A ética familiar do papa Francisco

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14 Março 2017

"Muitos ficaram surpresos pelas reações negativas à solução oferecida pelo Papa Francisco na Exortação Amoris Laetitia para as várias situações irregulares. Ao longo da história da Igreja são numerosos os episódios de discussões acaloradas no âmbito da moral arrastadas por décadas e muitas vezes exauridas sem solução. Com a diferença de que, em outros séculos, o Magistério era o último recurso. As discussões desenvolviam-se em universidades ou escolas de diferentes ordens ou congregações religiosas. Enquanto, agora, as ideias inovadoras vêm do Magistério (Sínodo dos Bispos e dos Documentos do Papa)."

O comentário é de Carlo Molari, teólogo, padre e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, em artigo publicado por Rocca,  Nº. 6,  15-03-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Eu acredito que não é possível traçar um resumo da moral do Papa Francisco sem um aceno à ética sexual e à família. Giannino Piana no capítulo "O ensinamento moral do Papa Francisco" (Papa Francesco quale teologia, p 127-191) dedica uma seção completa para esse tema: família, sexualidade e bioética (p.169-188). O volume do Instituto da Enciclopédia italiana (Misericordae vultus. Il giubileo di Papa Francesco) relata um estudo realizado por Elena Curti Il Sinodo e Francesco. La famiglia (p. 231-254) compilado, no entanto, antes do segundo Sínodo e, portanto, antes da Exortação Apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia sobre o amor na família assinada em 19 de março e publicada em 08 de abril de 2016.

A preocupação com a família

A atenção do Papa com a família é inquestionável. A convocação e a realização de dois sínodos em 2014 (extraordinária) e 2015 (ordinária), da mesma forma que as catequeses das quartas-feiras dedicadas a essas questões, demonstram sua atenção além de qualquer dúvida. Ocorre lembrar, porém, como observa o moralista Giannino Piana, que “as questões relacionadas com a ética pessoal... [pelo Papa] são colocados no devido lugar com o abandono de sua sobrevalorização, às vezes motivada por atitudes obsessivas”

(op.cit., p. 169). O próprio Papa esclarece o problema em termos simples: "se um pároco, durante um ano litúrgico, fala dez vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre a caridade ou sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando obscurecidas precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na pregação e na catequese". (Exortação Apostólica Evangeli Gaudium n. 38).

A própria elaboração da Exortação pós-sinodal Amoris Laetitia revela a referência do Papa às raízes bíblicas (primeiro e terceiro capítulos) e, em particular, à função essencial do amor no desenvolvimento de vida matrimonial (cap. 4 e 5). Concreto e detalhado é o segundo capítulo que estuda a situação atual e os desafios que as famílias devem enfrentar (n. 31-57). O próprio Papa explica: "Mas, dado que os Padres sinodais ofereceram um panorama da realidade das famílias de todo o mundo, considero oportuno recolher algumas das suas contribuições pastorais, acrescentando outras preocupações derivadas da minha própria visão" (n. 31).

Por sua parte, o Papa sublinha a necessidade de "ser humildes e realistas, para reconhecer que às vezes a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar aquilo de que hoje nos lamentamos, pelo que nos convém uma salutar reação de autocrítica" (AL. n. 36). A esse respeito, cita seis limites concretos na pregação e na pastoral corrente.

O primeiro é a insistência com que se acentuou o "dever da procriação", deixando na sombra "o fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua". Esse aspecto também influencia profundamente as várias soluções para o problema dos sacramentos para divorciados recasados, para os quais muitos defendem a condição de se abster de atos conjugais, como se o próprio exercício da sexualidade não tivesse um valor fundamental para a harmonia do casal.

A segunda limitação é a falta de "bom acompanhamento dos jovens casais nos seus primeiros anos, com propostas adaptadas aos seus horários, às suas linguagens, às suas preocupações mais concretas" (AL. n. 36).

A esse respeito é oportuno notar que, como em todo o sacramento, o sujeito histórico operante é sempre a comunidade eclesial e que cada ministro deve ter "a intenção de fazer o que a Igreja faz". Isso implica no compromisso de dar testemunho de amor e cuidado para os jovens que se aventuram na ventura matrimonial, que a comunidade deve assumir e renovar.

