Autores próximos de Francisco condenam o ecumenismo do ódio entre católicos e fundamentalistas

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24 Julho 2017

Quando falo com repórteres que escrevem sobre a Igreja Católica, eu geralmente evito palavras como “extraordinário, único, inédito, etc.” O Papa Francisco tem às vezes me forçado a empregar tais palavras, e o mais recente editorial em La Civiltà Cattolica certamente merece uma tal caracterização.

O comentário é de Thomas Reese, jesuíta e jornalista, publicado por National Catholic Reporter, 20-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O artigo “Fundamentalismo evangélico e integralismo católico: um ‘ecumenismo do ódio’”, do padre jesuíta Antonio Spadaro e do pastor presbiteriano Marcelo Figueroa, é extraordinário.

Sabe-se que os autores são pessoas próximas a Francisco. Spadaro é o editor jesuíta de La Civiltà Cattolica, revista que publicou a primeira entrevista de grande envergadura concedida pelo papa, e Figueroa é um pastor presbiteriano argentino nomeado pelo papa para coordenar a versão argentina do L’Osservatore Romano.

É impossível exagerar o caráter extraordinário deste artigo. O seu texto é um ataque à aliança política entre fundamentalistas evangélicos e neoconservadores católicos, o que não seria surpreendente no National Catholic Reporter, mas que é algo totalmente inesperado vindo numa revista cujos artigos devem ser aprovados pela Secretaria de Estado do Vaticano antes de serem publicados. Verdade seja dita: La Civiltà Cattolica não é uma publicação vaticana; ela é publicada pelos jesuítas. Porém a relação entre a publicação e o Vaticano é tão estreita que o Papa Pio XII costumava fazer mudanças de última hora nela.

O artigo aqui comentado não mede palavras ao condenar a “linguagem maniqueísta que subdivide a realidade entre o Bem absoluto e o Mal absoluto” e a “estigmatização de inimigos que são, por assim dizer, ‘demonizados’”. Ele acusa os fundamentalistas de usarem os textos bíblicos fora de contexto para dar uma justificação teológica à beligerância, enquanto se preparam para o “Armagedom, uma prestação de contas final entre o Bem e o Mal, entre Deus e Satanás”. Estes fundamentalistas, dizem os autores, também retratam, com falsidade, os ecologistas como contrários à fé cristã.

Spadaro e Figueroa afirmam que o desejo teocrático dos fundamentalistas de submeter o Estado à Bíblia é impulsionado por uma “lógica nada diferente daquela que inspira o fundamentalismo islâmico” e que a “teopolítica propagandeada pelo ISIS se fundamenta no mesmo culto de um apocalipse a ser apressado o mais rápido possível”.

O texto de La Civiltà Cattolica igualmente condena os propositores de um “evangelho da prosperidade”, que promete que coisas boas virão aos seguidores de Deus. Os autores até mesmo criticam uma ênfase exagerada na “liberdade religiosa”. Embora reconhecendo a erosão desta liberdade como uma ameaça grave, não apoiam uma “religião em liberdade total”, percebida como um desafio direto à secularidade do Estado.

O principal elemento do artigo é, porém, um ataque ao uso da religião para santificar o paradigma bélico na política americana e na função dos EUA no mundo.

“Tanto os evangélicos quanto os católicos integralistas condenam o ecumenismo tradicional e, por outro lado, promovem um ecumenismo do conflito que os une no sonho nostálgico de um Estado de traços teocráticos”, escrevem. “Uma visão xenofóbica e islamofóbica, que invoca muros e deportações purificadores”, dizem, exemplifica um “ecumenismo de ódio”.

“As religiões não podem considerar alguns como inimigos jurados, nem outros como amigos eternos”, explicam Spadaro e Figueroa. Religião alguma deveria ser usada para proteger o status quo das classes dominantes.

A sua linguagem é tão severa em certas passagens que poderíamos pensar ser um escrito produzido por separatistas rígidos. “[…] É necessário se despojar o poder das suas vestes confessionais suntuosas […]”.

Tampouco o nacionalismo ou o tribalismo estão livres da crítica. “As raízes cristãs dos povos nunca devem ser entendidas de maneira etnicista”, escrevem. “O etnicismo triunfalista, arrogante e vingativo, em vez disso, é o contrário do cristianismo”.

Além desta dura retórica, o artigo é também incomum na forma como nomeia os atores principais: os proponentes e praticantes desta visão cristã falsa são apontados: Norman Vincent Peale, os escritores por trás do Church Militant, Steve Bannon, Ronald Reagan, George W. Bush e Donald Trump. Uma tal especificidade num documento romano é incomum. Normalmente exige-se ler nas entrelinhas para ver quem está sendo condenado.

O artigo vem sendo criticado pelos que acham que os autores não compreendem as complexidades das tradições religiosas americanas. Estas pessoas deveriam lembrar que se trata de um artigo de revista, não um artigo acadêmico. A ideia fundamental é certamente válida: tem havido uma aliança profana entre conservadores católicos e evangélicos que vem buscando transformar suas igrejas no Partido Republicano orante.

Esta aliança deu justificativas teológicas a guerras estúpidas e forneceu cobertura espiritual aos que querem ignorar as necessidades dos pobres, ao sustentar que o aborto supera todos os demais problemas. Essa tal aliança está corrompendo tantas as igrejas como a política. Ela é uma abominação a tudo o que Francisco tem como sagrado.

Tenho comigo pequenas objeções ao artigo.

Primeiro, a tentativa de trazer os católicos a esta aliança profana começou com Richard Nixon, não Ronald Reagan. Nixon usou a questão racial para cortejar os evangélicos do sul e os católicos étnicos no sentido de trazê-los ao Partido Republicano. Nenhuma explicação da política americana pode ignorar a questão racial.

Segundo, acredito que os autores, como muitos acadêmicos, levam demasiado a sério a teologia e os líderes religiosos. Verdade seja dita: eles realmente têm certo impacto, mas não se deve exagerá-lo.

Nas últimas duas eleições, as lideranças evangélicas não elegeram os republicanos que desejavam. Mitt Romney não era o candidato deles até conquistar a indicação partidária. E quando chegou a vez de Trump, tais lideranças acompanharam as prévias, a não as lideraram. O desabafo deles quanto a Trump depois da sua indicação e posterior eleição foi vergonhoso.

O que me conduz ao próximo e último destaque. O que motiva os eleitores americanos não é a teologia, apesar do fato de sermos um povo bastante religioso.

Medo e fúria são os grandes motivadores. Medo pelo outro, por aquele que não pertence ao meu grupo, o competidor, o estrangeiro. Medo do desemprego, de perder a própria casa, de perder o status, ver os filhos acabando piores do que nós próprios. Medo do crime e do terrorismo. Fúria contra um governo distante, indiferente, ineficaz.

A teologia e os líderes religiosos podem alimentar a fúria e o medo, mas estes já estão aí presentes. Eles despejam gasolina em um fogo que já está ardendo.

Assim, a recomendação que dou aos amigos de La Civiltà Cattolica é que o seu próximo editorial contrabalance a voz profética desta edição com uma compaixão pastoral aos que se deixaram seduzir pelo ecumenismo do ódio. Da mesma forma como Francisco ia às favelas de Buenos Aires para aprender como ser pastor, também os progressistas precisam ir aos pequenos municípios do centro-oeste deste país, ao cinturão da ferrugem americano e à região carvoeira de Appalachia para entender os apoiadores de Trump, sua fúria e medo.

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