Artigo da revista La Civiltà Cattolica: “Finalmente!”

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17 Julho 2017

O suspiro de alívio é de Michael Sean Winters, reagindo ao artigo “Fundamentalismo evangélico e integralismo católico: um ‘ecumenismo do ódio’” publicado na última edição da revista Civiltà Cattolica. O artigo é publicado por National Catholic Reporter, 14-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


Eis o artigo.

Ler o artigo de enorme sucesso publicado na revista La Civiltà Cattolica, texto intitulado “Fundamentalismo evangélico e integralismo católico: um ecumenismo do ódio”, fez vir à mente muitos adjetivos e advérbios, mas um deles manteve-se constante: Finalmente!

Finalmente alguém com autoridade reconheceu que o esforço em vincular católicos conservadores e evangélicos sempre teve mais a ver com política do que com religião, e que era inevitável que algo assim viesse a afastar muitos fiéis praticantes, distorcendo a fé com um cenário político que se origina, conforme observam os autores, numa cosmovisão divisora e anti-intelectual que deveria ser anátema a um católico.

Com efeito, esta aliança acarretou, necessariamente, na redução da religião à ética, uma espécie de postura padrão para a Igreja no espaço público, que foi fonte de preocupação para os papas Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e, agora, o Papa Francisco, mesmo que ela venha sendo a premissa operacional de uma série de católicos conservadores, neoconservadores e conservadores “malucos” há décadas. O fato de a ascensão desta aliança coincidir com a ascensão dos “sem religião”, aqueles que se identificam como não tendo filiação religiosa alguma, não nos deve surpreender.

Finalmente, alguém dentro deste órgão semioficial da Santa Sé afirmou que existe algo não cristão na cosmovisão maniqueísta adotada por muitíssimos líderes políticos dos EUA, visão de mundo que põe o governo americano no papel de salvador mundial e que convida a conflitos infindáveis a fim de justificar os orçamentos enormes do Pentágono e as vendas contínuas de armas.

Nem por um minuto eu nego que existem coisas genuinamente “maléficas” no tocante ao regime iraniano ou ao regime norte-coreano. Não nego que a nossa forma americana de governo é preferível por uma série de razões. Não advogo uma equivalência moral a este, ou a outro, respeito. Porém, nós nos EUA temos perpetrado o mal também, na América Central, ao apoiarmos os esquadrões da morte, na África hoje, ao compactuarmos com políticos corruptos para fazer que seus países vendam seus ativos naturais e adotem políticas pró-abortistas, no Japão, quando lançamos a bomba atômica, não uma vez, mas duas vezes. E é uma marca da nossa imaturidade política ser impossível, para qualquer um dos nossos políticos, admitir o mal que causamos no passado e no presente.

Finalmente, alguém destacou que os escritos de Norman Vincent Peale são tão pateticamente superficiais (“Se acreditar em alguma coisa, você a terá”) quanto populares e que estão próximos do absurdo que é o “Evangelho da Prosperidade”, forma que o verdadeiro Evangelho assume na cabeça dele. É curioso que os autores, o padre jesuíta Antonio Spadaro e o Rev. Marcelo Figueroa, não mencionaram o anticatolicismo perverso de Peale, que o levou a se opor à candidatura de Jack Kennedy, dizendo: “Diante da eleição de um católico, a nossa cultura está em jogo”. Este ataque incitou um dos melhores gracejos políticos de todos os tempos, do senador Adlai Stevenson: “Falando como cristão, considero o apóstolo Paulo simpático e o apóstolo Peale antipático”. O fato de Peal ter realizado o primeiro dos três casamentos de Donald J. Trump muito revela sobre ambos.

Finalmente, alguém com autoridade reconheceu existir um limite para aquilo que a preocupação pela liberdade religiosa pode justificar, que uma preocupação adequada pela liberdade religiosa não permite que os fiéis se abstenham de outras preocupações próprias a um cidadão, menos ainda para desafiar a secularidade do Estado. Eu daria um olho para ter visto a cara dos funcionários do quinto andar da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA quando leram aquele parágrafo [da Civiltà Cattolica]!

