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27 Outubro 2017

O autor detalha o intenso desenvolvimento do movimento psicanalítico na Rússia antes e depois da Revolução. E propõe o desafio atual de desenvolver um pensamento de esquerda que permita o surgimento de um projeto de emancipação social e política.

O artigo é de Enrique Carpintero, psicanalista, extraído do livro El psicoanálisis en la revolución de octubre (ainda sem tradução para português, NdT), que foi publicado recentemente: Enrique Carpintero (compilador), Eduardo Grüner, Alejandro Vainer, Hernán Scorofitz, Juan Carlos Volnovich, Juan Duarte, Lev Vygotski e Alexander Luria (Ed. Topía), publicado por Página|12, 26-10-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis o artigo.

Em outubro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder em um país devastado. Enquanto a Rússia participava da Primeira Guerra Mundial, começa a progredir uma guerra civil desencadeada por partidários da monarquia czarista e outros opositores do partido bolchevique. A esta situação, devemos acrescentar o boicote das grandes potências e uma tremenda crise econômica e social. Isto levou ao abandono dos animais do zoológico de Moscou para que houvesse comida para a população da cidade poder se alimentar; para fazer seus famosos experimentos com cães, Pavlov teve de pedir uma autorização especial, assinada pelo próprio Lenin. Esta anedota reflete como, apesar da profunda privação que caracterizava os primeiros anos da revolução, os avanços científicos e intelectuais dessa época continuaram a acontecer e, ainda mais, se multiplicaram. É que a revolução havia aberto o caminho da criatividade em todos os âmbitos ao romper com a rígida censura religiosa, especialmente nas manifestações artísticas e científicas.

Neste contexto, a psicanálise na Rússia foi consolidando-se a partir de novas experiências, ainda que tenha se visto presa entre duas perspectivas que se opunham radicalmente. Por um lado, a partir da Psicanalítica Internacional, que rejeitou as novas associações russas, as quais nunca chegaram a ter um pleno reconhecimento dos psicanalistas vienenses, que na sua maioria eram conservadores antimarxistas que se opunham à Revolução Russa. Por outro lado, no partido bolchevique, embora houvesse líderes que apoiassem a psicanálise, outros, a partir de uma concepção economicista e mecanicista do marxismo, consideravam-na uma prática "burguesa e capitalista", a qual precisavam se opor. No entanto, a psicanálise não foi simplesmente tolerada, uma vez que tenha tentado encontrar o seu próprio espaço na luta, durante os primeiros anos da revolução, para fundar as bases de uma nova organização da sociedade; havia a ilusão de poder encontrar "uma ciência psicológica" que, junto com o marxismo, pudesse ser responsável por "uma nova cultura socialista", ainda que ser psicanalista e de esquerda tenham sido duas perspectivas que na Rússia seriam cada vez mais difíceis de conciliar.

Para dar conta das mudanças que se estava tentando realizar naquela época, com o intuito de romper o modelo de família patriarcal, seria necessário mencionar a posição que Alexandra Kollontai ocupava. Ela nasceu em São Petersburgo, em 1872, em uma família liberal. Quando jovem, abraçou as ideias revolucionárias, transformando-se, logo após a revolução, na primeira mulher que participou de um governo e a primeira a exercer a função de representante em um governo estrangeiro. Nos anos 1920 pertencia à chamada oposição operária do partido socialista, na qual questionava o seu excessivo centralismo. Sua principal contribuição foi colaborar para a história da emancipação feminina e a liberdade sexual. Na linha de Marx e Engels, no livro A Origem da Família, a propriedade privada e o estado, Kollontai afirmava que, na sociedade socialista, a igualdade e o reconhecimento mútuo dos direitos deviam ser estabelecidos com os princípios das relações entre homens e mulheres. Com o novo governo revolucionário, foi eleita Comissária Popular da Assistência Pública de onde lutou para alcançar a igualdade política, econômica e sexual de homens e mulheres. É que a partir da revolução, as mulheres conseguiram plenos direitos ao voto, as leis civis fizeram do matrimônio uma relação voluntária, as diferenças entre filhos legítimos e ilegítimos foram eliminadas, os direitos trabalhistas das mulheres foram igualados aos dos homens e os mesmos salários foram dados às mulheres, além de um salário-maternidade universal. Assim, a Rússia Soviética foi o primeiro país no mundo onde se estabeleceu a liberdade total de divórcio e onde o aborto era livre e gratuito.

