Aos 50 anos, “Populorum Progressio” ganha vida nova com o Papa Francisco

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24 Março 2017

Hoje, quando o Papa Francisco fala sobre o desenvolvimento humano integral e de sua visão de Igreja que vai às periferias do mundo, sem dúvida ele agradece a um antecessor de 50 anos atrás pela inspiração.

A reportagem é de Dennis Sadowski, publicada por Catholic News Service, 22-03-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Beato Paulo VI abordou o “desenvolvimento dos povos”, que “é seguido com atenção pela Igreja”, em sua encíclica Populorum Progressio (“O progresso dos povos”), que surgiu nos anos subsequentes ao Concílio Vaticano II.

O Papa Francisco tem empregado uma linguagem semelhante a esta da encíclica em suas admoestações sobre a economia mundial e na sua visão de um mundo mais misericordioso.

Lançada em 26-03-1967 – quiçá propositalmente na Páscoa –, a encíclica de Paulo assentou a Igreja Católica em solidariedade com os países mais pobres do mundo. Ele pediu pela eliminação da disparidade econômica e recordou as pessoas para que reconhecessem os fios comuns que unem a humanidade num mundo com recursos finitos.

“Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos”, escreveu Paulo em sua única encíclica social. “E não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um fato e um benefício, mas também um dever”.

Um tal chamado foi repetidamente ecoado em todos estes quatro anos do pontificado de Francisco. Lendo sua exortação apostólica A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium) e sua encíclica sobre o meio ambiente e o desenvolvimento humano, Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum, o papa lembra a família humana sobre as responsabilidades sociais do cuidado mútuo. Em consonância com o Beato Paulo VI, lembrou os problemas sociais causados por um “sistema econômico que tem no seu centro o deus dinheiro”, conforme disse em mensagem ao Encontro Regional dos Movimentos Populares em Modesto, na Califórnia, no mês de fevereiro.

Ainda que tenham se passado 50 anos e a discussão política tenha mudado para novos temas, a mensagem de Populorum Progressio ressurgiu num papa do século XXI e permanece tão importante hoje quanto o foi em 1967, disseram ao Catholic News Service especialistas em políticas sociais, no momento em que se aproxima o aniversário de 50 anos deste documento. “Populorum Progressio e toda a ideia de desenvolvimento humano integral é, realmente, a pedra angular de todo o resto (desde então) na Igreja”, diz Dana Dillon, professora assistente de teologia na Providence College.

Esta mensagem ressoou ao longo dos pontificados de São João Paulo II e do Papa Bento XVI, mas é o Papa Francisco quem tem renovado o convite ao desenvolvimento humano verdadeiro num mundo que ainda convive com a desigualdade econômica e com grandes bolsões de pobreza extrema, afirma Leonard Calabrese, ex-diretor executivo da ONG “Commission on Catholic Community Action”, sediada na Diocese de Cleveland.

“Não se trata apenas de desenvolvimento econômico. Tem a ver também com a justiça distributiva e uma preocupação com a equidade de como o desenvolvimento e os benefícios dele são difundidos por toda a sociedade”, acrescentou Calabrese, ao comparar os chamados semelhantes de ambos os papas.

O padre jesuíta Drew Christiansen, destacado professor de ética e desenvolvimento global da Universidade de Georgetown, chamou o Papa Francisco de um “papa Paulo VI”, por causa da sua confiança no Espírito Santo em convocar o mundo à misericórdia e à justiça.

O momento em que a encíclica fora publicada – menos de 16 meses da conclusão do Vaticano II – alimentou leigos e clérigos ávidos em ir ao mundo e partilhar a boa nova através da ação. O Beato Paulo VI não só apresentou o Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, mas também o documento inspirou a introdução, em 1969, daquilo que hoje é a Campanha para o Desenvolvimento Humano dos bispos americanos e deu luz a setores de ação social em muitas dioceses.

“Ele contava com apoiadores em todo o mundo, pessoas que eram simpáticas ao estado de espírito do Concílio e das ideias de envolvimento católico no mundo. Isto energizou a Igreja e muitas pessoas na área do desenvolvimento”, afirma Christiansen.

Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos da Villanova University, sugere que é chegado o momento de a Igreja olhar Populorum Progressio com mais profundidade a esta altura da história da Igreja. “É relevante porque é um momento de redescobrir aquele que foi o ensinamento social católico mais radical destes últimos 50 anos”, disse ao Catholic News Service.

O documento elevou o nível de atenção da Igreja para com os povos do sul global numa época em que o colonialismo europeu estava declinando, o que deu aos povos em toda a África, Ásia e América Latina uma maior esperança de que a Igreja estava junto deles, explica Faggioli.

No norte global, no entanto, a encíclica foi criticada severamente. Vermont Royster, na época editor da [revista] Wall Street Journal, chamou-a de “marxismo banal”, pois desafiava a corrida inerente do capitalismo para alcançar lucros à custa da vida humana. Outros criticaram a avaliação de Paulo VI segundo a qual o comércio econômico deve beneficiar tanto os países desenvolvidos quanto os que emergiam do colonialismo, que dominara o mundo durante séculos, dizendo que o religioso estava sendo demasiado severo com as práticas empresariais existentes.

Ao escrever para a revista Crisis em 3 de março, Samuel Gregg, diretor de pesquisas do Instituto Acton para o Estudo da Religião e Liberdade, em Grand Rapids, Michigan, questionou por que o Beato Paulo VI abordou tais questões em específico. Ele questionou as críticas feitas pelo beato sobre tais temas, pois “em geral não há uma resposta certa para os católicos”.

Mesmo assim, creditou Paulo por sua ênfase no magistério católico voltado ao desenvolvimento humano integral.

Paulo VI nos lembrou que, embora o desenvolvimento humano tenha uma dimensão material, não se pode reduzi-lo ao crescimento material”, escreveu Gregg em email enviado ao Catholic News Service. “Nós nos desenvolvemos plenamente quando livremente escolhemos os bens que são distintamente humanos e quando agimos em conformidade. Se os católicos perderem de vista esta verdade quando falamos sobre tópicos que vão desde a justiça até as decisões dos líderes políticos e empresariais sobre o meio ambiente, então nada teremos de distintivo para dizer sobre o desenvolvimento humano”.

Embora os detalhes dos acordos comerciais possam ter mudado ao longo do último meio século, a questão geral da importância de se construir relações entre as pessoas nos países desenvolvidos e subdesenvolvidos continua, afirmou John Carr, diretor da “Initiative on Catholic Social Thought and Public Life” da Universidade de Georgetown.

O Beato Paulo VI imaginava que o desenvolvimento econômico pudesse levar a uma paz duradoura, disse Carr. “O desenvolvimento e a justiça têm mais a ver com ‘ser mais’ do que com ‘ter mais’. Ser mais um trabalhador, ser um esposo, mãe, cidadão”, completou.

Carr aponta em particular o parágrafo 47 da encíclica como sendo uma passagem fundamental que levanta temas que ainda hoje ressoam, como ressoaram em 1967. Nesta passagem, Paulo VI explica que apenas terminar com a fome e reduzir a pobreza não era suficiente. Ele convidou as pessoas a construírem uma comunidade humana ao longo das fronteiras, culturas e classes econômicas.

O beato continua: “Isto exige, da parte deste último [o rico], grande generosidade, muitos sacrifícios e esforço contínuo. Compete a cada um examinar a própria consciência, que agora fala com voz nova para a nossa época. Estará o rico pronto a dar do seu dinheiro, para sustentar as obras e missões organizadas em favor dos mais pobres? Estará disposto a pagar mais impostos, para que os poderes públicos intensifiquem os esforços pelo desenvolvimento? A comprar mais caro os produtos importados, para remunerar com maior justiça o produtor? E, se é jovem, a deixar a pátria, sendo necessário, para ir levar ajuda ao crescimento das nações novas?”.

“Honestamente”, diz Carr ao Catholic News Service, “o contraste entre a mensagem dominante vinda de Washington e o chamado da Igreja não poderia ser mais claro”.

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