Há 500 anos, não eram protestantes, mas católicos que acolheram Lutero

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29 Setembro 2017

O renomado pesquisador americano das religiões Martin Marty, luterano, escreveu um livro sobre o 500º aniversário da Reforma Protestante, e nesta entrevista ele nos lembra que, há cinco séculos, foram corações de católicos, não de protestantes, aqueles que Lutero tocou. Isso porque, diz ele, este líder incidiu precisamente em temas com os quais os fiéis estavam se debatendo naquela época.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 27-09-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

2017 marca o 500º aniversário da Reforma Protestante e, visto que enquadramos este evento que transformou o mundo por meio milênio em “católicos versus protestantes”, fica fácil esquecer uma verdade simples sobre o que ocorreu em 31-10-1517 e tudo o que se seguiu desde então: o público original de Martinho Lutero era composto inteiramente, 100%, de católicos.

Dr. Martin Marty. (Foto: University of Chicago.)

“Quinhentos anos atrás, a Europa era uma caixa de fósforos, pronta para incendiar”, disse Martin Marty, da Universidade de Chicago, luterano e um dos destacados estudiosos americanos da religião.

Lutero, frade agostiniano, abandonou o mosteiro e ou enviou por correio ao arcebispo de Mainz, ou pregou à porta da igreja em Wittenberg, na Saxônia, ao sul da Alemanha, as 95 teses que queria debater”, disse Marty. “Ele atingiu exatamente os pontos que estavam candentes no coração de muitas pessoas”.

“As pessoas eram todas católicas”, continuou o entrevistado, “e o documento atingiu o coração delas, porque elas se debatiam com estes temas assim como ele”.

O que isso significa, sugere Marty, é que, apesar de séculos de rivalidades eclesiásticas amargas, protestantes e católicos possuem uma herança em comum, que, segundo disse, floresceu no movimento ecumênico moderno.

“Lembro de ir certa vez a um encontro do Conselho Mundial de Igrejas, onde o tópico era a natureza da unidade que procuramos”, disse Marty.

“A pessoa deste Conselho que trabalhava como datilógrafa em Genebra mandou o esboço para nós na sala de imprensa onde se lia que o objetivo da unidade cristã era alcançar, em todo o lugar, uma ‘full committee fellowship!’” [irmandade comissão pela, um erro de digitação].

Marty explicou que deveria se chegar na verdade a uma ‘fully committed fellowship’ [irmandade plenamente comprometida]. “As lideranças católicas e luteranas de hoje comprometem-se a achar novos modos de fazer avançar esta irmandade plenamente comprometida”.

Marty publicou recentemente um livro sobre o 500º aniversário da Reforma intitulado “October 31st, 1517: Martin Luther and the Day that Changed the World” (Paraclete Press). Ele conversou com o Crux sobre o legado da Reforma, a significação do aniversário e como andam as coisas entre luteranos e católicos.

Eis a entrevista.

Quinhentos anos depois, qual o legado da Reforma Protestante?

Este ano, luteranos e muitos outros protestantes estão empregando uma grande quantidade de energia pensando sobre 1517 e Martinho Lutero. Eu escrevi uma biografia de Martinho Lutero e lidei com ele em muitos dos meus escritos. Essencialmente sou um historiador da religião americana, mas não me restrinjo a certos temas: tudo se conecta a tudo.

No fundo, o que dizer sobre esse evento?

Quinhentos anos atrás, a Europa era uma caixa de fósforos pronta para incendiar. Lutero, frade agostiniano, abandonou o mosteiro e ou enviou por correio ao arcebispo de Mainz, ou pregou à porta da igreja em Wittenberg, na Saxônia, ao sul da Alemanha, as 95 teses que queria debater. Ele atingiu exatamente os pontos que estavam candentes no coração de muitas pessoas.

Estas pessoas eram católicas e o documento atingiu o coração delas, porque elas se debatiam com estes temas assim como ele.

Essencialmente, com base nos escritos de Paulo, o Apóstolo, Lutero sustentou que a Bíblia ensinava algo diferente do que se tinha de ensinamentos da Igreja Católica de Roma sobre as penitências.