Agora, uma vez estabelecida a situação legal, era preciso alcançar uma igualdade real e objetiva. Por esse motivo, foram organizadas diversas mobilizações políticas entre as mulheres e, em 1918, foi realizado o primeiro Congresso de Mulheres Trabalhadoras de toda a Rússia. Kollontai acreditava que na nova sociedade a igualdade entre ambos os sexos não só seria conseguida através da transformação das bases econômicas que produzem as desigualdades, mas também com uma mudança nas relações sexuais entre as pessoas. Contudo, as ideias de Kollontai não foram totalmente aceitas pelos líderes do partido; finalmente, com o Stalinismo, ela se voltou para o papel tradicional da mulher e a uma exaltação da família. Kollontai foi acusada de sectarismo por Stalin e afastada do país em missões diplomáticas à Noruega, México e Suécia.

Embora a concepção de sexualidade, mantida por Kollontai, fosse alheia a muitos sentidos defendidos por Freud, os psicanalistas russos contribuíram para o desenvolvimento dessas ideias, o que implicava em romper com os preconceitos profundamente enraizados na sociedade. Além disso, as duras condições que as realidades sociais e econômicas impunham à sociedade provavelmente seguiriam. Enquanto isso, eles continuavam com a difusão da psicanálise. Ivan D. Ermarkov ministrava conferências no Instituto Psico-neurológico de Moscou e tratava de organizar um centro para crianças menores de quatro anos com distúrbios, que incluía como programa de formação uma avaliação para os psicólogos que cuidavam das crianças. Esta problemática era uma necessidade social, devido à grande quantidade de crianças abandonadas, consequência da morte de seus pais na Grande Guerra ou na Guerra Civil que estava acontecendo. Moshe Wulff era professor na Universidade de Moscou. Ambos criam em 1921 a Associação Psicanalítica de Pesquisadores da Criação Artística, que no início tinha oito membros fundadores. No ano seguinte é fundada a Sociedade Psicanalítica de Moscou, que foi organizada em três seções: a primeira, dedicada aos problemas psicológicos da criatividade e a literatura conduzida por Ermarkov; a segunda, levada adiante por Wulff, que trabalhava em análises clínicas; e a terceira, ocupava-se da aplicação da psicanálise ao sistema educativo dirigido pelo matemático e psicanalista Otto Schmidt, esposo de Vera Schmidt.

Nesse mesmo ano, em Cazã, uma segunda Sociedade Psicanalítica é fundada sob a direção de Alexander Romanovich Luria. Neste grupo, a maioria de seus fundadores eram médicos, entre os quais se encontravam Fridman e Averbuj, que em 1923 traduziriam para o russo o livro Psicologia das Massas e Análise do Eu, de Freud. Na Sociedade Psicanalítica de Moscou forma-se o primeiro Instituto de Psicanálise do país, que foi o terceiro no mundo, junto ao de Viena e Berlim. A sua originalidade estava no fato de ser a única instituição mundial sustentada financeiramente pelo Estado, já que se considerava que a psicanálise poderia desempenhar um papel importante na construção do socialismo. O fato de formar-se como Instituto implicava que podia formar analistas e, portanto, deveria ter a aprovação da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Com a exceção de Freud, quase todos os membros da IPA se opunham à isso devido à pouca quantidade de médicos que faziam parte do Instituto Russo e sua oposição aos marxistas do Estado soviético. Para Ernest Jones, que liderava a oposição, a ideia de que um matemático como Otto Schmidt fosse vice-presidente resultava-lhe inexplicável. Finalmente, sob a influência de Freud, foi formada a Sociedade Psicanalítica Pan-Russa que incluía os psicanalistas de Petrogrado (atual São Petersburgo), Cazã, Odessa, Kiev e Rostov. Ermarkov, O. Schmidt e Luria ficaram como coordenadores. A formação teórica e técnica estava nas mãos de Ermarkov, Wulff dava seminários de medicina e psicanálise, e Sabina Spielrein, que havia recém chegado de Viena, dedicava-se à psicanálise infantil. No entanto, o "problema russo" - como Jones chamava - continuava. Em 1924, durante o Congresso de Psicanálise de Salzburgo foi feita uma declaração onde o novo grupo era saudado, mas o Instituto Russo ficou isolado da IPA, apesar de ser um dos maiores grupos que participaram do congresso.

