“O kirchnerismo é uma fonte de inspiração”. Entrevista com Chantal Mouffe

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Por: André | 24 Junho 2015

Chantal Mouffe e Ernesto Laclau escreveram a história antes que ela se tornasse realidade. Ambos, em um ensaio de uma lucidez profética publicado na década de 1980, anteciparam e deram vida ao desenvolvimento de movimentos políticos que hoje chegam ao poder na Europa com essa bíblia do pensamento pós-marxista que foi Hegemonia e Estratégia Socialista (1985). O Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia são descendentes desse pensamento inovador que soube traçar um caminho de ação política de esquerda sem passar necessariamente pelas articulações marxistas.

Pós-marxismo, populismo, criação de espaços contra-hegemônicos, radicalização da democracia figuram na trama de um pensamento iluminado que Chantal Mouffe detalha com uma paixão e uma juventude nada comuns entre os teóricos da filosofia política. Chantal Mouffe é uma fonte de juventude e de repetidos assombros e se entende muito bem porque o Podemos na Espanha, o Syriza na Grécia e vários governos progressistas na América do Sul se referem a ela. Em um planeta tecno-consensual, a excelência de um pensamento político rigoroso e transformador, que ultrapassa o mero diagnóstico ou a denúncia deprimente, é um oásis frondoso em um deserto de ideias.

Chantal Mouffe é politóloga, teórica do agonismo e professora na Universidade de Westminster. Hoje é uma das principais conexões teóricas de Pablo Iglesias e Íñigo Errejón, ambos dirigentes do Podemos na Espanha. Junto com Ínigo Errejón, o secretário político do Podemos, Chantal Mouffe acaba de publicar um livro de conversas, Construir povo, hegemonia e radicalização da democracia (Icaria Editorial).

Nascida na Bélgica, em 1943, companheira de Ernesto Laclau, Chantal Mouffe tem uma obra poderosa onde reatualiza há anos as formas de se reapropriar da democracia. Em 1985, escreveu com Laclau Hegemonia e Estratégia Socialista (FCE), uma obra mal percebida naqueles anos, mas depois retomada pela originalidade de seu postulado e a releitura que dela fizeram os dirigentes dos movimentos sociais ou a direção do Podemos ou do Syriza. Foi completando seu pensamento com o tempo e os livros: El retorno de lo político, Paidós (1999); Deconstrucción y pragmatismo, Buenos Aires, Paidós (1998); La paradoja democrática, Editorial Gedisa (2003); En torno a la político, FCE (2007); El desafío de Carl Schmitt, Prometeo Libros (2011); Dimensión de la democracia radical, Prometeo Libros (2012); Agonística. Pensar el mundo políticamente, FCE (2014).

Trata-se, no mais estrito resumo, de ver os caminhos e como questionar a esmagadora hegemonia liberal construindo outra democracia a partir da atividade de atores políticos renovados, em suas formas e proposições. O filósofo argentino Ernesto Laclau não pôde ver a plenitude de suas ideias subindo os escalões de poder (faleceu em 2014). Chantal Mouffe, sim.

Nesta entrevista realizada em Paris, a politóloga belga fala sobre essa democracia radical e esse populismo de esquerda que nutrem a espinha dorsal de seu pensamento, defende os novos caminhos da esquerda, a metodologia para criar respostas contra-hegemônicas. Neste torvelinho de ideias hoje bem sucedidas, Chantal Mouffe vê o kirchnerismo como “uma fonte de inspiração” do protótipo de democracia radical.

A reportagem e a entrevista são de Eduardo Febbro e publicadas por Página/12, 14-06-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Já há um certo tempo há uma crise no pensamento da chamada esquerda socialista. Como expressa com humor o líder da esquerda radical da Grã-Bretanha, Owen James, “o socialismo é para os ricos, o capitalismo para os pobres”.

