A viagem do Papa à Suécia: uma experiência de laboratório sobre a cooperação católico-luterana

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29 Outubro 2016


Embora o principal evento da visita do Papa Francisco à Suécia na segunda e na terça-feira sejam as duas comemorações com líderes luteranos globais, a relação entre as Igrejas Católica e Luterana no país reflete tanto a cooperação quanto as suas principais diferenças, apesar do fato de que mesmo se todos os 115.000 católicos da Suécia aparecessem em Roma, eles dificilmente lotariam a Praça de São Pedro.

A reportagem é de Austen Ivereigh, jornalista inglês, publicada por Crux, 28-10-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Como a visita do Papa Francisco à Suécia  na segunda e na terça-feira será voltada principalmente para a comemoração católico-luterana mundial da Reforma Protestante em Lund, é muito possível que a pequena, mas crescente comunidade católica do país não seja percebida, assim como sua relação com a maioria luterana.

(Dá pra imaginar o quão pequena: Se todos os 115.000 católicos da Suécia, menos de um por cento de sua população, aparecessem em Roma, eles dificilmente lotariam a Praça de São Pedro.)

Na verdade, é tão fácil esquecer a marca Católica na Suécia que durante meses depois do anúncio da visita papal - a primeira em 30 anos - nem sequer foi programado para o Papa rezar a Missa com os Católicos do país.

Inicialmente, sua visita seria de apenas um dia, a fim de conduzir, juntamente com o secretário geral da Federação Luterana Mundial, Rev. Martin Junge, dois eventos ecumênicos no extremo sul da Suécia: um serviço de oração na Catedral de Lund e uma celebração da justiça e da paz com os jovens na arena de Malmö.

Mas depois da oposição dos católicos locais, o Papa concordou em ficar durante a noite para celebrar uma missa com eles na manhã de terça-feira em outro estádio em Malmö, com capacidade para 26.000 pessoas. O evento está com lotação quase esgotada.

A decisão causou indignação na Igreja Luterana sueca, que tem demonstrado esforços para não dar tanta importância para a Missa.

"É fácil achar que isso é uma visita papal, quando não é", disse Antje Jackelen, arcebispa Luterana de Uppsala, que também é a primeira arcebispa mulher da Suécia. "O foco é o encontro entre luteranos e católicos."

Refletindo o zeitgeist sueco, a Igreja Luterana é quase obsessivamente igualitária. Tem bispas mulheres e bispos gays (alguns são ambos), une casais do mesmo sexo e considera o aborto como um direito humano.

"A Suécia é um país muito especial, e muitas vezes extremo em seu igualitarismo", diz Bitte Assarmo, que edita o principal site e revista católica do país, Katolkst Magasin.  "Como a Igreja Luterana na Suécia é tão anti-hierárquica, eles não estão felizes com a ideia de o Papa ficar um dia a mais."

Assarmo diz que a igualdade tornou-se uma espécie de "religião civil" na Suécia, criando um clima que pode ser difícil para o catolicismo.
"Os valores católicos não correspondem à ideia sueca da igualdade", disse ela.

Um exemplo é que é muito difícil para os luteranos suecos aceitar as regras da Igreja Católica sobre a Comunhão, que é, em parte, o que está por trás da crítica da Missa de Francisco da terça-feira.

Qualquer mal-estar dificilmente afetará a comemoração da Reforma de segunda-feira, já que está sendo organizada pela Federação Luterana Mundial global, e não pelos luteranos suecos. Mas as tensões ecumênicas por lá dão uma ideia de alguns dos obstáculos para uma unidade católico-luterana  mais profunda em termos práticos.

Em geral, a Suécia, juntamente com a vizinha Dinamarca, é um dos países mais secularizados do mundo. Oito em cada 10 suecos declararam, em uma pesquisa da Gallup no ano passado, serem ateus convictos ou não terem religião, e quando o Papa João Paulo II veio para a Suécia em 1989, repórteres alegremente noticiaram o contraste entre os pequenos grupos que o receberam na Escandinávia, em comparação com as enormes multidões no resto do mundo.

(O recorde mundial de menor público em uma missa papal ao ar livre aconteceu na cidade sueca de Tromso, onde apenas 200 compareceram para prestigiar João Paulo II.)

A secularização resulta, em parte, de uma reação contra a tradição autoritária da Suécia de ter uma religião estabelecida, nas décadas de 70 e 80. Na maior parte do século XIX, a Igreja Luterana foi uma parte tão importante do estado que a sua renuncia poderia ser punida com o exílio.

