"Acolher os refugiados é uma obrigação moral." Entrevista com Agnes Heller

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06 Setembro 2016

Agnes Heller esteve novamente no Alto Adige nessa segunda-feira, 5 de setembro, para um encontro organizado pela Prefeitura de Vadena e pelo Centro para a Paz da Prefeitura de Bolzano, em colaboração com a biblioteca e a Associação Lettera 7, no âmbito do plano cultural da região. A prestigiada pensadora húngara, herdeira da cátedra de Hannah Arendt na New School de Nova York, é uma das filósofas mais importantes do nosso tempo. Alma da Escola de Budapeste, ela sobreviveu à Shoá vivendo a tragédia do gueto (o pai morreu em Auschwitz) e, em 1947, matriculou-se na Faculdade de Filosofia, tornando-se rapidamente a discípula mais importante de György Lucács, um dos mais importantes pensadores europeus.

A reportagem é de Francesca Celotto, publicada no jornal Trentino, 03-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O seu livro "A teoria das necessidades em Marx" tornou-a conhecida em todo o mundo, e foi justamente a releitura de Marx a partir das necessidades humanas que provocou a ruptura definitiva com o regime que a manteve em prisão domiciliar e sob um controle espasmódico.

Em 1978, conseguiu sair do país para encontrar refúgio primeiro na Austrália, onde lecionou na Universidade de Melbourne e, depois, em Nova York, onde a sua fama cresceu.

"Europa e migrantes: o princípio-responsabilidade", esse é o tema do encontro, inspirado no pensamento do filósofo alemão Hans Jonas e na sua obra mais famosa, Das Prinzip Verantwortung. Aluno de Martin Heidegger e companheiro de estudos de Hannah Arendt, Jonas defendia que a aplicação incessante da tecnologia gerava problemas éticos e sociais, e que, em essência, ainda em 1979, pelo seu modo de agir, o ser humano estava destruindo o mundo.

"Aja de modo que as consequências da sua ação sejam compatíveis com a sobrevivência da vida humana sobre a terra": essa é a advertência de Jonas. Um apelo certamente não compartilhado se pensarmos nos cenários humanos atuais, em que a Europa, à mercê das contradições, está erguendo muros de desconfiança e de indiferença em relação ao outro.

Eis a entrevista.

A guerra na Síria e os ataques contra o Isis não se aplacam, e fluxos de migrantes em fuga continuam despejando os náufragos na esperança no velho continente. A Europa está dividida entre acolhida e rejeição. De que modo você acredita que ela deva ser responsável por essa enorme massa de pessoas que buscam um lugar melhor para poder viver?

Eu não acredito que os europeus sejam responsáveis pelos refugiados que cotidianamente tentam chegar até nós. No entanto, o dever não depende sempre da responsabilidade. Se, por exemplo, eu visse uma casa em chamas, eu correria para dar ajuda, sem, por isso, ser responsável pelo incêndio. É preciso fazer um esclarecimento e uma distinção sobre os deveres morais. Temos o dever moral incondicional de ajudar aqueles cujas vidas estão em perigo. Aqueles que fogem da guerra deveriam ser acolhidos, ponto. Ao mesmo tempo, em relação àqueles que querem viver no nosso país, temos um dever condicionado pela prudência, sem poder prescindir da segurança e da defesa dos nossos países. Existem os direitos humanos e os direitos do cidadão. Muitas vezes, tais direitos colidem entre si. Os cidadãos têm o direito de decidir com quem querem viver. Mas a exceção é o capítulo dos refugiados, porque acolhê-los implica um dever moral incondicionado, em que os direitos humanos têm uma prioridade absoluta e em que o princípio-responsabilidade não contempla exceções...

Há apenas um ano, enquanto a Hungria fechava as fronteiras, a Áustria e a Alemanha acolhiam refugiados, que chegaram a pé a partir da Síria. Agora, ao contrário, esses dois países estão assumindo uma atitude mais prudente. Até mesmo a Áustria, nos últimos meses, lançou a ideia de levantar uma barreira no Brenner. Quanto os atentados na França e na Bélgica influenciaram o medo do outro?

Trata-se de uma aversão natural contra o estrangeiro. Os governos democráticos deveriam agir e se declarar contra tal aversão, que parece ser, de algum modo, reforçada pelos atentados e pela questão da segurança. O medo se torna uma forte justificativa para fechar as fileiras. Porém, enquanto os políticos democráticos não ignoram o problema, como vimos com a discussão, as polêmicas e as negociações para evitar a barreira no Brenner, os regimes populistas antidemocráticos exploram o medo em favor de uma manipulação política, que a transforma em ódio contra os estrangeiros.

Depois da sua silenciosa visita a Auschwitz, o papa, retomando a passagem de "A noite", de Elie Wiesel, gritou: "Onde está Deus diante de todo esse horror? Deus está neles, ou seja, nos migrantes. Acolhendo os migrantes, os cristãos acolhem a Deus". Essas palavras sacudiram muitas consciências e deram mais uma prova de como o papa se expôs fortemente na acolhida e na solidariedade para com os migrantes em fuga.

Eu não conheço o discurso do papa, mas provavelmente ele se refere ao fato de que metade das vítimas do nazismo poderiam ter sido salvas se o Ocidente, por exemplo a Grã-Bretanha e os EUA, tivessem acolhido os refugiados judeus, mas não o fizeram. Talvez, Francisco também se refira à visita aos estrangeiros de Abraão, que se tornaram anjos de Deus. A sua voz moral hoje é uma grande esperança não apenas para os cristãos.

Com o verão europeu, outra polêmica ocupou o interesse da Europa, em torno dos burkinis. O debate desencadeou um vespeiro de polêmicas entre os defensores de uma laicidade alardeada como defesa dos valores ocidentais e a liberdade cultural e religiosa. A ONU interveio criticando a decisão do governo francês, porque, assim, estigmatizou os muçulmanos. O que você, que teve uma notável influência também sobre a cultura feminista dos anos 1970 na Europa, pensa a respeito?

É simplesmente estúpido! Três anos atrás, durante uma visita a Israel, eu estava com alguns amigos em uma praia do Mar Morto. Diversas mulheres árabes tomavam banho vestindo o burkini. Ninguém se surpreendia, exceto eu, mas apenas porque eu via esse tipo de traje pela primeira vez. Para todos os outros, era "natural". Na minha época, as mulheres de biquíni eram chamadas de prostitutas. Mas agora é uma roupa normal. Por que as pessoas deveriam se preocupar com a roupa dos outros? Os preconceitos mudam, mas permanece o feio vício da exclusão.

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