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24 Abril 2017

"Quem, então, substituirá um presidente como François Hollande, cuja fase final da presidência é de um homem invisível, que ninguém defende nem critica e cuja ação política ninguém reivindica? Oferta política não faltou: ultradireita, liberalismo conservador, centro-liberal, esquerda radical ou socialista, o leque de propostas políticas abrangeu um horizonte amplo", escreve Eduardo Febbro, jornalista, em artigo publicado por Página/12, 23-04-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis o artigo.

Os dois favoritos, Macron e Le Pen não pertencem a nenhum dos grandes partidos que governam a França há 40 anos.

Onze candidatos, quatro dos quais competem em um espaço apertado pelo qual sairão os dois que estarão nas eleições finais, em 7 de maio. O primeiro turno da eleição presidencial francesa no domingo encerra a fase inicial de uma das eleições mais loucas, dramáticas, disputadas, agitadas e mentirosas que a quinta República já viu. A perspectiva projetada pela enxurrada de pesquisas leva a um terremoto: os dois favoritos, o centro-liberal Emmanuel Macron (Em Marcha!) e a extrema-direitista Marine Le Pen (Frente Nacional) não pertencem a nenhum dos principais partidos que governaram a França por 40 anos. Nem a direita gaullista nem os socialistas chegariam ao segundo turno. Macron e Le Pen são figuras imóveis nas pesquisas há meses. A última foi publicada no sábado pelo jornal suíço La Tribune de Génève (pesquisas são proibidas na França). Realizada logo após o atentado da última quinta-feira na Champs-Elysées, a pesquisa não reflete nenhuma grande reviravolta. Emmanuel Macron está na liderança com 24% dos votos, seguido por Marine Le Pen, 23%, o candidato da direita, François Fillon (Os Republicanos), 20,5%, e o radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon, 18,5%.

A extrema direita é a única que não mudou. Marine Le Pen há três anos aparece nas pesquisas como candidata do segundo turno. As eleições que foram realizadas desde 2014 (municipais e europeias em 2014, regionais em 2015) apenas reforçaram esta tendência. Só ela sobreviveu à vontade de mudança dos eleitores no topo do pódio. Em número de votos, a Frente Nacional tornou-se o principal partido da França em todas as pesquisas. Apenas nas últimas semanas Marine Le Pen caiu para o segundo lugar, ultrapassada por Emmanuel Macron, sem que isso implicasse em sua eliminação. A aceitação dessa situação pelos outros candidatos tomou forma durante a campanha. Marine Le Pen foi pouco atacada, como se todos já tivessem admitido que ela havia vencido a primeira parte da eleição e que a luta não era derrotá-la em abril, mas classificar-se para a decisão final do dia 7 de maio.

Além do enraizamento da extrema direita, a outra constante é a sucessiva destruição de ambições políticas. Entre abril de 2016 e janeiro de 2017, todos os líderes políticos influentes que aspiravam concorrer à presidência foram eliminados pelos eleitores, começando com o mesmo presidente francês, Francois Hollande, que renunciou à reeleição. Hollande teve um dos piores índices de popularidade da história política da França. A onda de decapitações começou com as prévias da direita, em que os favoritos, o ex-presidente Nicolas Sarkozy e o ex-primeiro-ministro Alain Juppé, acabaram sendo eliminados por Fillon. Os socialistas repetiram a fórmula quando o ambicioso e autoritário primeiro-ministro de François Hollande, Manuel Valls, foi eliminado pelo socialismo de coração de Benoît Hamon. Outros saíram de cena enquanto Marine Le Pen consolidava sua permanência e outro ator que estava nas margens, Emmanuel Macron, entrou na ponta dos pés. Nesses deslocamentos entrou o Ministro das Finanças de Hollande. No que foi considerada a primeira traição na longa lista de deslealdades que marcaram a campanha eleitoral, Macron renunciou em março de 2016. Em abril do mesmo ano, sem partido ou experiência eleitoral, ele formou seu movimento Em Marcha! com o qual hoje beira uma façanha histórica. Macron pegou da direita, do centro e dos socialistas o que mais lhe convinha e, assim, criou uma narrativa de mudança e de ruptura com o sistema que o levou onde ele está hoje.