Até 1951, todos os suecos tinham que ser registrados como membros de uma denominação religiosa, e só em 2000 a Igreja foi formalmente desestabilizada. Nesse período, o colapso na pertença religiosa foi espetacular: somente 1,3 por cento dos luteranos suecos registrados hoje frequentam a igreja.

(Isto significa que, casualmente, em termos de quantidade, os católicos e luteranos não estão muito distantes, apesar da enorme disparidade de riqueza e tamanho entre as duas instituições).

Mas o quadro é mais complexo do que parece. Dois terços dos nove milhões de suecos concordam em pagar a subscrição voluntária para a Igreja Luterana. Eles podem não ir à igreja aos domingos, mas esperam que a Igreja esteja lá para eles em tempos de crise nacional ou para os ritos de passagem individuais, como batizados.

A Suécia foi o exemplo dado pela famosa socióloga religiosa britânica Grace Davie ao afirmar que grande parte da Europa "crê sem pertencer". Isso significa que a irreligiosidade pode estar lado a  lado com fortes valores morais ou cívicos.

"Muitas pessoas têm um tipo de sentimento contemplativo em relação à presença de Deus, ou uma divindade mais vaga, na natureza", disse à Crux o único bispo católico do país, Anders Arborelius, de Estocolmo.

"Eles gostam de silêncio e solidão e precisam disso mesmo em suas vidas ocupadas", continuou ele, acrescentando: "Eles acreditam na honestidade, na paz e na justiça para todas as pessoas em todo o mundo, e a igualdade e a fraternidade universal são muito valorizadas".

O bispo acredita que a secularização foi tão profunda e durou tanto tempo que as pessoas estão começando a se cansar - o que pode explicar por que o catolicismo tem se mostrado atraente para os suecos com níveis de escolarização mais altos. A grande Academia Sueca, que atribui o Prêmio Nobel, por exemplo, há muito tempo apresenta um número enorme de católicos.

A grande presença de refugiados e imigrantes que geralmente são mais religiosos do que os suecos também está ajudando a mudar a mentalidade nacional. O seu impacto é particularmente evidente na Igreja Católica Sueca, que celebra a Missa de domingo, em Estocolmo, em uma série de idiomas.

Arborelius diz que espera que a Missa do Papa Francisco em Malmö - a porta de entrada para a Escandinávia para milhares de pessoas fugindo dos conflitos no Oriente Médio - fortaleça a unidade interna católica e ajude a superar a divisão social entre suecos e estrangeiros.

O bispo aponta o acolhimento aos imigrantes como uma área onde as Igrejas trabalham e se articulam particularmente bem de forma conjunta no Conselho Ecumênico Sueco, ou SKR, que inclui as Igrejas Livres e Ortodoxas, assim como a Católica e a Luterana.

"Especialmente em questões sociais, como as que dizem respeito aos imigrantes e refugiados, nós podemos cooperar e dialogar a uma só voz com as autoridades e com a sociedade secular", diz ele.

Assarmo concorda, dizendo que a liderança da Igreja Luterana em relação aos imigrantes foi "fantástica", e esta é uma área onde as Igrejas dão um poderoso testemunho comum - um ponto claro de destaque para o Papa Francisco.

Mas em questões morais como o casamento gay e o aborto, o abismo entre os luteranos suecos e as outras Igrejas, especialmente os católicos, parece insuperável.

Assarmo diz que a taxa de aborto na Suécia - cerca de 35.000 - é "totalmente ultrajante", especialmente considerando que a Suécia é um dos países com a maior proporção de uso de anticoncepcionais.

Neste contexto, a aceitação do aborto como um direito humano  pela Igreja Luterana representa um enorme obstáculo. "Estamos muito divididos em relação a isso", diz ela. "É realmente um problema."

Ao mesmo tempo que Francisco tem grande popularidade na Suécia, as pessoas tendem a amar suas posições sobre a pobreza e os refugiados, mas ignoram suas posições sobre o aborto ou o casamento, diz ela.

"Eu espero que, além de ver o Papa Francisco como um homem de amor e de misericórdia, eles também percebam que ele é um católico. Eu adoraria que ele mostrasse que é possível e até mesmo natural sentir o mesmo amor pelas crianças que estão por nascer quanto pelas que já nasceram."

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