A mudança pastoral do papa Francisco sobre o amor, matrimônio e família

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11 Abril 2016

Na exortação apostólica Amoris Laetitia "há claramente alguns passos que avançam, algumas hesitações e compromissos, e alguns silêncios à espera do amadurecimento do ‘discernimento’ (termo-chave para o jesuíta Bergoglio) no interior da Igreja", constata Massimo Faggioli, professor de História do Cristianismo na University of St. Thomas, EUA, publicado por Huffington Post, 08-04-2016. A tradução é de IHU On-Line.

Segundo ele, "Amoris Laetitia corresponde às esperanças de quem esperava do papa Francisco um novo modo de ver as questões novas (novas para os tempos longos da igreja) sobre o matrimônio e família, e decepciona aqueles que esperavam mudanças radicais".

'Mas é clara a direção - assinala Faggioli - para onde Francisco pretende guiar uma Igreja que se defronta com enormes mudanças sócio-culturais".

Eis o artigo.

Com o título ‘Amoris Laetitia’ o papa Francisco publicou a exortação apostólica pós-sinodal que conclui (mas em certo sentido também abre) o debate que envolveu a igreja católica entre 2014 e 2015 sobre os temas do matrimônio e da família.

Com nove capítulos, 325 parágrafos, e 391 notas de rodapé é um texto muito mais longo que a Familiaris Consortio de João Paulo II (1981), também por causa da linguagem de tipo catequético. O texto de João Paulo II e de Francisco são textos formalmente do mesmo tipo – exortações apostólicas pós-sinodais – mas de natureza diferente: o Sínodo do papa Francisco, realizado em duas etapas, outubro de 2014 e outubro de 2015, foi um debate sinodal verdadeiro, aberto, e, às vezes, áspero, onde a oposição ao papa Francisco não hesitou em criticar o papa de  um modo que não nunca foi usado no confronto dos predecessores.

Apesar disto, Francisco em Amoris Laetitia não hesita em indicar a direção da marcha da Igreja da misericórdia que tem em mente: faz isto citando abundantemente os relatórios finais dos Sínodos de 2014 e 2105 e, particularmente, os textos aprovados pela maioria, mas rejeitados por uma consistente minoria (particularmente os números 84, 85 e 86 do relatório final de 2015.

Amoris Laetitia é um documento do papa Francisco, mas também da igreja de Francisco (com citações das conferências episcopais, como nos outros documentos de Francisco).

Há claramente alguns passos que avançam, algumas hesitações e compromissos, e alguns silêncios à espera do amadurecimento do ‘discernimento’ (termo-chave para o jesuíta Bergoglio) no interior da Igreja.

A parte dos silêncios e dos textos não plenamente maduros diz respeito às questões mais controversas em nível global: igreja e homossexuais, e a mulher na igreja.

Sobre os homossexuais, Amoris Laetitia reitera a necessidade de não excluir ninguém da igreja (parágrafos 250-251), mas para no ‘stop’ imposto pelo Sínodo 2015 pela minoria e, substancialmente, cita o Catecismo.

Sobre a mulher, a figura materna e paterna e a questão do gender (gênero), é a parte mais fraca do texto, devido também ao fato que o Sínodo substancialmente não discutiu estes temas, cúmplice da debilidade teológica de grande parte dos bispos.

A parte do compromisso é aquela em torno da herança de Paulo VI e João Paulo II, especialmente sobre a contracepção, que papa Francisco deixa muito matizada acentuando o discurso sobre a consciência e sobre a paternidade e maternidade responsável (parágrafos 68 e 82).

Um compromisso significativo, mas com uma clara abertura se encontra na questão dos divorciados recasados: o documento não cita a “comunhão espiritual” (até agora proposta pela igreja pré-Francisco aos divorciados recasados como alternativa à eucaristia); rejeita o exclusivismo que faz com os católicos em situações difíceis se sintam como excomungados (parágrafo 243); fala das formas não matrimoniais de união como “ocasiões a serem acompanhadas até o matrimônio” (parágrafo 293); fala de “gradualidade no exercício prudencial dos atos livres em sujeitos que não estão em condições de compreender, de apreciar ou de praticar plenamente as exigências objetivas da lei” (parágrafo 295); torna claro que “não existem receitas” para os casos difíceis (parágrafo 298) e, numa importante nota de rodapé na página 329 reconhece os riscos implícitos em pedir que os divorciados recasados “vivam como irmão e irmã”.

A parte mais genuinamente bergogliana é onde Amoris Laetitia afronta a questão da pastoralidade  no confronto com a doutrina e a lei.

Há alguns parágrafos que expressam a teologia de Francisco e dão o tom a todo o documento. No início do texto Francisco precisa que “não todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas com intervenções do magistério” (parágrafo 3). Convida a considerar “a situação atual das famílias, tendo os pés no chão” (parágrafo 6). Pede que “todos se vejam muito interpelados pelo capítulo oitavo sobre os desafios pastorais da vida real dos fieis (parágrafo 6).

Uma seção muito forte é constituída pelos números 36-38, onde Francisco admite que na linguagem da igreja o fim da procriação tem obscurecido o fim unitivo, assim tornando o instituto do matrimônio não atraente (parágrafo 36).

Reconhece que a igreja tem dado uma ênfase excessiva sobre as questões doutrinais, bioéticas e morais (parágrafo 37), e aponta o excesso de reações da Igreja contra “o mundo decadente” (parágrafo 38) e, pelo contrário, indica como modelo o comportamento de Jesus com a adúltera.

O significado da mudança pastoral do papa Francisco é sintetizado no parágrafo 304: “É mesquinho considerar unicamente se o agir de uma pessoa responde ou não a uma lei ou a uma norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta de um ser ser humano”.

Amoris Laetitia corresponde às esperanças de quem esperava do papa Francisco um novo modo de ver as questões novas (novas para os tempos longos da igreja) sobre o matrimônio e família, e decepciona aqueles que esperavam mudanças radicais. As mudanças para os divorciados recasados se darão na prática segundo a recepção que os bispos e os padres darão ao documento.

Mas é clara a direção para onde Francisco pretende guiar uma Igreja que se defronta com enormes mudanças sócio-culturais.

É um documento longo e complexo que reflete um catolicismo global onde o matrimônio e família são realidades muito mais diversificadas que nos tempos do Concilio de Trento, que há 450 anos codificou o matrimônio no mundo católico ocidental. É um documento que impede que as diferentes vertentes teológicas declarem vitória ou derrota total, e é fruto da elaboração por parte do papa de um longo processo sinodal que viu os bispos se dividirem visivelmente em torno de algumas questões.

A igreja de Francisco continua o seu caminho rumo a uma ‘desideologização’ do seu magistério, em direção de uma maior ‘inclusividade’, e em direção de uma misericórdia que toma como modelo o Jesus com a samaritana.

Agora resta ver que tipo de recepção terá Amoris Laetitia. Nunca se viu uma exortação pós-sinodal como esta, nunca fora realizado um sínodo verdadeito como o de 2014-2015.

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