Para os socialistas, 2017 é o ano do segundo pesadelo, o ano da repetição de um trauma profundo que marcou toda uma geração: o das eleições presidenciais de 2002. Em 21 de abril do mesmo ano, o então candidato, o ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, não atravessou a fronteira do primeiro turno. Ele foi derrotado pelo pai de Marine Le Pen e precursor da Frente Nacional, Jean Marie Le Pen. Pela segunda vez no século XXI o socialismo francês será um mero espectador da conquista do poder. O Partido Socialista (OS) é um pássaro moribundo. Suas divisões não esclarecidas entre os socialistas natos e o liberalismo social irromperam agora com a candidatura de Macron. Os liberais sociais se foram com ele, mesmo tendo traído vergonhosa e publicamente o candidato eleitos nas prévias, Benoît Hamon. As pesquisas dão a ele 7,5% dos votos. O objetivo de Hamon é ficar acima de 10% para não desaparecer, mas o clima dentro do PS é tal que muitos líderes imploram que as urnas lhes deem mais do que 5% e, assim, eles possam se beneficiar do reembolso das despesas de campanha assumidas pelo Estado. Dessa catástrofe socialista surgiu um verdadeiro polo da esquerda, o da França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon. Só falta as urnas darem crédito às pesquisas e não reviver a experiência de 2012, quando de 17, 18% previsto pelas pesquisas, Mélenchon ficou com apenas 11%. Com propostas não muito diferentes de 2012, Mélenchon suavizou sua retórica, protestou contra as hipocrisias do sistema com uma força e uma criatividade narrativa muito potentes e se inscreveu solidamente como uma figura decisiva de questionamento do consenso liberal. Em sua evolução política, a filósofa Chantal Mouffe, grande pensadora sobre os populismos e a democracia radical e companheira do falecido Ernesto Laclau, desempenhou um papel central. Mélenchon conheceu Mouffe na Argentina, em 2013. O candidato do França Insubmissa disse várias vezes que Mouffe e Laclau "libertaram minha palavra e meu imaginário político".

Não somente o PS se apresenta debilitado às próximas eleições, como também a direita compete com um candidato que deixou de ser "praticamente presidente" (30% das intenções de voto) a candidato duvidoso (20% atualmente). Quando François Fillon venceu as prévias em novembro de 2016 (66,49%), a eleição presidencial contra Marine Le Pen estava garantida. Mas a França de repente descobriu que aquele católico íntegro, apegado à Igreja e à família, que professava uma cura thacheriana de enfraquecimento do Estado não era o que contavam. Ele gostava do dinheiro, de cavalos, de trajes de 10 mil dólares, de castelos, de carros esportivos e não hesitou em fazer tramoias concedendo contratos fictícios (de mais de um milhão de dólares) a sua esposa e filhos na Assembleia Nacional. Ao contrário de Nicolas Sarkozy e seus gostos chamativos e assumidos pelos Rolex e pelo luxo ostensivo, Fillon vendeu a imagem oposta. O jornal satírico semanal Le Canard Enchaîné comprometeu-se a provar o contrário. A justiça o condenou, ele e sua esposa, mas Fillon, ao contrário da sua promessa, continuou sua campanha em meio a um cataclisma de deserções e dissensão no seio da direita. Agora, ele enfrenta a verdade suprema.

Mentiras incomuns, xenofobia como plataforma eleitoral, informações falsas, traições cruzadas para todos os gostos e desgostos, corrupção, impunidade, ataques ferozes ao sistema judicial e à imprensa, a fase da campanha que termina no domingo terá sido de uma virulência e indecência nunca igualadas. Três momentos-chave retratam a campanha: a acusação de François Fillon e Marine Le Pen, ambos perseguidos pelo mesmo delito (Marine Le Pen no Parlamento Europeu): o momento em que Manuel Valls chama Emmanuel Macron à votação, o homem a quem ele chamava de "micróbio" quando estava no governo: e a frase mais lúcida e espetacular proferida por um candidato durante um debate televisionado em que estavam presentes os dois acusados, Fillon e Le Pen, ambos protegidos por sua imunidade parlamentar. É Philippe Poutou, o candidato trotskista do NPA, o Novo Partido Anticapitalista, que disse a Le Pen e Fillon: "Nós, os trabalhadores, temos que comparecer quando somos intimados. Para nós não existe a imunidade dos trabalhadores."

A consolidação de Marine Le Pen no topo das pesquisas transformou o primeiro turno no mais disputado da história. Todos os candidatos sabem que enfrentá-la no próximo dia 7 de maio já é sinônimo de vitória: a Frente Republicana deve se apressar imediatamente para barrar a possibilidade da extrema-direita ocupar a cadeira presidencial. François Fillon e Jean-Luc Mélenchon apostam na mesma variável: o erro das pesquisas. Foi o que aconteceu na França em 1995, depois em 2002, e se repetiu em 2016 com as prévias da direita, e em seguida com o Brexit na Grã-Bretanha e com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos.

"Fillon, Le Pen, tudo, menos eles", foi a manchete de primeira página de poucos dias atrás do jornal Libération. Em seu editorial antes da eleição, o vespertino Le Monde publicou que, de todos os candidatos, "uma é incompatível com os nossos valores e os nossos compromissos: Marine Le Pen". Quem, então, substituirá um presidente como François Hollande, cuja fase final da presidência é de um homem invisível, que ninguém defende nem critica e cuja ação política ninguém reivindica? Oferta política não faltou: ultradireita, liberalismo conservador, centro-liberal, esquerda radical ou socialista, o leque de propostas políticas abrangeu um horizonte amplo. Como destacam vários analistas, acima de seus episódios alucinantes, a campanha terá sido um confronto entre a globalização como fator de progresso e a globalização como fator de exclusão e destruição das classes populares. As últimas horas, depois de tantas paixões, são apaixonadamente incertas. A ultradireita, a direita, o extremo centro ou a esquerda radical estão separados por alguns poucos pontos percentuais. Nada menos do que dez duelos são possíveis. A democracia francesa deixou em aberto todos os caminhos de seu futuro político.

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