A ascensão da cultura pentecostal nas periferias brasileiras e a influência dos evangélicos na política

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Por: João Flores da Cunha | 05 Abril 2017

O Brasil está vivenciando a ascensão de uma perspectiva pentecostal, que ganha cada vez mais visibilidade na agenda pública nacional e influência na política do país. Esse foi um dos motes da fala do dia 3-4 da professora Christina Vital da Cunha, da Universidade Federal Fluminense – UFF, no 5º Ciclo de Estudos: Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo – A centralidade das periferias brasileiras.

O título de sua palestra foi Cultura pentecostal no Brasil contemporâneo: periferias urbanas em foco. Com formação na área de Ciências Sociais, Vital é professora do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades da UFF e do Departamento de Sociologia da mesma universidade.

A ascensão da cultura pentecostal se dá em um contexto de aumento do número de evangélicos em termos percentuais no país nas últimas décadas, assinalou Vital. Os evangélicos formam 22,2% da população nacional, de acordo com os dados do último censo (2010).

Esse crescimento se dá sobretudo nas cidades, e principalmente nas áreas mais periféricas, afirmou a socióloga. Em certas áreas do Rio de Janeiro, mais de 70% da população é evangélica, notou a professora – enquanto que na zona sul mais de 80% são católicos.

Além disso, é na classe C, de onde vêm 54% dos eleitores nacionais, que mais crescem os evangélicos, segundo a pesquisadora. Assim, essa mudança social também tem impactos na política brasileira.

Na conferência, Vital discutiu a ascensão da cultura pentecostal a partir de sua pesquisa de campo em Acari, complexo de favelas da zona norte carioca marcado pela violência e pelo tráfico de drogas. Acari está em evidência no noticiário dos últimos dias devido à morte de Maria Eduarda Alves da Conceição, estudante de 13 anos que foi atingida por uma bala perdida dentro de sua escola, no dia 30-3.

Vital faz parte de um grupo de pesquisa que documentou mudanças nas intervenções urbanas em forma de imagens em Acari ao longo dos anos. Um dos exemplos é a substituição de uma imagem de São Jorge, registrada em 1996, por um outdoor com a inscrição “Jesus é o Senhor deste lugar”, fotografado em 2006.

Ambas as imagens operam como um pedido de proteção, e revelam uma articulação, por parte dos traficantes da localidade, de gramáticas religiosas com gramáticas do crime. Segundo a pesquisadora, há muitas referências nesse imaginário ao salmo 91, uma oração de proteção.

Hoje, as imagens de Acari revelam um outro contexto social. Há uma influência da teologia da prosperidade, que tem caráter motivacional e impulsiona as pessoas ao sucesso, orientando-as a não se limitarem, “a não se circunscreverem pelas limitações impostas pelo mundo”, segundo Vital. Assim, hoje as paredes de Acari são tomadas de mensagens positivas e de incentivo – é o grafite evangélico.

A ascensão da cultura pentecostal nas periferias é marcada pelo sincretismo, assinalou Vital. A pesquisadora comentou que, atualmente, quem comanda o tráfico na favela de Acari é um traficante umbandista. Foi ele, porém, quem financiou os grafites de imagens com valores evangélicos. A socióloga também notou que a cultura pentecostal se forma a partir do trânsito entre duas culturas, a tradicional católica afro-brasileira e a cultura moderna de escolha individual.

Para a pesquisadora, “não há, de saída, uma seta positiva ou negativa para o empreendedorismo” (Foto: João Flores da Cunha)

Há hoje no país um crescimento do imaginário e da estética neopentecostal que acompanha o aumento do número de evangélicos na população, assinalou a pesquisadora. Assim, elementos desse discurso podem ser encontrados na música gospel, ou mesmo na fala de jogadores de futebol.

Isso, porém, não é novidade: há um crescimento de visibilidade dos evangélicos na esfera pública que vem desde os anos 1980, acompanhando o crescimento percentual na população – embora tenha sido visto por parte dos católicos como uma invasão. Fundamental para isso foi o uso de emissoras de televisão aberta por parte de pastores evangélicos.

Nesse contexto de crescimento da diversidade religiosa, não é surpreendente que evangélicos e grupos que os representem ganhem força política. A professora chamou a atenção para o fato de que, na campanha que elegeu Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio de Janeiro, esses setores “foram muito felizes em mobilizar essa narrativa emocional, que empodera”.

No entanto, a pesquisadora, utilizando o exemplo de Marco Feliciano, assinalou que existem “movimentos extremistas que vêm influenciando a agenda pública”. Assim, há hoje na política grupos que fomentam a intolerância religiosa. Citando Eduardo Cunha, a professora também registrou que há o perigo de a religião ser uma cortina de fumaça, “sendo usada para ocultar” certas práticas.

No entanto, a agenda da intolerância, embora poderosa, não é a única desses setores religiosos. Vital assinalou que há grupos evangélicos progressistas, que realizam trabalho em defesa de minorias e tensionam o movimento centralizado. Isso é, portanto, algo que está em disputa no campo social.

Como exemplo dessa disputa social, a pesquisadora apresentou o exemplo do empreendedorismo, relacionado à teologia da prosperidade. Embora a esquerda por vezes o associe ao neoliberalismo, Vital afirmou que “não há, de saída, uma seta positiva ou negativa para o empreendedorismo”. Trata-se, segundo ela, de uma ação disciplinada a partir de “algo de fundo, que é a narrativa emocional, e que está levando muitas pessoas para o empreendedorismo”.

“Isso está sendo produzido no seio das igrejas, mas isso não é contra necessariamente um político que defende pautas sociais”, assinalou a pesquisadora. “Há algo aí para ser disputado”, segundo ela.

Quem é

Christina Vital da Cunha é professora do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense - PPCULT e do Departamento de Sociologia da mesma universidade. Possui Bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais pela UFF, mestrado em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro IFCS/PPGSA (2002) e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro PPCIS/UERJ - vinculada à linha de pesquisa Religião e Movimentos Sociais em Perspectiva (2009). É autora de Oração de Traficante: uma etnografia, entre outros livros.

Confira a palestra na íntegra:

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