Finalmente, alguém chamou o Church Militant (ou Igreja Militante) pelo nome e apontou para a sua “retórica revoltante”. Estou farto daqueles em cargos de autoridade que se ocultam atrás do raciocínio segundo o qual não querem “elevar” um grupo periférico como a Igreja Militante, nem que seja chamando-o a atenção, quando na verdade eles simplesmente não desejam receber as críticas que agora irão recair sobre Spadaro e Figueroa.

Centenas de milhares de pessoas acompanham esta retórica: ontem de manhã, o Pe. Zuhlsdorf publicou um artigo sob o título “ASK FATHER: Can I wear a Rosary like warriors wear weapons?” (Pergunta ao padre: Posso usar um Rosário da forma como os guerreiros usam as armas?). Este tipo de linguagem militarista, profana é comum em sítios eletrônicos católicos de direita, os quais alimentam-se através de mídias convencionais menos ultrajantes, porém decididamente conservadoras, como a EWTN e o National Catholic Register.

A EWTN é uma espécie de porta de entrada para os católicos conservadores: pode-se começar assistindo a Raymond Arroyo entrevistar, pela enésima vez, Sebastian Gorka, ou lendo o Pe. de Souza explicar como o discurso de Trump na Polônia esteve “repleto de religiosidade” e seguir se aprofundando nestes temas, da mesma forma como certas pessoas fumam um baseado e isto lhes basta. Mas, para outras, a EWTN ou o Register as levam para níveis mais profundos da mídia católica conservadora. Não acredita? Veja a página de destaques publicada diariamente pelo Register chamada “The Best in Catholic Blogging”.

Finalmente, alguém com autoridade disse que o medo está sendo usado para manipular pessoas e culturas, que uma igreja cristã não deveria ter participação nisto e que, na verdade, até o momento uma luta pelo poder é a origem de inúmeros conflitos políticos, que a Igreja precisa ter cautela de até mesmo escolher um lado. Os parágrafos finais do artigo de Civiltà Cattolica deveriam ser aprofundados, mas os autores estão definitivamente certos em alguns insights centrais relativos à maneira como a religião tem sido distorcida para fins políticos de um jeito que trai o Evangelho.

Haverá, e na verdade já há, críticos deste artigo. Alguns se perguntam por que os autores não envolveram um coautor americano, embora inúmeros escritores americanos católicos conservadores criticam outros países sem pensar duas vezes. Uns irão se queixar de que o tratamento dos autores dispensado ao protestantismo evangélico é demasiado superficial, carecendo de nuance e ignorando temas complexos; por exemplo, talvez deixou-se a impressão de que Rousas Rushdoony foi mais influente do que, realmente, o era.

Esta crítica tem seus méritos, porém, como alguém que escreve uma coluna diária, posso atestar a dificuldade: um ensaio de jornal não é uma tese de doutorado, e não se pode desenvolver uma discussão com qualificações infinitas. O que importa é que o argumento não esteja errado, quiçá não completo, porém não errado, e acho que Spadaro e Figueroa estão certos em todos os pontos centrais trazidos.

Levantou-se a dúvida sobre se eles falam pelo papa ou não. Na maioria dos casos, este questionamento foi feito pelos que não gostam das ideias apresentadas no artigo e por aqueles que certa vez tiveram acesso aos recintos mais altos da hierarquia vaticana e que, hoje, não mais o têm. Este tema não me interessa e não tem influência sobre a verdade que os autores escrevem.

Portanto, meus cumprimentos ao Pe. Spadaro e ao Rev. Figueroa. Eles se manifestaram abertamente, e isto precisava ser feito. Apesar das críticas, o diagnóstico não é o problema; o problema é a doença. Ao assim proceder, eles deram um passo primeiro e necessário, além de necessariamente doloroso, no sentido de curar a Igreja deste “ecumenismo do ódio” desagradável e espiritualmente mortal.

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