Infelizmente, é verdade. Também o milionário Warren Buffett dizia: “A luta de classes sempre existe, mas somos nós que a ganhamos”. O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e outros como ele diziam: “hoje acabaram-se os antagonismos, a luta de classes acabou, podemos ter um consenso no centro, as diferenças entre a centro-esquerda e a centro-direita não existem mais, a democracia amadureceu e podemos estar todos de acordo”. Não é verdade.

Acontece que a luta de classes não desapareceu, mas que os mais pobres nem sequer estão em condições de se defender. É obvio que nos últimos 30 anos as desigualdades vêm aumentando de forma catastrófica. O livro de Thomas Piketty, O Capital no Século XXI, demonstra-o muito bem. Hoje estamos em uma sociedade muito mais desigual que há três décadas.

O que representa, neste contexto que você descreve, a irrupção, na Europa, das chamadas esquerdas radicais, seja na Grécia com o Syriza, na França ou na Espanha? É acertada a definição de “esquerda radical” para esses movimentos que, no entanto, se inscrevem em uma mecânica de conquista democrática?

Não creio que se possa falar da emergência de esquerdas radicais porque, de fato, essa esquerda radical sempre existiu. Sempre houve partidos que se situaram à esquerda da esquerda. A novidade, agora, está em que, com movimentos como o Podemos ou o Syriza, trata-se de um novo tipo de esquerda. Desde já, sabemos que o Podemos não aceita que o situemos no eixo esquerda/direita. Mas trata-se em todo o caso de um novo tipo de movimento. Eu prefiro chamá-lo de “populismo de esquerda”. Isto é algo totalmente novo na Europa onde, até agora, só havíamos conhecido populismos de direita. Lamentavelmente, a maioria dos movimentos populistas que estão na Europa é de direita.

No entanto, nos países do sul da Europa, Grécia e Espanha, surgem os movimentos populistas de esquerda. Estes partidos são muito diferentes da esquerda radical porque, de fato, essa esquerda desejava a revolução, queria acabar com o sistema democrático liberal e rechaçava a democracia representativa. Pois bem, tanto o Podemos como o Syriza são movimentos que não negam a democracia representativa e buscam inscrever-se na luta democrática tradicional. Querem transformar as relações tradicionais do poder de forma fundamental, ou seja, trata-se de uma luta hegemônica.

O Podemos e o Syriza lutam contra a hegemonia, querem terminar com a hegemonia do neoliberalismo por meio da luta democrática. É uma esquerda de radicalização da democracia, o que eu chamo de populismo de esquerda. Esta é a grande diferença com a esquerda radical que existia antes, a qual não se postulava como um partido de poder, mas de denúncia. Quanto aos partidos socialdemocratas, ou sociais liberais, estes movimentos não buscam chegar ao poder para transformar ou pôr em dúvida a hegemonia neoliberal.

Podemos dizer que não são de esquerda nem de direita, que estamos em uma definição das fronteiras. Argumento válido, retórica ou mera estratégia de comunicação eleitoral?

O que querem dizer é que não aceitam ser reduzidos ao eixo esquerda/direita. A tendência aponta a dizer que o Podemos e o Syriza são a extrema esquerda, mas não é verdade. Considero que não se pode abandonar completamente a referência à esquerda. A esquerda existe, e há várias. A esquerda social liberal, a extrema esquerda. O Podemos não quer se situar no centro. Eles estão de acordo com a ideia de que a política é a redefinição das fronteiras. Eles dizem: “queremos ocupar a centralidade do tabuleiro, queremos ser uma alternativa”. Trata-se, em suma, de uma estratégia hegemônica que busca disputar a hegemonia neoliberal. Essa alternativa consiste em estabelecer as fronteiras de maneira diferente e não entre a esquerda e a direita.

