Análise de Quinn sobre o Vaticano I e a infalibilidade é o seu presente final

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21 Novembro 2017

"A minoria presente no Vaticano I conseguiu modificar a redação do decreto e encurtar o escopo da infalibilidade, porém os seus membros não venceram realmente a batalha na imprensa. Manning e Ward agiram como se a infalibilidade papal definida pelo concílio fosse aquela com que haviam começado, um poder de longo alcance, praticamente ilimitado, poder que certamente se estendia ao Sílabo. Até a eleição do presidente americano John F. Kennedy em 1960, o imaginário popular enxergava a infalibilidade papal de um modo mais amplo, e mais perigoso, do que realmente é." 

O comentário é de Michael Sean Winters,  jornalista americano especializado em assuntos relacionados com a Igreja Católica, publicado por National Catholic Reporter, 17-11-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Papa Pio IX a proclamar a doutrina da infalibilidade durante o Concílio Vaticano I, em 18-07-1870, retratado em um vitral na Igreja de Saint-Melaine, em Domalain, na França. (Foto: Wikimedia Commons/GO69))

Durante a assembleia dos bispos dos EUA esta semana, um rosto, sempre vívido e ativo, com o olhar fino de um homem que acabou de pensar algo inteligente a dizer, esteve notoriamente ausente. Em 22 de junho, o arcebispo de San Francisco, Dom John R. Quinn morreu e as batidas de seu bravo e generoso coração, sempre antenado com a misericórdia e a justiça divinas, não mais se ouvem.

O intelecto de Quinn se viu desafiado quando ouviu uma palestra no Vaticano em que o padre jesuíta Michael J. Buckley disse: “O modo como Pastor Aeternus foi distorcida em sua interpretação tem influenciado a eclesiologia por quase 100 anos”. Aquele texto era um de apenas dois adotados pelo Concílio Vaticano I (1869-1870), evento encurtado quando irrompeu a Guerra Franco-Prussiana, tendo sido, de longe, o escrito mais polêmico tanto do Vaticano I como do Vaticano II.

Pastor Aeternus lidou com as questões da primazia papal e da infalibilidade papal, e a investigação de Quinn ajuda a dissipar as distorções eclesiológicas das quais Buckley falava. Ambas as questões foram postas diante do concílio porque as circunstâncias históricas justificavam uma consideração do papel do papa.

Durante os tumultos da Revolução Francesa e da era napoleônica, a liberdade da Igreja ficara compromissada, inclusive a capacidade de os papas se corresponderem com as igrejas locais. O Papa Pio VI havia morrido como prisioneiro de Napoleão e o Papa Pio VII, após tentar conciliação com o imperador arrivista, até mesmo viajando para Paris para presenciar a coroação imperial, não obstante recusou-se a ceder às exigências cada vez mais severas de Napoleão pelo controle da Igreja. Napoleão o aprisionou, mas depois da abdicação do imperador, Pio retornou a Roma como herói por ter se insurgido contra Napoleão.

O ultramontanismo recebeu uma força adicional com a publicação do livro “O Papa”, de Joseph de Maistre, em 1819, apresentando a visão de uma sociedade estável e segura, rigidamente hierárquica, na qual o trono e o altar eram unidos, e o papa encontrava-se no topo. Muitos se sentiram atraídos por esta visão após os anos tumultuosos pelos quais a Europa havia passado.

Como um acréscimo a essa história recente, o papa incumbente na época do Concílio Vaticano I, Pio IX, era uma figura de grande carisma, profundamente apaixonado pelos bispos e pelo povo. O período de meados do século XIX foi uma época de piedade e fervor religioso crescentes, e muitos aqui voltavam-se ao papa em busca de orientação e inspiração.

Havia um grupo de católicos, leigos e clérigos, que defendia uma eclesiologia em que o papa se assemelhava a um monarca absolutista, acima – e não como parte – do corpo dos bispos. Viam a infalibilidade da Igreja como conferível ao próprio papa, e não apenas em circunstâncias extremas e raras, mas praticamente em todos os casos. Sustentavam que a sua infalibilidade era pessoal ao homem, absoluta em seu alcance e separada de quaisquer outras estruturas eclesiais. E queriam deixar claro que a definição de infalibilidade era retroativa e se estendia ao Sílabo dos Erros (Syllabus Errorum) que Pio IX promulgara em 1864.

