O espaço aberto por Magnum Principium e os 'espartilhos' da liturgia. Artigo de Andrea Grillo

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18 Setembro 2017

Magnum Principium não é suficiente. Ou, melhor, Magnum Principium é tudo o que pode ser pedido ao papa. Agora, a Congregação para o Culto Divino deve escrever uma nova instrução, para predispor e articular todo esse campo de justa atenção às razões da diferença local, para que a unidade seja rica e não uniforme.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Sant’Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua. O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 15-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A carta motu proprio Magnum Principium reabriu um grande espaço eclesial de recepção da Reforma Litúrgica. Tal espaço, no entanto, aparece em Magnum Principium como uma “foto em negativo”. Ou seja, descerra competências que devem ganhar carne e sangue. E devem fazer isso localmente.

Eis que, para entender bem essa passagem histórica, volta a ser bastante útil a reflexão mais geral proposta por Marcello Neri, no sítio Settimana News, intitulada “O fôlego curto das Igrejas locais”, do qual trago esta bela imagem.

Dita em uma frase: a retórica tenta imitar a inspiração arejada de Francisco; a prática desembarca em um imaginário eclesial muito distante dela. Ou seja, o desejo sincero é o de retraduzir in loco a realidade da Igreja que ele quer inculcar nos nossos corações, mas, no fim, apertamos tudo em um espartilho que não tem nada a ver com ela. E, atente-se bem, quem faz isso somos nós, que estimamos Francisco com convicção; imagine aqueles que se opõem de todos os modos ao seu caminho.

Essa observação, evidentemente, vale para todo o conjunto das formas pastorais de uma diocese ou de uma Igreja nacional. Mas também se aplica, de modo surpreendentemente eficaz, à recente história da “recepção da Reforma Litúrgica”. Que, a partir de Liturgiam Authenticam, recebeu, a partir do centro, uma mensagem forte demais e pouco clara: o espartilho devia ser tão apertado que não se conseguia sequer respirar.

Agora, a partir de 1º de outubro, com Magnum Principium, há o espaço para mudar de estilo e de perspectiva. Mas como habitaremos eclesialmente esse espaço?

Aqui parece-me que podemos e devemos relançar o papel que a Congregação para o Culto Divino pode exercer positivamente nessa delicada passagem. Ela não protege apenas as “exigências de universalidade” em relação às conferências episcopais particulares. Esta é a velha compreensão das Congregações.

Depois do Vaticano II, somos obrigados a pensá-las não só como “guardiães da tradição contra os abusos”, mas também e talvez principalmente como “intérpretes da atualização para a renovação dos usos”.

A especialização das Congregações não é o abuso a ser combatido, mas o uso a ser promovido. Uma Congregação que se fecha na zelosa proteção de “correspondências estáticas” perde a sua função e se isola em relação à realidade: pode sonhar com uma Igreja Católica de padres todos orientados para o Oriente na Oração Eucarística, todos parados ao altar no rito da paz e prontos para celebrar São João XXIII como patrono das tropas de ataque...

Mas a Congregação tem uma grande responsabilidade não só em fazer valer as razões universais, mas também em orientar sabiamente as razões do enraizamento local da tradição.

Por isso, Magnum Principium não é suficiente. Ou, melhor, Magnum Principium é tudo o que pode ser pedido ao papa. Agora, a Congregação deve escrever uma nova instrução, para predispor e articular todo esse campo de justa atenção às razões da diferença local, para que a unidade seja rica e não uniforme.

A esse respeito, voltam a ser particularmente úteis, também para entender a lógica de Magnum Principium, os números iniciais de Amoris laetitia (2-3), em que o papel do magistério é relido de acordo com a grande tradição “não invasiva” que caracterizou a Igreja até o século XIX: lá, diz-se que o magistério papal e curial não deve resolver todas as questões.

Também nesses termos é preciso compreender o reconhecimento de autoridade atribuído às conferências episcopais, sem as quais falta algo de decisivo à tradição/tradução, que o Magistério papal ou curial não é capaz de garantir.

Não é por acaso que a “fricção” do motor curial não funcionou nesses últimos 20 anos justamente sobre o tema do “traduzir”. Traduzir a tradição é uma exigência incontornável que o Concílio Vaticano II indicou claramente como destino providencial da Igreja do século XX.

Tinham tentado nos iludir que podíamos abrir mão disso, reduzindo as línguas populares a “moldes do latim”. Desse modo, todos tínhamos corrido o risco de pensar que a tradição não podia mais receber nada de novo. Mas as línguas com as quais celebramos hoje não são apenas uma tradução inadequada do latim, mas também expressões novas que dizem aspectos do mistério que o latim e o grego não eram capazes de expressar!

As línguas, todas as línguas, são línguas de Babel. Nenhuma língua é a língua de Pentecostes. O Pentecostes permite “entender e viver o mistério em todas as línguas”.

Esse é o espaço para uma nova VI Instrução, na qual a Congregação para o Culto Divino – saindo da obsessão redutora da luta contra os abusos – ajude a descobrir “usos surpreendentes” da tradição litúrgica cristã, graças à maravilhosa complicação das culturas contemporâneas, que não devem ser “impedidas”, mas sim “honradas”.

Para usar a imagem de Neri: a Congregação não deve se especializar em espartilhos, mas pode e deve propor para a tradição modelos de “revestimentos” mais amplos, mais coloridos, e não apenas compridos até os pés.

Exceto que o vestido concreto sempre seja confeccionado não no centro, mas na periferia; e que a periferia também deva se livrar, fatigantemente, dos “espartilhos mentais” que facilmente ela tende a se impor, embora, do centro, receba hoje modelos de um tamanho bem diferente.

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