Eles têm algo de razão, porque hoje a fronteira entre esquerda e direita já não significa grande coisa devido ao fato de que os partidos de esquerda se deslocaram tanto para o centro que as diferenças fundamentais desapareceram entre as políticas de um partido de centro-direita e outro de centro-esquerda. Eu prefiro falar em repensar a esquerda, redefinir a esquerda. A categoria de “populismo de esquerda” tem um pouco essa meta. Claro, o Podemos diz, com razão, que é inadequado apresentar-se dizendo: “somos um partido populista de esquerda”; isso não funciona no discurso político.

Para mim, sim, é um partido populista de esquerda, porque é um partido que emana da articulação entre os movimentos sociais e as formas mais tradicionais, representativas. Na realidade, o Podemos é um partido parecido com as extremas esquerdas, mas sem o discurso da revolução e do fim do capitalismo: é um partido que se limita à luta eleitoral. Para mim, e isso é fundamental, o populismo de esquerda é uma articulação entre a dimensão vertical e a dimensão horizontal. O Podemos e o Syriza plasmam-no muito bem.

Pode-se versar muito sobre a definição semântica, sobre se a esquerda ou a direita existem ou não. Não obstante, as identidades históricas não variaram fundamentalmente.

Tem razão. Não sou fetichista e se me propõem outro termo no lugar de esquerda diria que está bem, mas não há. A diferença, contudo, se mantém: a direita tende a privilegiar a liberdade e a esquerda a igualdade. Se se quer defender a justiça social, a radicalização da democracia, é isso que eu entendo por esquerda. É curioso.

Na Argentina, por exemplo, existe o kirchnerismo e existe a esquerda. Quando converso com meus amigos kirchneristas da Argentina me falam da “esquerda”. Eu lhes digo, mas a esquerda são vocês! E o mesmo acontece com Correa no Equador. Isto me faz pensar. Na América Latina, os chamados partidos de esquerda são muitas vezes muito críticos com as experiências progressistas. Essa esquerda crítica não entende nem a especificidade, nem a importância dos movimentos populares.

Para você, o kirchnerismo é um modelo exitoso dessa combinação entre populismo positivo e democracia radical? Chegou a construir uma nova hegemonia?

Para mim, definitivamente, sim. Não vou dizer que o neoliberalismo foi eliminado, mas a definição do movimento kirchnerista vai nesse sentido. Claro que sim. Com todas as dificuldades que há, creio que o modelo kirchnerista é a maneira adequada de agir. O projeto kirchnerista é representativo do que chamo de populismo de esquerda. É um modelo, mesmo se não gosto desse termo, porque não se trata de uma receita. O kirchnerismo é uma fonte de inspiração. Temos muitas coisas que aprender dele. Para o movimento progressista europeu é um ponto de vista fundamental.

Muitos movimentos sociais e de esquerda têm uma atitude negativa frente ao Estado. O Estado é visto como um elemento dominador. Muitas vezes alegam que não vale a pena ocupar o Estado, transformá-lo. Há toda uma estratégia da deserção e do êxodo que está ligada a essa ideia segundo a qual o Estado vai cooptá-los. Essa postura os leva a não ocupar postos institucionais. E aqui está o acerto do Podemos na Espanha. O partido canalizou uma parte do movimento dos indignados e lhe deu uma eficácia institucional. Sem o Podemos o movimento dos indignados teria desaparecido.

E aqui voltamos ao kirchnerismo e a outros movimentos da América do Sul: demonstraram que o Estado pode contribuir, que não é um inimigo, que o Estado pode servir muito para a radicalização da democracia. Estas experiências latino-americanas são muito ricas, porque traçam outro caminho no tocante ao papel do Estado e das possibilidades de transformação. Estas experiências indicam que não é necessário fazer uma revolução, nem questionar o modelo democrático. Pode-se perfeitamente radicalizar a democracia.

Para mim, o processo de radicalização da democracia é esse: trata-se de uma luta imanente dentro das instituições para transformá-las e recalibrar a relação entre democracia e liberalismo. Essa é a identidade das experiências políticas da América do Sul. Temos muito que aprender delas. O Podemos se inspirou muito nessas experiências. Também, se olhamos as experiências da América do Sul, constatamos que as experiências são muito diferentes entre os países, dependendo se ela acontece na Bolívia, no Equador ou na Argentina.