Ilustração inglesa de 1869 satiriza o debate sobre a infalibilidade papal durante o Concílio Vaticano I. (Foto: Biblioteca Wellcome, Londres)

O Cardeal Henry Manning, de Westminster, e W.G. Ward, da Dublin Review, eram os defensores mais destacados desta “infalibilidade galopante” nos países de língua inglesa. Mas outros católicos, e muitos governos, temiam o efeito de declarar o Sílabo – com a sua condenação das normas democráticas modernas tais como a liberdade religiosa – infalível.

Na época em que o Concílio Vaticano I se reuniu, em dezembro de 1869, a maioria dos bispos apoiaram uma definição de infalibilidade, porém uma minoria significativa percebeu que a definição era ou inoportuna ou estava errada como um todo.

Conforme explica Quinn, a minoria, em grande parte, se reconciliou na época em que os debates tinham terminado. A definição de infalibilidade não deixava dúvidas de que iria se tornar um instrumento arbitrário do poder papal.

Quinn cita um livro publicado por um bispo do século XIX, Dom Joseph Fessler, de Sankt Pölten, na Áustria: o papa possui o dom da infalibilidade “apenas como o supremo mestre das verdades necessárias para a salvação reveladas por Deus, não como o supremo sacerdote, não como o supremo legislador em matérias de disciplina, não como o supremo juiz em questões eclesiásticas, não em respeito de quaisquer outras questões sobre as quais o seu altíssimo poder governante na Igreja pode, de outra forma, se estender”.

A infalibilidade papal é nada mais nada menos do que um modo de a infalibilidade da Igreja se expressar em tempos de necessidade, e em circunstâncias muito raras, e exclusivamente quando uma questão de fé ou moral estiver em causa. O próprio Pio IX leu e elogiou publicamente o livro de Fessler, portanto não há dúvidas de que a sua interpretação do decreto era exata.

A minoria presente no Vaticano I conseguiu modificar a redação do decreto e encurtar o escopo da infalibilidade, porém os seus membros não venceram realmente a batalha na imprensa. Manning e Ward agiram como se a infalibilidade papal definida pelo concílio fosse aquela com que haviam começado, um poder de longo alcance, praticamente ilimitado, poder que certamente se estendia ao Sílabo. Até a eleição do presidente americano John F. Kennedy em 1960, o imaginário popular enxergava a infalibilidade papal de um modo mais amplo, e mais perigoso, do que realmente é.

O capítulo da definição da primazia papal prepara e cultiva o solo histórico e doutrinal que é muito menos familiar do que a discussão da infalibilidade. De novo, Quinn demonstra que o concílio não ab-rogou a constituição da Igreja: o papa não está à parte do colégio episcopal, mas é o seu chefe, a sua autoridade, embora ordinário e não sujeito à apelação à maneira como os conciliaristas haviam defendido séculos anteriores; o concílio não transformou os bispos em “gestores das filiais” do Vaticano ao redor do muno. Eram e são os sucessores dos apóstolos, encarregados do comando da Igreja local e, como grupo e com o papa, do comando da Igreja universal. As idas e vindas deste debate foram uma novidade para mim, e uma novidade muito interessante.

Quinn inclui um capítulo sobre John Henry Newman e o Vaticano I onde a sua inclinação pelo primeiro é evidente e justificada. Estes temas clamavam por mentes cuidadosas, corações judiciosos e almas penas de fé, e Newman possuía todos os três.

É fácil ver as consequências da admiração profunda de Quinn por Newman: eles são extremamente parecidos. Em seus escritos, ambos demonstraram a importância do estudo cuidadoso para a vida da Igreja. Ambos foram considerados ultrapassados pela cultura eclesial, mas viveram o suficiente para ver suas ideias e influência serem apreciadas novamente. Ambos foram, o primeiro e o último, religiosos que demonstraram, com suas vidas, um zelo completamente livre de fanatismo e de excesso. Em vez disso, possuíram uma apreciação realista da natureza humana, aquecida por um amor pastoral.

Este livro de Quinn não é extenso, mas é importante. A complexidade dos argumentos está imbuída de marcas que trazem os princípios à vida, e a conclusão é essencial: o princípio de sinodalidade sobreviveu ao Vaticano I e uma apreciação renovada da complementaridade dos dois concílios vaticanos é fundamental para uma eclesiologia sadia seguir em frente. Que presente grandioso, e final, para a Igreja que ele amou, presente de um homem que serviu sua vida inteira a esta Igreja.

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