Psicanálise, religião e ciência: desafios da sociedade contemporânea. Entrevista especial com Benilton Bezerra Júnior

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10 Outubro 2009

Um dia depois de proferir a conferência “Narrativas de Deus, e a transcendência hoje: uma abordagem a partir da psicanálise”, no último dia 15 de setembro, na Unisinos, durante o X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades, o professor da UERJ, Benilton Bezerra Junior conversou por telefone com a IHU On-Line sobre o tema de sua fala e sobre os desafios da sociedade atual impostos à psicanálise. Na visão de Benilton, “a psicanálise hoje tem um grande desafio que é o de estabelecer um patamar de diálogo, de confronto e de estímulo recíproco com as neurociências e as práticas baseadas no cognitivismo, que são as duas forças emergentes no campo da atenção ao sofrimento”. Sobre a relação entre religião/fé e psicanálise/ciência, o professor esclarece que “não há uma espécie de competição por uma hegemonia ou por uma hierarquia entre discursos sobre a fé e discursos sobre as ciências. São maneiras diferentes de abordar a vida e o mundo. Sobretudo em uma coisa: a ciência, por mais que descreva em minúcias a realidade, não oferece nenhum tipo de prescrição sobre como viver a vida. E outros discursos, como o religioso, ou discurso da ética, ou o discurso estético são discursos que proveem esse tipo de coisa, que é absolutamente fundamental para que a vida individual e coletiva exista”

Benilton Bezerra Junior é graduado em Direito e em Medicina, mestre em Medicina Social e doutor em Saúde Coletiva, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, é membro do Instituto Franco Basaglia e atua como docente adjunto do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, e pesquisador do PEPAS (Programa de Estudos e Pesquisas sobre Ação e Sujeito) da UERJ. Ele é autor do artigo "Retraimento da autonomia e patologia da ação: a distimia como sintoma social", publicado no livro Inácio Neutzling (org.), O Futuro da Autonomia: Uma Sociedade de Indivíduos?, São Leopoldo - Rio de Janeiro: Editora Unisinos - Editora PUC-Rio, 2009.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como os psicanalistas em geral veem a religião? Como eles analisam o confronto entre religião e psicanálise?

Benilton Bezerra Júnior – Quando deixamos de lado os psicanalistas teóricos e passamos para os praticantes, os que vivem em contextos sociais específicos, é preciso levar em conta a influência que o quadro cultural aonde eles vivem exerce sobre eles. Então, psicanalistas que vivem num mundo anglo-saxão, por exemplo, onde a presença do cristianismo protestante é bastante presente, ao contrário de outros lugares onde a psicanálise é importante, mas não tem essa influência tão forte na cultura, assim como na França, na Argentina, no Brasil, exercem uma relação de tolerância, de aproximação, de ausência de necessidade de demarcação muito grande entre os campos da psicanálise e da religião. Podemos ver mais facilmente psicanalistas que têm práticas religiosas. Num contexto onde isso é um pouco diferente, como a França, por exemplo, a tendência é que se encontre uma resistência maior à temática da aproximação entre um campo e outro. No caso do Brasil se tem um contexto sincrético muito particular e uma facilidade muito grande de transpor fronteiras simbólicas em todos os campos. No campo religioso isso é muito claro. Para a maioria dos católicos a questão em si é menos relevante do que é em outros contextos. Da mesma forma que os católicos podem frequentar um centro de umbanda, os psicanalistas podem batizar seus filhos e colocá-los em escolas católicas. No caso do Brasil a religião que mais é levada em conta neste tipo de discussão é o catolicismo. Sinteticamente, o que acontece é isso, quando se fala das pessoas, dos homens e mulheres psicanalistas, estamos falando de seres históricos marcados pela cultura em que vivem, pelo tipo de relação que aquela cultura estabelece com as religiões, a necessidade de naquela cultura haver uma demarcação muito grande entre religião e ciência, ou a frouxidão com que isso é colocado. Se interpelamos o indivíduo como um psicanalista, ele volta a ser um profissional que vai se ancorar em uma teoria que o define como tal. Para milhões de brasileiros, a adesão a um grupo religioso é uma das poucas formas de construção de laços de pertencimento, de afirmação de uma identidade que é reconhecida por muitos como válida, de inserção social e reconhecimento de várias pessoas. Sem isso, não conseguimos compreender vários desses fenômenos religiosos de massa no campo brasileiro.

IHU On-Line - Qual a importância do valor afetivo da prática religiosa para o sujeito e como isso se relaciona com a psicanálise?

Benilton Bezerra Júnior – Essa questão do valor afetivo da prática religiosa vem de Freud. Apesar de ser bastante crítico às religiões de forma geral, e de ser pessoalmente um ateu, um judeu sem deus nenhum, Freud via a inevitável necessidade de todo o sujeito construir a sua experiência com base em afetos que sustentem a sua experiência de maneira positiva. Se houve uma coisa que Freud ajudou a desmontar foi a ideia que se constituiu muito fortemente no século XVIII, de que o sujeito é um ser de razão, ou o sujeito da razão universal é o que definiria o ser humano. E Freud foi um dos que disse “não é bem assim”. Ele dizia que o homem é um ser de razão, sim, mas é também um ser de afeto, de paixão. Nesse sentido, qualquer questão de abordagem do sofrimento não podia ser contemplada sem se perceber que elementos o indivíduo traz para poder, de alguma maneira, configurar, estabilizar, transformar, ampliar a sua experiência afetiva do mundo, da vida. Nesse sentido, muitos elementos que ele não considerava com simpatia, para muitas pessoas eram absolutamente essenciais.