Mas essas práticas políticas estão unidas por algo tangível.

Sim, existe uma vontade comum de questionar o neoliberalismo e de radicalizar a democracia que respondem a formas particulares e segundo os contextos e tradições políticas.

Muitas das ideias que você e Ernesto Laclau postularam há 30 anos estão hoje no centro desta renovação democrática das esquerdas populistas. Você está convencida de que é possível mudar politicamente as coisas, que nasceu um espaço para romper politicamente a hegemonia do pensamento liberal?

No livro que escrevemos com Ernesto Laclau, Hegemonia e Estratégia Socialista, o que destacamos como importante é o tema da hegemonia. Toda ordem social é sempre uma ordem organizada a partir de várias relações de poder, de várias configurações do poder. É o que se chama de ordem hegemônica, e essa ordem hegemônica exclui outras possibilidades. Não se pode ver a evolução da história segundo a ideia marxista do desenvolvimento das forças produtivas, como se houvesse uma linha da história que sempre vai na mesma direção. Não. Há um conceito fundamental, que é o da contingência, isto é, a ordem social é sempre o resultado das intervenções políticas, ou seja, hegemônicas. Por exemplo, a transformação da hegemonia socialdemocrata em uma hegemonia neoliberal é a consequência de uma intervenção política, hegemônica.

Hoje, nos dizem que não existe alternativa a essa ordem neoliberal, porque há como que uma ordem da história e que esse é o nosso destino. Não é assim. Quando se questiona a ideia dessa ordem histórica, vemos que a ordem neoliberal é o resultado de intervenções hegemônicas; por conseguinte, podemos imaginar intervenções contra hegemônicas porque sabemos que sempre há uma alternativa. Mudar politicamente as coisas é exatamente isto: buscar a transformação hegemônica.

As experiências do Podemos na Espanha e do Syriza na Grécia podem abrir uma brecha no imaginário liberal e instaurar uma espécie de prática cultural dissidente?

Sim, claro que sim. E é isso que explica a ferocidade dos ataques da União Europeia contra o governo grego de Alexis Tsipras. Estamos diante de uma luta ideológica, não se trata de um problema econômico. Se a União Europeia quisesse, o problema da Grécia, do ponto de vista econômico, poderia ser resolvido facilmente. Lamentavelmente, as forças neoliberais que dominam a União Europeia se dão conta de que, para eles, o êxito de um partido como o Syriza é muito grave e mortal. O neoliberalismo europeu defende que não há alternativa, mas, do outro lado, o Syriza diz, sim, há uma alternativa diferente. Há uma luta mortal entre o Syriza e o euroliberalismo. Sem dúvida, há uma brecha.

Creio que na Europa, pela primeira vez desde o final da Segunda Guerra Mundial, temos uma brecha no imaginário político. Essa brecha nos mostra algo muito importante, a saber: sempre há alternativas. Isto vai totalmente contra a ideia segundo a qual a história se desenvolve em uma determinada direção. Pela primeira vez vemos uma luta política. Aqui há um autêntico antagonismo entre o Syriza e o resto da União Europeia. Este caso nos está mostrando que a política não morreu. É um momento crucial da política europeia.

Atenas e Madri, Syriza e Podemos, são dois atores em plena conquista de uma hegemonia nova.

Ambos estão realizando uma luta contra-hegemônica. Ernesto Laclau e eu havíamos definido este processo de luta contra a hegemonia como uma desarticulação-rearticulação. Na realidade, neste terreno da luta contra as hegemonias já não se trata de pensar a transformação em termos de revolução. A luta hegemônica é o que Antonio Gramsci chamava de guerra de posições. Desarticulam-se as instituições para depois rearticulá-las e, por conseguinte, transformá-las.