O senhor descreve a primeira das 95 teses como o cerne da visão de Lutero e com aquilo em que se tornará a Reforma Protestante. Por que ela é tão central?

A primeira tese diz que quando dizia “arrepender-se”, o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo queria dizer que a vida cristã inteira deveria ser uma vida de penitência. O olhar que lanço aqui é que arrependimento significa loucura, melancolia, amargura, pois isso faz parte daquilo a que somos chamados.

Mas quando nos aprofundamos no assunto, parte do que se trata as teses é que o arrependimento é também libertar-se, quer dizer, regozijo. Aprendo com Max Scheler – um grande estudioso admirado pelo Papa João Paulo II – que a melhor maneira de pensar o significado de “arrependimento” não é a tristeza pelo pecado, mas a transformação do coração. A palavra grega “metanoia” quer dizer, literalmente, mudar totalmente a forma de ser.

Acho que era isso o que Lutero buscava, e é isto o que as pessoas estavam à procura. Elas não queriam pagar para estarem quites com Deus, queriam-no gratuitamente, e Lutero chamou isto de “graça”.

Quando fala em pagar, o senhor se refere ao sistema de indulgências que se implantou na Igreja Católica. Pode falar sobre isso e qual a objeção de Lutero às indulgências?

O sistema de indulgências estava relacionado com a noção religiosa antiga segundo a qual se eu quero algo de Deus, tenho de levar algo a ele. Mas jamais terei o bastante para levar e, portanto, posso contar com a grandeza dos santos que acumulavam virtudes extras. Estas foram permutadas pela Igreja. As pessoas iam e se confessavam ao padre, e então ele dizia: “Pague x, ou faça x”.

O que incomodava Lutero e muitos na Europa naquela época era que esse sistema havia se resumido a uma transação jurídica. Roma queria construir a Basílica de São Pedro, e o dinheiro estava na Alemanha, na Suíça e em outros lutares. A Itália estava bastante enfraquecida na época, então alguém ia, de cidade em cidade, se apresentar e vender estas coisas.

Quanto a Lutero, isso profanava o conceito inteiro de ocorrer uma mudança de coração.

No livro, o senhor menciona que, provavelmente, o pregador mais famoso – ou o vendedor de indulgências mais famoso, se preferir – na época era um frade dominicano chamado Johann Tetzel. Algo não mencionado no livro, mas que eu ouvi ao longo dos anos, é que Tetzel inventou o primeiro jingle publicitário da história, que seria assim: “Quando a moeda no cofre soa, a alma no purgatório salta”. Sabe dizer se é verdadeira esta história?

Não tem, hoje, mais como ir atrás para saber a verdade. Mas ela é tão típica dele, além de ser um jingle publicitário maravilhoso, que possivelmente o é. Quem poderia resistir? Lançamos uma moeda, e a alma salta do purgatório. Coisa de gênio, e foi preciso uma contra-força poderosa para que as pessoas se libertassem dela.

Na escrita sobre o 500º aniversário da Reforma Protestante, o senhor usa imagens de “coração” e “alma”. Diz que o arrependimento estava no centro das coisas pelo lado protestante, mas também diz que houve uma transformação na alma católica ao longo dos últimos cinco séculos, um afastamento das rivalidades confessionais amargas e uma aproximação a relações mais estreitas com os nossos “irmãos e irmãs separados”, o que significa, com efeito, que nós não mais chamamos vocês hereges. Pode nos falar um pouco sobre como vê esta evolução, especialmente a partir do Concílio Vaticano II, na década de 1960?

A mudança começou a vir com o Papa João XXIII e o Concílio Vaticano II, e com a explosão do interesse, no catolicismo, pelos estudos bíblicos. Os protestantes sempre achavam que nas igrejas católicas [na época de Lutero] a Bíblia ficava acorrentada para que ninguém a pudesse furtá-la, mas, na realidade, ela ficava assim porque era rara demais. Há pouco se havia inventado a imprensa, e não existiam muitos exemplares dela à disposição.

