multidões lentamente num papamóvel preocupou alguns de seus auxiliares, devido à possibilidade de que ele fosse afetado pelo calor.

Um encontro planejado com os bispos locais na terça-feira foi cancelado no último minuto, com as autoridades vaticanas citando um atraso demorado no trajeto do papa do aeroporto ao centro de Colombo, aliado ao fato de que ele já havia se reunido com os bispos no próprio aeroporto e também os viu no último mês de maio em Roma.

Na quarta-feira, Francisco deve celebrar uma missa ao ar livre para canonizar o Beato José Vaz, padre missionário que viveu nos séculos XVII e XVIII nascido em Goa, Índia. Vaz ajudou a reconstruir a Igreja Católica no Sri Lanka durante um período de repressão protestante holandesa. Espera-se que, pelo menos, meio milhão de pessoas – algumas das quais não católicas – participem da celebração.

No fim do dia, o pontífice irá viajar para o norte do país para visitar um santuário mariano em Madhu, localizado numa região de batalha durante a guerra civil. Muitos observadores consideram esta ida do papa à região como uma forma indireta dele de pedir ao governo do Sri Lanka para promover o desenvolvimento e a reconciliação na região, onde a minoria populacional tâmil se concentra.

Na sexta-feira, o pontífice embarca para as Filipinas, de longe o país mais católico na Ásia, onde espera-se que ele atraia algumas das maiores multidões na história dos eventos papais.

Para se ter ideia do interesse que esta viagem tem no país, cerca de 14 jornalistas filipinos estarão a bordo do avião papal, o que é um dos maiores contingentes de imprensa local a viajar com um pontífice.

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