Curiosamente, ao menos na Europa, quem melhor plasmou essa luta contra-hegemônica foram os partidos de extrema-direita. Na França, Marine Le Pen é o exemplo mais bem sucedido da reintrodução de uma contra-hegemonia.

Sim, mas Marine Le Pen não chegou ao poder, ao passo que na Grécia o Syriza tem o controle do Estado. Ainda não chegaram a criar uma outra hegemonia completa; é necessário tempo para isso. Contudo, reconheço que Marine Le Pen conta com um projeto hegemônico. Lamentavelmente, penso que a direita entendeu mais rapidamente que a esquerda os ensinamentos de Gramsci. A única que entende Gramsci na França é Marine Le Pen. Isso conseguiu criar um povo.

Na Europa persiste o vício de qualificar de populistas quase todos os partidos populares que têm um projeto soberano e nacional, sobretudo se são da América Latina. Você, ao contrário, não se aborrece com esse termo. O populismo é para você ao mesmo tempo uma necessidade e uma dimensão da democracia.

Eu reivindico o populismo. Penso que há necessariamente uma dimensão populista na democracia. A democracia consiste em construir um povo. Esse é para mim o sentido exato do populismo. Não nos devemos deixar impressionar por todos aqueles que utilizam o termo populismo como um insulto ou uma acusação de demagogia. Não. O populismo é a construção de um povo. Como escreve Ernesto Laclau em A Razão Populista, o populismo é um tipo de construção da política que constrói a fronteira entre os de cima e os de baixo, entre o povo e as elites. E isto não tem nada a ver com um conteúdo particular. Por exemplo, Perón era populista, mas Hitler também o foi, assim como Mao Tse-Tung. Isso mostra que existem muitas formas de populismo.

A pergunta é a seguinte: como construímos o povo? É um elemento fundamental da democracia. Quando nos acusam de ser populistas devemos dizer: “claro que sim, somos populistas porque somos democratas, porque queremos construir um povo”. Eu reivindico o populismo sempre e quando for um populismo de esquerda: porque queremos construir o povo de uma maneira que permita uma radicalização da democracia. Há formas de populismo que vão restringir a democracia e outras que vão ampliá-la.

A única forma de lutar contra o populismo de direita é mediante um populismo de esquerda. Não são os antigos partidos socialdemocratas convertidos em social-liberais que vão poder lutar contra Marine Le Pen. É evidente que na Grécia, se não tivesse havido um Syriza, o partido neonazista Amanhecer Dourado teria avançado muito mais. Foi impedido pelo desenvolvimento do Syriza.

Outra ideia que a distingue dos demais pensamentos políticos é a dos afetos, da paixão. Você reivindica a ambas como componentes essenciais da política.

Sim, isto é essencial. Por isso critica-se tanto o populismo. É preciso reconhecer a paixão e os afetos que entram em jogo na criação de uma identidade coletiva. Um dos grandes problemas da esquerda liberal está em que não entende nada sobre o papel dos afetos, porque tem medo da dimensão afetiva, das paixões. Essa esquerda liberal está obnubilada pelo tema do nazismo, por exemplo de Hitler, que conseguiu suscitar as paixões. A esquerda liberal acredita que só a direita pode proceder dessa maneira. Por isso, deixam todo o terreno livre e escolhem estratégias mais racionais. Não, pelo contrário. Não se deve deixar o campo livre para a direita, mas mobilizar a dimensão afetiva e as paixões em uma direção democrática.

Esta é, para mim, uma das características do populismo: reconhecer a importância de criar uma dimensão popular através da mobilização das emoções afetivas. Por exemplo, agora, para o Podemos, este tema é uma dimensão fundamental. Para os partidos da “casta” – é assim que chamam o Podemos –, ou seja, a centro-esquerda, a centro-direita, tudo o que questiona seu discurso de que não há outra alternativa torna-se populista. Esta acusação tornou-se uma maneira recorrente de desacreditar qualquer tentativa de mudança.

