Ecumenismo do ódio nos EUA: contrário ao Magistério

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24 Julho 2017

“Nos Estados Unidos, o maniqueísmo político-religioso nasceu porque a linguagem teológica e eclesial, especialmente nos últimos 30 anos, tornou-se muito polarizada, por causa do sistema político baseado em dois partidos. Assim, sobre algumas questões, o laicado católico tende a se identificar, também do ponto de vista religioso, com os católicos-republicanos de um partido ou com os católicos-democratas do outro. É um fenômeno que decorre do sistema político estadunidense, mas também do caráter militante do seu cristianismo, incluindo a Igreja Católica.” Massimo Faggioli, historiador do cristianismo e professor da Villanova University, na Filadélfia, comenta e explica o ensaio sobre “Fundamentalismo evangélico e integralismo católico”, que apareceu na revista La Civiltà Cattolica, um artigo que levantou um grande debate.

A reportagem é de Fabio Colagrande, publicada por Radio Vaticana, 20-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Os Estados Unidos são um país fundado por uma comunidade de cristãos muito religiosos, convencidos de que era necessária uma refundação social e política total para viver juntos sob o controle da religião”, explica Faggioli.

“A Igreja Católica tem uma atitude mais cautelosa em relação à ideia do domínio da religião sobre a política, mas, nos últimos anos, nos Estados Unidos, houve uma migração de ideias e de pessoas das Igrejas protestantes estadunidenses para o catolicismo. Houve uma grande massa de conversões, mesmo entre intelectuais importantes, e esses convertidos trouxeram consigo essa ideia protestante, essencialmente calvinista e estadunidense, pela qual a política está sujeita à religião e é difícil pensar em uma separação ou em uma distinção entre esses dois âmbitos.”

“O artigo da Civiltà Cattolica, portanto – continua o historiador – aponta de modo correto a sua atenção para esse fenômeno, que define como ‘fundamentalismo evangélico’, que é intelectualmente muito interessante, mas provoca alguns problemas que devem ser analisados, como a revista dos jesuítas faz corretamente.”

Literalismo bíblico

“Fala-se, nesse caso, de ‘fundamentalismo’, porque é um tipo de cristianismo que se baseia no texto bíblico, na escrita, de modo fundamental. Isto é, encontra na Escritura algumas passagens literais que fundam ou refundam uma sociedade, uma civilização ou uma legislação, de modo direto, não mediado pelo Magistério da Igreja, como é para os católicos. Essa dinâmica é tipicamente estadunidense – explica Faggioli – porque o literalismo bíblico em si é um fenômeno estranho ao catolicismo, que é mais orientado pela Tradição da Igreja, em vez de diretamente pela Escritura. Nos Estados Unidos, no entanto, essa proximidade com a tradição calvinista-protestante ‘fundamentalizou’ alguns católicos.”

A teologia da prosperidade

“Outro efeito desse fundamentalismo evangélico é a ‘teologia da prosperidade’. Trata-se de uma mensagem religiosa espalhada nos Estados Unidos por algumas Igrejas cristãs neoprotestantes, segundo a qual o amor de Deus se revela aos indivíduos que estão com boa saúde física e são ricos. Ou seja, se alguém está saudável, é rico e feliz, é um sinal de que é amado por Deus. Essa é uma teologia que é claramente herética ou aberrante, mas é muito importante em algumas Igrejas protestantes – não só dos Estados Unidos, mas também da América Latina e da África – e encontra espaço, embora de modo diferente, dentro do catolicismo estadunidense. Esse é um fenômeno preocupante, porque é uma negação direta da mensagem social da Igreja Católica sobre os pobres e a justiça. Portanto, há um conflito entre o que a Igreja diz sobre a justiça social e sobre os pobres e o ‘evangelho da prosperidade’, segundo o qual os pobres estão longe de Deus. Uma posição que é exatamente o contrário da do Magistério.”

“Esse artigo – acrescenta Faggioli – levanta essas questões no momento certo, porque o fenômeno Trump é a elevação da teologia da prosperidade a programa político.”

“O fenômeno da eleição Trump, sem dúvida, está ligado também à propagação dessa teologia. O fato é que os pastores convidados pelo presidente estadunidense à inauguração da sua administração, no dia 20 de janeiro passado, eram os representantes mais importantes da teologia da prosperidade nos Estados Unidos. Mesmo dentro da Igreja Católica estadunidense, as posições contra a Igreja dos pobres ou a mensagem social do Papa Francisco são um efeito das infiltrações dessa teologia. E é um fenômeno particular que não ocorre, parece-me, em outras comunidades católicas do mundo.”

O ecumenismo da trincheira

“A Civiltà Cattolica – continua Faggioli –, a propósito dessa fusão entre fundamentalismo evangélico e catolicismo integralista, chega a falar de ecumenismo fundamentalista e o define como ‘do ódio’. O motivo está no fato de que é um tipo de ecumenismo que não se preocupa em criar pontes com os distantes, mas sim em identificar os distantes como inimigos comuns tanto aos católicos, quanto aos protestantes. E, entre eles, inclui os muçulmanos, em alguns casos até os judeus – com uma espécie de antissemitismo – e, portanto, não está voltado ao diálogo. O artigo o chama de ‘ecumenismo do ódio’, mas são justamente os defensores desse tipo de fenômeno que o definem como ‘ecumenismo da trincheira’. Nessa visão, o mundo está em guerra contra nós, e nós, cristãos de diferentes confissões, devemos nos organizar para travar essa guerra. É inútil dizer que se trata de um ecumenismo totalmente diferente daquele que o Papa Francisco chama de ecumenismo ‘do sangue’, isto é, do martírio. É um ecumenismo muito diferente que, nos Estados Unidos, tem um significado teológico, cultural e político bastante importante, especialmente com a presidência Trump.”

Claro contraste com o Magistério

“É um fato objetivo que esse ecumenismo que prega a ‘guerra espiritual’, que está se espalhando pelos Estados Unidos, está em direto contraste com o Magistério do papa. Ele ganha espaço com diversas linguagens: por exemplo, muitas das recentes conversões das Igrejas evangélicas à católica, nos Estados Unidos, nascem do reconhecimento desta última como uma Igreja mais forte, isto é, capaz de combater o inimigo: nesta visão, os asiáticos, os muçulmanos e outros. É uma visão ideológica que une diversas Igrejas que se encontram na mesma sintonia, mas não é a do Magistério católico dos últimos 50 anos.”

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