IHU On-Line - Como o confronto religião x psicanálise se relaciona com o confronto evolução das espécies (Darwin) x fé?

Benilton Bezerra Júnior – O campo da fé e o campo da ciência, o campo do mistério e o campo das coisas que são objetiváveis para fins de produção de conhecimento, e conhecimento produzido para que possamos viver uma vida melhor, são campos distintos. Isso faz com que as tentativas, por exemplo, dos cientistas ateus militantes, que tentam desmontar o valor da religião (ou tentam provar a inexistência de Deus, ou apontar para a falta de evidências conclusivas da perspectiva da ciência da existência de Deus ou provar que a fé ou a experiência do sagrado nada mais é do que, como Freud dizia, respostas neuróticas ao sofrimento do desamparo à morte) são equivocadas. Assim como seria equivocado um teólogo tentar explicar com argumentos teológicos a razão de ser da psicanálise e as motivações dos psicanalistas. Não há uma espécie de competição por uma hegemonia ou por uma hierarquia entre discursos sobre a fé e discursos sobre as ciências. São maneiras diferentes de abordar a vida e o mundo. Sobretudo em uma coisa: a ciência, por mais que descreva em minúcias a realidade, não oferece nenhum tipo de prescrição sobre como viver a vida. E outros discursos, como o religioso, ou discurso da ética, ou o discurso estético são discursos que proveem esse tipo de coisa, que é absolutamente fundamental para que a vida individual e coletiva exista.

IHU On-Line - Como a psicanálise caracteriza o sujeito religioso contemporâneo?

Benilton Bezerra Júnior – Essa é uma pergunta um pouco difícil de responder, porque ela supõe que exista “o” sujeito religioso contemporâneo. E essa é uma abstração. Existem muitas maneiras dos sujeitos contemporâneos se vincularem à religião. Algumas são bastante prevalentes no mundo atual. Então, temos os sujeitos que se filiam a alguma religião de maneira ainda pré-moderna, se pensarmos nesses nichos de religiões totalizantes, onde o todo da vida do sujeito é governado pela lei sagrada. Além de existir ainda esse tipo de ligação, temos aqueles indivíduos cuja relação com a religião é caracterizado por aquilo que se constituiu nos últimos 200 anos: são sujeitos que vivem a sua prática religiosa como uma matéria de ordem privada, não têm ambições de fazer da religião uma espécie de ordenamento da vida pública, porque ela é, por definição, laica. Então, a separação entre Estado e Igreja é adotada sem nenhum problema, o que faz com que haja comunidades religiosas que convivam democraticamente numa sociedade onde a governança geral põe em segundo plano as adesões religiosas e as convicções, crenças. Esse é um modelo esquematicamente criado pela modernidade. E há toda uma outra religiosidade ou práticas que se reivindicam espirituais que, na verdade, são mais características desse movimento chamado de pós-modernidade. Um psicanalista como eu lida com as pessoas, que individualmente contam como foi sua experiência. E tem de tudo. Tem tanto aqueles que vivem a religião da forma como Freud descrevia, apenas como consolo e desvio da vida para poder suportar o que se vive aqui com vistas a um outro tipo de consolo final mais adiante, ou aqueles que aderem às práticas religiosas como quem adere à bolsa de valores, ou seja, investem para poder depois receber de volta. E tem aquelas pessoas que são sinceramente tocadas pela experiência do mistério, pela experiência da transformação que ultrapassa em muito a individualidade. Além disso, ainda temos aquelas outras práticas de origem mais gnóstica ou vinculada às religiões ou práticas espirituais orientais.

IHU On-Line - Quais são os temas que mais desafiam a psicanálise na sociedade brasileira contemporânea? A violência pode ser apontada como um deles?

Benilton Bezerra Júnior – De uma maneira geral, no mundo inteiro, a psicanálise hoje tem um grande desafio que é o de estabelecer um patamar de diálogo, de confronto e de estímulo recíproco com as neurociências e as práticas baseadas no cognitivismo, que são as duas forças emergentes no campo da atenção ao sofrimento. De um jeito ou de outro, as descrições biológicas cerebrais dos estados mentais, e o desenvolvimento de descrições de técnicas de intervenção baseadas no cognitivismo, nos últimos 30 anos, cresceram muito na produção de conhecimento, e na crítica muito ácida, muito feroz à teoria e à prática psicanalítica. Mas além desse confronto e da tentativa de reduzir a importância da psicanálise, há efeitos inesperados. Por exemplo, para muitos neurocientistas Freud se tornou um autor importante, ineliminável das discussões para as pesquisas cerebrais. Além disso, temos os desafios vinculados à crítica social a partir de uma perspectiva psicanalítica, ou seja, de compreender as determinações que configuram os processos de subjetivação na sociedade atual que é, em muitos aspectos, muito diferente da que era quando Freud criou a psicanálise, da que era no pós-guerra, quando Winnicott escreveu o que escreveu, diferente, inclusive, de quando Lacan produziu a sua obra. A história não para. E no século XXI vivemos em uma sociedade que já é diferente, que aponta para diferenças enormes, com a produção de biotecnologias que deslocam as fronteiras do possível para muito mais longe do que eram há algum tempo. Quais são as consequências disso na produção dos modos de construir identidade do sujeito, dos modos de sofrimento, na maneira como os indivíduos se relacionam uns com os outros, na maneira como se relacionam, ou não, com ideais simbólicos, como aderem a ideais imaginários? Toda essa economia psíquica, assim como a economia financeira, mudou muito. E este é um campo de desafio para os psicanalistas, que precisam oferecer descrições desse quadro e oferecer maneiras de lidar com ele que sejam capazes de sustentá-lo como uma teoria e uma prática relevantes para os dias atuais.

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