O fim da psicanálise na Rússia

As polêmicas ficavam cada vez mais duras e políticas; especialmente após a morte de Lenin em janeiro de 1924, quando a psicanálise ainda era associada com a oposição de esquerda a Stalin. Vários líderes da revolução como Lunacharsky, Radek, Bukharin, Ioff e principalmente Trótski, defendiam a prática da psicanálise. Lenin nunca definiu sua posição sobre o assunto; embora conhecesse muito bem o debate através de sua esposa, ele nunca se opôs à psicanálise. Ainda que ele tivesse uma posição em relação à sexualidade que poderia ser chamada de conservadora, como Klara Zetkin[1] evoca em uma memória, ele defendeu a experiência do "Lar das Crianças" que Vera Schmidt dirigia. Neste sentido, o historiador Alexander Etkind argumenta que o apogeu da força da psicanálise aconteceu em um momento - no começo da década de 1920 - em que Trótski exercia grande influência, e seu declínio coincide com a sua queda política. Por isso, ele afirma que apesar do apoio de Krupskaja, a esposa de Lenin, de Radek e até mesmo o apoio de Stalin para o "Lar das Crianças", onde seu filho estava, o vínculo de Trótski foi politicamente a sua principal força e, em última instância, o inconveniente[2]. Acreditamos - como sustemos ao longo deste artigo - que, embora Trótski tenha sido um fator importante, aconteceram diversos fatores complexos que ocasionaram tanto o seu auge quando a sua queda.

Logo após a morte de Lenin e da expulsão de Trótski, começa uma "caça às bruxas", realizada por Stalin, contra toda a oposição feita às suas ideias, baseadas no "socialismo em um só país". A liberdade de associação é proibida, de maneira que - para nos limitarmos ao campo da psicologia - todas as correntes psicológicas foram perseguidas exceto a "oficial", que era baseada em uma adaptação mecanicista da psicologia pavloviana. Anula-se a legislação sobre aborto e divórcio em prol do fortalecimento da família tradicional. A homossexualidade passa a ser considerada uma "sexualidade pervertida e degradada"; isso leva Máximo Gorki - claro expoente do realismo socialista - a afirmar que "na terra onde o proletariado governa com coragem e com sucesso, a homossexualidade, com seus efeitos corruptos sobre os jovens, é considerada um crime social punível pela lei"[3]. Neste âmbito se desenvolve em 1930 o Congresso sobre o Comportamento Humano, onde foram feitas críticas contundentes às diferentes correntes psicológicas que foram classificadas como "burguesas desviacionistas" e "capitalistas idealistas". Lá, Zalkind critica as bases da psicanálise e sustenta o que tinha escrito no ano anterior em seus "Doze Mandamentos" para os relacionamentos amorosos onde - entre outras questões - afirmava: "A relação sexual não deve ser repetida frequentemente. Não se deve mudar seguido de parceiro. O amor deve ser monogâmico. No ato sexual, sempre se deve considerar a possibilidade de conceber filhos. A opção sexual deve ser exercida segundo critérios de classe; deve estar em conformidade com os objetivos das revolucionárias e proletárias. A classe tem o direito de intervir na vida sexual dos seus membros"[4]. Todo um tratado reacionário e totalitário sobre a sexualidade.

