Sou católico – e não sei no que devo acreditar quanto à imigração

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13 Setembro 2017

Sou católico romano, e não sei no que devo acreditar quando à imigração. E digo isso com toda a sinceridade. Não se preocupe: eu li a Bíblia. Já li o Catecismo. E tenho lido as encíclicas. E me submeto ao papa. Mas, honestamente, não sei no que devo acreditar.

O depoimento é de Pascal-Emmanuel Gobry, publicado por America, 12-09-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Moro na França e sigo atentamente os debates políticos nos EUA – e tento influenciá-los através da minha posição no Ethics and Public Policy Center [1]. Apesar das particularidades, a questão da imigração é enquadrada de uma maneira surpreendentemente semelhante em ambos os países. E os meus companheiros católicos dividem-se entre os dois campos que parecem ter a intenção de esbravejar uns aos outros. Tenho amigos em ambos os lados cuja inteligência, fé e misericórdia eu profundamente respeito.

Não sei no que acreditar. Não sei no que acreditar porque o meu coração se rompe pelos que são, ou se sentem, forçados a deixar o seu país de origem, querendo construir uma vida melhor; são pessoas que sofrem. Não sei no que acreditar porque existem questões genuínas tanto de prudência quanto de princípio que permanecem sem solução. Quantos imigrantes uma dada sociedade pode absorver com segurança? Quais os custos e benefícios empíricos da imigração? (Muito pesquisei nas ciências sociais, e a resposta está obscura.) Os cristãos não deveriam acreditar na legitimidade da autoridade civil e dos Estados não totalitários, o que não pode existir sem fronteiras? Não deveríamos ser céticos para com os desejos dos ricos e grandes empresas, que, nos países ocidentais, apoiam e se beneficiam esmagadoramente da expansão da imigração? Não tenho certeza de como resolver estes assuntos.

Dessa forma, ao invés de palestras, quero postular as seguintes questões, com toda a sinceridade, porque realmente creio que existem homens e mulheres de fé profunda e de um intelecto genuíno em ambos os lados.

Aos meus amigos que apoiam portas abertas, digo que concordo que devemos nos indignar com a situação dos migrantes e refugiados. Concordo com o imperativo evangélico de “acolher o estrangeiro”. Mas eis a questão: a doutrina da Igreja também apoia o direito dos países soberanos de ter fronteiras. É um dos deveres mais básicos dos Estados reforçar os seus limites fronteiriços. A tradição católica reconhece que a imigração deve se sujeitar a alguma regulação, ao invés de esperar que um país acolha todo estrangeiro. Um Estado pode aprovar regras imigratórias não apenas por motivos de segurança como também por preocupação sobre quantos imigrantes consegue receber e o quanto eles estarão aptos se integrar à sociedade. Em determinado momento, de acordo com a doutrina da Igreja, é direito do país e mesmo um dever dizer “Não” a algumas pessoas perfeitamente boas.

A pergunta que faço é: Que determinado momento é este? Faço esta pergunta de forma séria. Eu estaria muito mais confortável com apelos levados pela emoção em “acolher o estrangeiro” se eles viessem acompanhados de uma lógica ou justificativa para o momento em que receber o estrangeiro se tornar imprudente. Ou apoia-se a ideia de fronteiras completamente abertas? Se sim, por que não persuadir nesse sentido?

Agora, aos amigos que encontraram uma linha que deve ser traçada, que acham que as fronteiras devem ser reforçadas, a pergunta que faço é: O que é distintamente cristão em sua abordagem? Vocês apresentam muitos argumentos válidos – sobre as dificuldades em integrar as pessoas que não compartilham a mesma cultura, sobre o risco aumentar a desigualdade importando mão de obra barata. Vocês têm razão em dizer que as especificidades da política imigratória são uma questão de prudência, não simplesmente de doutrina.

Porém a doutrina não é silente. Ela nos convida a fazer um esforço moral específico. Mesmo se estivermos certos empiricamente sobre os efeitos negativos do aumento na imigração, ainda é o caso de que o Evangelho nos convida a mostrar uma preocupação especial, super-rogatória pelos migrantes e refugiados. Dito de outra forma: o que distinguiria o seu ideal de regime imigratório do regime imigratório ideal de uma pessoa completamente secular que compartilha da sua análise empírica sobre os custos e benefícios da imigração?

Nunca vi meus amigos responderem a estas perguntas. E eu gostaria – genuinamente, verdadeiramente – de ver uma resposta a elas.

Nota:

[1] Instituto de tendência conservadora sediado em Washington, DC.

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