Um terceiro limite da pastoral matrimonial é indicado na "idealização excessiva", isto é, na apresentação de um "um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são" (AL. n. 36).

Um quarto limite é denunciado na insistência excessiva sobre questões doutrinais, bioéticas e morais, sem referência à necessária abertura à graça (ibid. n. 37).

Um quinto limite reside em "apresentar o matrimônio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira"(ibid. n. 37).

Por fim, o clericalismo, problema muito generalizado, inclusive na Itália: "... nos custa deixar espaço para a consciência dos fiéis". Enquanto deveríamos estar cientes de que "Somos chamados a formar as consciências, não a pretender de substituí-las" (ibid. n. 37).

A atenção do Papa não é dirigida apenas para os aspectos negativos da orientação pastoral, mas oferece valiosas indicações para uma catequese bíblica consistente. Giannino Piana, por exemplo, ressalta o "sugestivo comentário que o papa faz ao décimo terceiro capítulo da primeira carta aos Coríntios, onde as virtudes em que concretamente encarna-se a caridade estão diretamente relacionadas com o comportamento de casal e de família" (op. cit., p. 171 cita os n. 90-119 da AL.).

Dificuldades e controvérsias

Muitos ficaram surpresos pelas reações negativas à solução oferecida pelo Papa Francisco na Exortação Amoris Laetitia para as várias situações irregulares. Ao longo da história da Igreja são numerosos os episódios de discussões acaloradas no âmbito da moral arrastadas por décadas e muitas vezes exauridas sem solução. Com a diferença de que, em outros séculos, o Magistério era o último recurso. As discussões desenvolviam-se em universidades ou escolas de diferentes ordens ou congregações religiosas. Enquanto, agora, as ideias inovadoras vêm do Magistério (Sínodo dos Bispos e dos Documentos do Papa). Em todo caso, sempre vale o princípio de que quando existem diferentes pontos de vista morais, a solução é confiada à consciência dos indivíduos que, após informação e discernimento, são chamados a decidir. Eles, por outro lado, também podem escolher a hipótese menos abalizada. Além disso, já de longa data na Igreja em diferentes partes do mundo, onde não existiam escândalos, em circunstâncias especiais, como para a primeira comunhão dos filhos, ou no caso de funerais de entes queridos, já era praticada a admissão aos sacramentos também dos divorciados recasados.

Mesmo aqueles que criticam a possibilidade sugerida pelo Papa devem reconhecer que não é o estado de divorciado recasado que impede a vida sacramental, tanto que todos aceitam a legitimidade da Familiaris consortio de João Paulo II n. 84, segundos a qual é lícita a vida sacramental para aqueles que vivem a nova união "como irmão e irmã", isto é, abstendo-se de relações conjugais. Embora essa solução de comprometimento não leve em conta o valor unitivo da função sexual. Giannino Piana insiste em "três linhas de orientação expostas pelo papa em virtude da importância ética e pastoral que as reveste" (op. cit., p. 176).

Vamos resumi-las.

A primeira é o reconhecimento de que o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, portanto a aplicação de uma lei pode ser diferente (AL. n. 300). A segunda orientação diz respeito aos condicionamentos e as circunstâncias atenuantes pelas quais nem todos aqueles que vivem uma nova condição matrimonial poderiam estar em um estado de pecado mortal. A terceira linha de orientação diz respeito ao juízo de consciência de cada pessoa que pode reconhecer com sinceridade que a sua é "por agora, a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está a pedir no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo" (AL. n. 303, citada na p. 179).

Recentemente (14 de fevereiro de 2017), o Cardeal Francesco Coccopalmerio no volume O oitavo capítulo da exortação pós-sinodal Amoris Letitia (Editora Vaticana, 2017) examinou em detalhes o problema específico e concluiu que a doutrina foi respeitada porque a Igreja admite "à Penitência e à Eucaristia, os fiéis que estão em união não legítima, sempre que sejam respeitadas duas condições essenciais: existe o desejo de mudar a situação, porém não é possível implementar tal desejo" (op.cit, p 27). "É exatamente esse propósito, o elemento teológico que permite a absolvição e o acesso à Eucaristia" (op. cit., p. 29). Levando em conta, especificamente, a função medicinal da Eucaristia "remédio generoso e alimento para os fracos" (AL. n. 351).

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