Patriarca ortodoxo no Cairo: o mundo está entrando na era "pós-secular"

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03 Maio 2017

Antes da visita do Papa Francisco ao Egito, o chefe espiritual da Igreja Ortodoxa, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, apresentou um plano para o futuro do diálogo inter-religioso baseado no reconhecimento do papel central da religião na vida humana. Ele palestrou na quinta-feira no mesmo evento em que o papa Francisco estava programado para falar na sexta-feira.

A reportagem é de Charles Collins, publicado por Crux, 28-04-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Um dos problemas de o Papa Francisco ser sempre o centro das atenções é que ele ofusca quem está ao seu redor.

Sua viagem ao Cairo é um exemplo disso. Ele será acompanhado pelo chefe espiritual da Igreja Ortodoxa, o Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla.

É mais do que uma mera oportunidade para tirar algumas fotos. Desde que tornou-se papa, Francisco encontrou-se muitas vezes com Bartolomeu e eles desenvolveram uma verdadeira amizade. O patriarca chegou a acompanhar o pontífice em sua visita a um campo de refugiados na ilha de Lesbos no ano passado.

O patriarca teve uma enorme influência sobre as opiniões do papa sobre ecologia e foi quem criou o Dia de Oração pelo Cuidado da Criação, promovido por Francisco desde então.

Em muitos aspectos, desde a aposentadoria de Bento XVI, Bartolomeu foi, em grande parte, quem alavancou o trabalho intelectual do cristianismo, especialmente em suas relações com o Islã.

Isso não é surpreendente: Bartolomeu mora em Istambul, cidade predominantemente muçulmana que foi uma ponte tradicional entre os mundos cristão e muçulmano durante séculos.

É por isso que é uma pena que quase ninguém tenha feito a cobertura de sua fala na conferência de paz na Al-Azhar, no Cairo, na quinta-feira. Ele apresentou um plano para o futuro do diálogo inter-religioso baseado no reconhecimento do papel central da religião na vida humana.

Bartolomeu disse que o mundo não está cumprindo "a expectativa modernista de uma era secular pós-religiosa", mas está "tornando-se um período pós-secular, ou até mesmo [uma época] de explosão religiosa".

O patriarca disse que a religião "é uma dimensão central da vida humana, tanto pessoal como socialmente" e reivindica um papel público ao participar de todos os discursos centrais contemporâneos.

Bartolomeu listou quatro maneiras essenciais pelas quais a religião afeta a humanidade.

• "A religião relaciona-se às questões profundas do ser humano. Ela dá respostas a questões existenciais cruciais, orientando e dando sentido à vida. A religião abre a dimensão da eternidade e da verdade aos seres humanos."

• "A religião relaciona-se à identidade dos povos e das civilizações. É por isso que o conhecimento da crença e da religião do outro é uma pré-condição indispensável para compreender a alteridade e estabelecer o diálogo."

• "A religião criou e preservou as maiores realizações culturais da humanidade. Valores morais essenciais, solidariedade e compaixão, bem como respeito a toda a criação."

• "A religião é um fator vital no processo de paz. Como escreveu São Paulo, Deus não cria a confusão, mas sim a paz. A religião pode, é claro, separar, causando intolerância e violência, mas isso é fruto de seu fracasso, não é a sua essência, que é a proteção da dignidade humana."

Bartolomeu apontou então para dois extremos referindo-se à religião no mundo contemporâneo: o relativismo e o fundamentalismo.

Ele disse que o relativismo está profundamente ligado ao secularismo e que esse fundamentalismo é visto por muitos como uma reação a isso.

"Na verdade, o fundamentalismo fica muitas vezes ameaçado ou mesmo perseguido pelo relativismo", disse o patriarca.

"Enquanto o relativismo nega a existência da verdade, o fundamentalismo considera que sua verdade é a única e que deve, portanto, ser imposta sobre as outras, o que impossibilita que a religião seja uma ponte entre os seres humanos."

Bartolomeu disse que as explosões contínuas do fundamentalismo religioso e os "terríveis atos de violência em nome da religião" estão dando o que falar aos críticos modernos da fé religiosa, pois reforçam a relação da religião a seus aspectos negativos.

Ele argumentou dizendo que a violência é a negação de crenças e doutrinas religiosas fundamentais.

"A verdadeira fé não liberta os seres humanos da responsabilidade pelo mundo, de respeitar a dignidade humana e de lutar pela justiça e pela paz", disse o patriarca, "pelo contrário, ela fortalece o compromisso da ação humana, amplia nosso testemunho da liberdade e dos principais valores humanos".

Bartolomeu palestrou na principal instituição do Islã sunita - a Al-Azhar já foi até mesmo chamada de Vaticano muçulmano - em um país onde tem acontecido uma série de ataques de grupos islâmicos, como o ISIS.

Assim como Francisco, ele teve que encontrar um equilíbrio entre pedir para os religiosos evitarem a violência e reafirmar que o próprio Islã não tem culpa.

"Por nossa presença hoje, nesta importante conferência, gostaríamos de demonstrar nossa oposição a pelo menos um preconceito: o Islã não é o mesmo que terrorismo, porque o terrorismo é estranho a qualquer religião", disse ele, arrancando aplausos da plateia.

Mas, ao mesmo tempo, Bartolomeu pediu mais de todos os líderes religiosos, bem como, implicitamente, a líderes muçulmanos.

Ele disse que a credibilidade das religiões atualmente também depende de "sua atitude em relação à proteção da liberdade e dignidade humanas, bem como sua contribuição para a paz”.

"Para as religiões, a verdadeira paz no mundo não é simplesmente a ausência de guerra, mas essencialmente ter liberdade, justiça e solidariedade", disse o patriarca.

Ele falou sobre o papel central do diálogo inter-religioso neste processo - através da confiança mútua e do respeito -, que pode "afastar o medo e a desconfiança".

Bartolomeu concluiu seu discurso dizendo que a humanidade tem o direito de esperar mais dos líderes religiosos.

"Este é o maior desafio para as religiões: desenvolver seus próprios potenciais de amor, solidariedade e compaixão" - declarou o patriarca -, "é o que a humanidade realmente espera da religião hoje".

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