No entanto, na Europa, as formas desse populismo denunciado pelos liberais multiplicam-se, inclusive no interior dos próprios partidos que as refutam.

Hoje estamos na Europa em uma situação populista. Creio que até poderíamos dizer que há na Europa uma certa latino-americanização. Digo latino-americanização no sentido de que as condições atuais na Europa se assemelham à situação que existia na América Latina anos atrás. A Europa se latino-americaniza sem tomar o melhor das experiências positivas da América Latina. Os europeus tinham muitas coisas boas para aprender das experiências latino-americanas, de Kirchner, de Correa, etc.

Mas o que a Europa faz hoje é latino-americanizar-se de forma negativa. Com a crise da socialdemocracia e do desenvolvimento de certo tipo de capitalismo financeiro nos encontramos na Europa em uma situação parecida com aquela que imperava na América Latina antes dos governos progressistas. Temos, por exemplo, uma classe dominante hiper oligárquica, coisa que não existia antes no Velho Continente. A situação europeia de hoje é paradoxal. As massas populares, que através da socialdemocracia se incorporavam ao sistema democrático, foram expulsas dali com o desenvolvimento do capitalismo financeiro. Ficou um grupo de super-ricos e depois uma grande zona de precários, de grupos populares expulsos.

Agora teríamos que proceder pelo inverso: latino-americanizar a Europa seguindo o exemplo da América Latina recente para mostrar que existem meios de lutar contra essas oligarquias através dos populismos progressistas.

Neste contexto, há um confronto no interior das democracias ocidentais entre os termos democracia e liberal, entre liberalismo e igualdade. A América Latina, em alguns pontos de sua geografia, parece ter conseguido reequilibrar esse confronto.

Sim, absolutamente. E é uma das razões pelas quais todas as experiências progressistas latino-americanas são muito mal vistas na Europa. Toda a imprensa europeia, supostamente progressista, é muito crítica. Por quê? O que acontece? O modelo ocidental é uma articulação entre dois princípios: igualdade e liberdade. Mas nunca há uma perfeita igualdade, sempre existe um elemento dominante. Houve momentos em que o elemento liberal foi o mais importante, outros em que coube ao elemento democrático ser o mais importante.

Mas a situação atual é tal que, por causa da hegemonia liberal, tudo o que diz respeito à soberania popular e à igualdade foi posto de lado, foi rechaçado. Se falarmos hoje de soberania popular, na sequência dirão que isto é totalmente arcaico! É a isto que eu chamo de pós-político ou pós-democrático. Mas, justamente, o interessante das experiências latino-americanas consiste em que recalibraram a relação entre liberdade e igualdade, colocaram a questão da igualdade na condução do processo.

Na Europa, ao contrário, o elemento democrático da igualdade foi eliminado em benefício do liberal. Quando se fala na Europa com gente de esquerda e cita a América Latina como exemplo, na sequência dizem: “isso não é democracia, é populismo”. E se afirma isso porque o elemento democrático, a soberania popular, é o elemento dominante.

Você acredita que os novos partidos e as sociedades estão preparados para colocar em prática o que chama de “revolução democrática”, isto é, uma mudança por meio da radicalização da tradição democrática dominante?

Lamentavelmente, não. A situação atual é pior que três décadas atrás. Nós havíamos proposto voltar a pensar o socialismo a partir da radicalização da democracia. Nos demos conta de que a esquerda, tanto a esquerda socialdemocrata como a marxista-comunista, deixava de lado os novos movimentos sociais: o feminismo, os movimentos que defendiam o meio ambiente, a luta pela igualdade dos homossexuais, etc., etc. Na realidade, essas novas lutas não podiam ser traduzidas em termos de classes.

