Cardeal Sarah diz que o Vaticano ainda se impõe nas traduções na liturgia

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17 Outubro 2017

Embora um novo documento emitido pelo Papa Francisco afirme que as conferências episcopais têm, agora, o controle sobre o processo tradutório dos textos litúrgicos, o Cardeal Robert Sarah diz que a aprovação vaticana “de forma alguma é mera formalidade”. O prefeito da Congregação para o Culto Divino acrescentou que as traduções de certas palavras e frases podem ainda ser “impostas” para garantir a conformidade com o original em latim antes que uma tradução litúrgica seja usada.

A reportagem é de Charles Collins, publicada por Crux, 14-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Não devemos esperar que as traduções litúrgicas recebam um carimbo de aprovação por parte do Vaticano, apesar da nova legislação católica que dá às conferências episcopais uma maior autoridade no processo tradutório, segundo o prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Em artigo publicado na revista católica de língua francesa L’Homme Nouveau, o cardeal guineense Robert Sarah diz que uma nova legislação referente à tradução dos textos litúrgicos do Papa Francisco, emitida em 9 de setembro deste ano, “de forma alguma” torna a aprovação vaticana deles uma “mera formalidade”.

O motu proprioMagnum Principium” (O importante princípio) confere às conferências episcopais locais um controle consideravelmente maior sobre o processo tradutório de textos para o uso nos cultos católicos.

Anteriormente, o Vaticano por vezes propunha uma lista de emendas às traduções litúrgicas e, até mesmo, criou comissões que essencialmente tomavam o controle sobre o processo de tradução para determinadas línguas.

O Magnum Principium altera o cânon 838 do Código de Direito Canônico de forma que a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos não tenha mais a função que tinha no citado processo, podendo, porém, ainda aprovar ou rejeitar uma tradução proposta.

Ainda que muitos analistas digam que, agora, os bispos têm mais liberdade para se afastarem do texto latino original sem a interferência do Vaticano, Sarah afirma, com este seu artigo, que as “não são bem assim”.

O cardeal ressalta que a nova regra não substitui uma instrução vaticana de 2001 chamada Liturgiam Authenticam, publicada sob os auspícios de São João Paulo II, documento que pede uma tradução mais fiel ao texto latino original do Rito Romano.

“Não há, portanto, mudança notável alguma concernente aos padrões impostos, e o resultado que deve se seguir deles para cada livro litúrgico”, escreve ele.

Sarah disse ainda que o Vaticano pode somente dar a sua aprovação (“confirmação” no texto latino) depois de ter “devidamente examinado” a fidelidade da tradução.

Falou que esta aprovação “de forma alguma é mera formalidade, isto é, uma espécie de aprovação que seria concedida após uma rápida revisão do trabalho”, e que a nova legislação também pressupõe uma “revisão detalhada” por parte do Vaticano. O cardeal acrescentou também que a decisão do Vaticano é vinculante, e que os textos litúrgicos não podem ser publicados sem esta aprovação.

Muito embora o Vaticano “não interviria ordinariamente” no trabalho de uma conferência dos bispos antes que ela submeta a tradução para aprovação, Sarah disse que pode ainda ser “desejável” a estas conferências e à Congregação para o Culto Divino haver “trocas preliminares” e uma “consulta mútua”.

O cardeal também afirmou que, embora o Vaticano não se envolva no processo tradutório inicial, e que tenha sido abolido o método antigo da Congregação de enviar de volta uma série de emendas, as traduções de palavras ou frases em particular poderão ainda ser “impostas” pelo Vaticano como uma condição para a aprovação.

Ele deu o exemplo da tradução inglesa para “consubstantialem Patri”, no Credo de Niceia, declarando que o Vaticano “pode impor – e até mesmo deve impor –” que a frase seja vertida por “consubstantial with the Father” [consubstancial com o Pai] em detrimento de “one in Being with the Father” [um em Ser com o Pai].

Este exemplo toca no debate sobre a nova tradução inglesa do Missal lançada em 2010, onde se fez esta mudança com relação à tradução original.

Muitos padres e fiéis têm se queixado de que a nova tradução é mais difícil para quem preside a celebração bem como para a congregação, sacrificando a compreensão em nome de uma adesão rígida ao texto latino.

O debate sobre a proximidade com que as traduções devem ter na comparação com os textos latinos vem sendo um tema candente desde que o Missal foi primeiramente traduzido para as línguas vernáculas após o Vaticano II, e as chamadas “guerras litúrgicas” consumiram grande parte da energia da Igreja desde os anos 70 até o início dos anos 2000.

Católicos conservadores em muitos países se queixaram das traduções preparadas no rescaldo imediato do Concílio, geralmente com desvios para com os originais latinos e com algumas partes sendo efetivamente paráfrases na melhor das hipóteses, enquanto que muitos católicos progressistas diziam que uma tradução mais dinâmica era preciso para tornar a missa mais acessível.

Em 2002, o Vaticano criou a comissão Vox Clara para auxiliar as traduções inglesas da liturgia, e esta comissão foi fundamental na formulação da tradução de 2010 do Missal.

As diferenças mais notáveis foram a mudança da resposta “And also with you” [e também convosco] para “And with your spirit” (E também com vosso espírito; et cum spiritu tuo, em latim), a mudança de “for all” (por todos) para “for many” (por muitos; pro multis, em latim) na oração eucarística, e a reintrodução de “through my fault, through my fault, through my most grievous fault” (por minha culpa, por minha culpa, por minha mais grave culpa,), onde a antiga tradução de “mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa” foi simplicada para “through my own fault” (por minha própria culpa).

Talvez o Magnum Principium venha a significar que a Vox Clara e outras comissões parecidas não sejam mais necessárias, embora uma comissão mista chamada “International Commission on English in the Liturgy” poderá vir a ter um papel mais importante, já que é composta por representantes eleitos das conferências episcopais dos países de língua inglesa.

Em outros países, a batalha em torno das traduções tem sido mais acalorada ainda.

Os bispos alemães se recusaram a trabalhar com uma comissão equivalente à Vox Clara, porém de língua alemã, chamada Ecclesia Celebrans – e ainda estão usando o missal publicado em 1976. Uma nova tradução foi feita e enviada aos países de língua germânica em 2013, porém os bispos alemães e austríacos se negaram a aprová-la e implementá-la.

O Cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e presidente da Conferência dos Bispos Alemães, alega que Francisco apoia a postura adotada dos prelados de seu país, acrescentando que o Liturgiam Authenticam é um “beco sem saída”, apesar do fato de ainda estar em vigor.

“Em sua própria área linguística, os bispos têm a responsabilidade final pela liturgia”, contou ele a uma rádio católica de Munique, de acordo com o jornal católico francês La Croix.

Marx, que também atua no Conselho dos Cardeal que assessora o Papa Francisco, disse que “Roma é o responsável em matérias de dogma, mas não em matérias de estilo”.

Os que esperam um confronto entre Marx e Sarah ainda terão de aguardar: o cardeal alemão disse que “não havia pressa” para uma nova tradução alemã, afirmando que a versão da década de 1970 “não é tão ruim”.

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