Mas os católicos estavam “famintos” também, e começaram a lê-la. Lutero não estava sozinho aqui. Ele era dependente do que chamamos “humanistas”, isto é, pessoas que aprendiam o latim e o grego antigo e abriam um mundo inteiramente novo. Isto aconteceu no catolicismo também, e floresceu em nosso tempo.

Sou também um pregador e agora, sempre que prego sobre os romanos, me volto ao comentário de Raymond Brown, jesuíta, autor de um dos melhores comentários sobre o assunto. Em qualquer encontro importante, tais como os da Society of Biblical Literature, ainda que soe engraçado para uns, dificilmente se consegue distinguir protestantes e católicos, porque, de algum modo, ambos convergem sobre este tema.

Uns do lado protestante dirão que nada disso importa a menos que os católicos deem um passo atrás. Mas ninguém precisa dar um passo atrás, somos o que somos. Olhando para o futuro, não existem barreiras, absolutamente.

Por exemplo, um documento já consagrado hoje e que é ensinado nos seminários e retomado nos encontros comuns é a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, de 1999, entre a Federação Luterana Mundial e o Vaticano.

Lembro de ir certa vez a um encontro do Conselho Mundial de Igrejas, onde o tópico era a natureza da unidade que procuramos. A pessoa deste Conselho que trabalhava como datilógrafa em Genebra mandou o esboço para nós na sala de imprensa onde se lia que o objetivo da unidade cristã era alcançar, em todo o lugar, uma “full committee fellowship!” [irmandade comissão cheia, um erro de digitação]. É claro que o que se queria ter era uma “fully committed fellowship” [irmandade plenamente comprometida]. As lideranças católicas e luteranas de hoje estão comprometidas em encontrar novos modos de fazer avançar esta irmandade plenamente comprometida.

Antes de tudo, acho que Raymond Brown era sulpiciano, não jesuíta. Tenho certeza que os jesuítas adorariam poder chamá-lo como tal, mas acho que, neste caso, eles não podem… O senhor pode nos falar um pouco mais sobre a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação e por que ela importa?

Claro. Martin Marty, o não sulpiciano, responde! Antes de tudo, haver uma declaração conjunta é notório em si. Foi um processo de 20 ou 30 anos de reuniões regulares, sempre abrindo-se para a Bíblia e a história inteira da Igreja.

A “justificação pela fé” é, em certo sentido, uma palavra-código para a ideia da graça livre de Deus. Remonta à noção de que Deus nos justifica, não por nossas obras, mas pelo dom da fé, e os biblistas católicos todos chegaram à mesma conclusão de que é isso mesmo. A Declaração Conjunta deixa isto bem claro.

Não é uma coisa que leva a dizer: “Ó, nós luteranos vencemos!” Isso seria na verdade contrário a tudo o que se pensa. A verdade é que nós nos reunimos, e todo e qualquer movimento em direção àquela irmandade plenamente comprometida sempre estará guiado por essa ideia de justificação, baseada no estudo das escrituras e da história da Igreja.

Finalmente, no ano passado o Papa Francisco foi para a Suécia, em 31 de outubro, para um evento ecumênico com o presidente da Federação Luterana Mundial. Como o senhor analisa esta viagem?

Antes de tudo, achei interessante ele ter ido à Suécia, país com o segundo maior número de luteranos no mundo depois da Alemanha. Adivinhe o terceiro? É a Tanzânia.

Adivinhe o quarto país? A Etiópia. O luteranismo moveu-se para o sul, e a Europa ocidental e a América do Norte estão de certo modo ficando debilitadas espiritualmente; a parte sul do mundo é dinâmica.

Eu também achei que foi interessante o modo como ajustaram a viagem, com a arcebispa da Suécia e o papa celebrando juntos, destacando que lá temos uma arcebispa mesmo! Algo assim seria simplesmente impensável há 30 anos. O importante foi que luteranos e católicos se reuniram, o papa e a arcebispa se reuniram.

Isso tudo só mostra que estamos num momento diverso do que costumávamos estar, não?

De fato, e somos gratos por todos aqueles que tornaram isso possível, incluindo todos os jesuítas e sulpicianos, e todo mundo que está nos ajudando a compreender o momento atual.

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