É evidente que neste clima social e político era impossível que qualquer prática pudesse ser desenvolvida com uma garantia mínima de liberdade, muito menos a da psicanálise; para o stalinismo o objetivo do pensamento marxista não era a crítica, mas a fé: era preciso ter fé em um partido que respondesse a partir da submissão, caso contrário, ele era declarado inimigo da revolução. Mas devemos reconhecer que, na medida em que o totalitarismo stalinista se consolidava, se impunha o dogmatismo da Segunda Sociedade Internacional que se situava na tradição anti-psicológica presente desde o início da revolução. Como viemos apontando, o marxismo havia se fechado em uma concepção economista e mecanicista da história onde se estabelecia uma relação direta entre a situação social, os interesses coletivos e a consciência política. Dito de outra maneira: se as relações de produção mudassem, as relações do sujeito consigo mesmo e com os outros também se modificavam. Assim, com uma interpretação voluntarista, os determinantes subjetivos do sujeito eram deixados de lado para aderir a um projeto de transformação social. Por isto as evoluções para encontrar uma relação entre psicanálise e marxismo foram baseadas em paradigmas positivistas que se transformavam em reducionismos econômicos ou biológicos; como a pretendida psicologia soviética de orientação pavloviana ou de enfoque histórico-social.

Na atualidade os paradigmas com os quais foi pensada a relação entre psicanálise e marxismo foram mudados. Além disso, essa confluência ficou para a história. Por isso que acreditamos ser necessário resgatar a noção de limite. Mas entender o limite como positividade - no sentido espinosiano do termo -, ou seja, como potência. Acreditamos que o limite epistemológico que há entre psicanálise e marxismo permite um ambiente fértil para pensar em um projeto emancipatório.

O sujeito do inconsciente não se corresponde com o sujeito da história. Freud parte do sujeito e, embora reconheça a influência do social, o seu questionamento se dirige a como o social se inscreve na subjetividade, a partir de sua história pessoal.

Em Marx, no entanto, o sujeito é social e o emaranhado social e histórico é o que explica a subjetividade. Desta maneira a ontogênese marxista (isto é, os processos que os seres vivos sofrem desde a sua fecundação até a velhice) não é assimilável ao sujeito ôntico da psicanálise (ou seja, ao ser). Daí a impossibilidade epistemológica de harmonizar esses dois sistemas conceituais que se transformam em práticas diferentes. Estamos na presença de duas ordens na constituição do sujeito, diferentes mas complementares. Não a partir de uma conjunção hipotética, mas a partir de seus limites e alcances compreensivos[5].

Nesta perspectiva, podemos dizer que, se para Marx a história se constitui a partir da história da luta de classes, esta adquire em cada processo histórico no interior da cultura uma complexidade que devemos dar conta. É uma ilusão acreditar que modificar as relações de produção pressupõe automaticamente em uma mudança nas relações dos sujeitos, como classicamente se pensou o marxismo. Embora este seja um passo necessário, não é suficiente, como demonstrado pelas experiências sociais totalitárias stalinistas. Nelas o pensamento utópico escondia o sonho reacionário do fechamento completo do social e a crença em uma sociedade ideal baseada na imposição de uma cultura organizada a partir do Estado. Esta era a advertência de Freud quando dizia: "Minha opinião é que, enquanto a virtude não for recompensada ainda sobre a Terra, a ética será pregada em vão. Parece-me também inquestionável que uma verdadeira mudança nas relações dos seres humanos com a propriedade, trará mais amparo do que qualquer mandamento ético; no entanto, nos socialistas, esta intelecção é obscurecida por um novo equívoco idealista sobre a natureza humana e, assim, perde valor de aplicação"[6].

Elucidar estes problemas continua a ser um desafio para o desenvolvimento de um pensamento de esquerda que permita um novo modo de apropriação da realidade que possibilite o surgimento de um projeto de emancipação social e político.

Notas:

1. Miller, Martín A., Op. cit.

2. Etkind, Alexander, Eros de los imposibles. La historia del psicoanálisis en Rusia, editorial Baulder Cobo, Madri, 1997.

3. Miller, Martín A., Op. cit.

4. Chemouni, Jacquy, Trotsky y el psicoanálisis, ediciones Nueva Visión, Buenos Aires 2007.

5. Para um desenvolvimento desta perspectiva, ver Carpintero, Enrique e Vainer, Alejandro, "Psicoanálisis y Marxismo: historia y propuestas para el siglo XXI”. In: Pavón-Cuéllar, David (coord.), Capitalismo y psicología crítica en Latinoamérica: del sometimiento neocolonial a la emancipación de subjetividades emergentes, editorial Kanakil, México, 2017.

6. Freud, S. (1927), O Futuro de uma Ilusão, L&PM, Porto Alegre, 2010.

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