E essa foi a razão pela qual a esquerda, que estava concentrada na questão dos interesses da classe operária, não chegava a integrar essas demandas dentro de sua visão. Se entendemos que há toda uma série de demandas democráticas que são importantes já não se pode pensar em um projeto emancipador unicamente em termos de socialismo, se por socialismo se entende só o nível econômico. É preciso ampliá-lo e falar de radicalização da democracia. Hoje, infelizmente, retrocedemos. Com o desenvolvimento do neoliberalismo muitas das conquistas da socialdemocracia para a classe operária foram questionadas. O Estado de bem-estar social ficou muito prejudicado, ao mesmo tempo que toda uma série de direitos conquistados há 30 ou 40 anos foram questionados pelo neoliberalismo.

Há 30 anos, dizíamos: devemos radicalizar a democracia, o que quer dizer, radicalizemos as instituições do Estado de bem-estar social, façamos que sejam mais sensíveis a toda uma série de demandas que excediam o campo econômico. Hoje, eu diria que devemos primeiro recuperar a democracia, porque perdemos muitas conquistas. Nossas sociedades atuais são pós-democráticas. Continuam se apresentando como democráticas, mas, na realidade, a maioria das decisões importantes é tomada fora do Parlamento. A democracia é uma espécie de fantasma. Por isso, devemos recuperar a democracia e, depois, radicalizá-la. Estamos, então, em uma situação muito mais grave que há três décadas.

Em um dos seus livros, Agonística, você observa que no campo político é preciso renunciar à busca de um modelo sem exclusão e à esperança de uma sociedade reconciliada e harmoniosa.

Devemos reconhecer que é impossível. A política tem necessariamente a ver com a criação de um nós, mas para criar um nós obrigatoriamente é preciso diferenciá-lo de um eles. Além disso, para criar um consenso sempre deve haver algo exterior a esse consenso. Um consenso sem exclusão é, teoricamente, impensável. De fato, a democracia é uma dialética muito especial: inclusão-exclusão. Sempre há fronteiras, limites. Para incluir é preciso excluir. Um mundo de consenso, sem exclusão, é impossível.

O tema central consiste em saber como se estabelecerá a relação entre a exclusão e a inclusão. Ali se situa a diferença fundamental entre um populismo de direita e um populismo de esquerda, ou seja, como se estabelecerá a fronteira, quem será incluído e quem não. Por exemplo, a posição em relação aos imigrados difere muito segundo a pessoa se situa na linha da extrema-direita de Marine Le Pen – populismo de direita – ou na linha de Jean-Luc Mélenchon – populismo de esquerda.

Em suma, a democracia é um modelo teórico inconcluso.

A democracia sempre estará inconclusa porque nunca poderá haver uma realização completa e total da democracia. Existe de fato uma pluralidade de formas democráticas. É um modelo que pode ser aplicado de forma diferente. É um erro pensar que nosso modelo ocidental de democracia – e nele inclusive a América Latina – é transportável para todas as partes. Eu defendo um modelo que poderíamos chamar de contextualista e não universalista.

Há muitos pensadores da democracia ocidental que consideram que o nosso modelo é o mais perfeito, o mais moral e racional. Não concordo com isto. O nosso modelo de democracia ocidental se desenvolveu de acordo com certas condições históricas. A ideia da democracia é o poder do povo. Mas o ideal democrático pode inscrever-se de formas diversas em tradições diferentes. É um erro pensar que a democratização requer a ocidentalização. Este modelo ocidental não pode ser imposto ou importado. É um erro gravíssimo pensar a democratização do mundo muçulmano segundo nossas instituições.

Pelo contrário, essas sociedades devem encontrar a maneira de inscrever o modelo democrático dentro de suas culturas. Nem sequer dentro do nosso modelo pluralista democrático pode haver uma realização perfeita da democracia. Além disso, se chegássemos à perfeição, se tivéssemos instituições ideais, essa democracia deixaria de ser pluralista e começaria a se parecer com um sistema totalitário. Eu gosto muito de uma expressão de Jacques Derrida, que diz: “a democracia por vir”. A democracia será sempre algo que estará por vir, imperfeita. É isso que faz com a que a democracia esteja viva.

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