Problema com a comissão antiabuso não é os sobreviventes, é a Cúria Romana

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07 Março 2017

"O recente argumento do editor da Crux John Allen de que minha renúncia da comissão antiabuso do Papa vai "me libertar" e fazer com que eu me sinta menos em "conflito" não só é equivocado, como é arrogante. O problema com a comissão não é que haja membros sobreviventes, é a oposição de clérigos da Cúria Romana", escreve Marie Collins, sobrevivente de abuso clerical e ex-membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, em artigo publicado por Crux, 05-03-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

[Nota do Editor: após a saída da última sobrevivente de abuso clerical que era membro ativo da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, a leiga irlandesa Marie Collins, o editor da Crux John L. Allen Jr. publicou uma análise sugerindo que o resultado teria sido inevitável e desejável. Collins opôs-se através das redes sociais e a Crux ofereceu-lhe a oportunidade de resposta, que segue abaixo.]

Eis o artigo.

Em primeiro lugar, quero agradecer à Crux pelo direito de resposta. Embora no artigo eu esteja junto com Peter Saunders, represento somente a mim mesma aqui.

Fiquei bastante incomodada ao ler o artigo, pois, em muitos casos, John Allen fala como se conhecesse os meus sentimentos e pensamentos em determinadas situações. Achei isso não somente equivocado, como também arrogante.

A afirmação de que a minha renúncia era "inevitável" certamente não é verdade. Não houve "inevitabilidade" na minha saída, a menos que Allen já soubesse de homens na Cúria Romana obstruindo a comissão, e eu me recusaria a acobertá-los!

Eu aceitei a minha nomeação para a Pontifícia Comissão com toda a intenção de permanecer durante todo o mandato.

O artigo parece supor que por eu ter sido abusada sexualmente por um padre na infância eu sou incapaz de pensar ou agir de forma independente, que preciso estar sempre cuidando como minhas palavras ou ações podem ser vistas por sobreviventes fora da comissão, e também afirmou que eu fui colocada em um "lugar politicamente insustentável".

Se Allen conhecesse a mim e ao meu histórico de mais de vinte anos na proteção de crianças, ele saberia que eu sempre me mantive afastada da "política", tanto da Igreja e quanto dos sobreviventes. Tenho me preocupado somente em trazer uma melhor compreensão dos efeitos dos abusos sobre a vida das vítimas e uma melhor proteção dos vulneráveis.

Eu sempre segui a minha própria consciência e não me vejo como representante de qualquer grupo, o que algumas vezes irritou sobreviventes, mas nunca me desviou da minha determinação de ser independente.

Allen afirma que a minha seleção para nomeação da comissão foi, em partes, para que "a credibilidade na comunidade de sobreviventes se traduzisse na comissão papal". Se isso for verdade (cujas fontes desconheço), seria um enorme engano daqueles que falaram comigo em nome do papa antes de eu aceitar a nomeação.

Eu tinha clareza de que não queria ser uma sobrevivente "simbólica" para dar "credibilidade", o que foi garantido a mim não ser o caso.

Eu fui convidada para trazer para a Comissão o meu entendimento pessoal sobre abuso como sobrevivente, já que essa perspectiva era de importância vital para o trabalho.

Eu havia sido escolhida especificamente pela minha experiência de trabalhar na defesa de desenvolvimento de políticas, meu envolvimento na criação de um escritório diocesano de proteção infantil, em projetos educativos sobre a proteção infantil e em resposta à minha participação no Simpósio de 2012 sobre abuso realizado na Universidade Gregoriana.

Portanto, eu era qualificada para trabalhar no desenvolvimento de políticas, para transmitir a compreensão da experiência do sobrevivente e já tinha demonstrado minha capacidade de trabalhar com a Igreja. Se tudo isso era mentira, os clérigos que declararam isto a mim deveriam ter vergonha! Validaria a acusação de que a Igreja só se preocupa com a aparência, e não com a realidade.

Em todos os momentos durante o meu mandato na Comissão o Cardeal Sean O'Malley de Boston [presidente da comissão] e os membros da comissão me trataram com respeito como igual, trabalhando em prol de uma melhor proteção das crianças. Eu certamente nunca senti que a minha contribuição fosse vista como apenas um nome na lista de membros!

Allen afirma que foi "difícil" para mim, por vezes, "saber até que ponto falar publicamente". Posso dizer sem hesitação que em nenhum momento tive qualquer dificuldade em discernir o que eu podia ou não podia dizer em público. Respeitei as regras de confidencialidade de acordo com os estatutos da comissão em todos os momentos e não teria aceitado a nomeação se achasse que eu não era capaz de fazê-lo.

A afirmação de que os sobreviventes "nunca estarão satisfeitos" no contexto do artigo implica que eu nunca estaria satisfeita e que, de alguma forma, esta era a motivação para a minha saída. Se todas as dioceses da Igreja reproduzissem suas políticas e implementação, como fizeram algumas dioceses, como a Arquidiocese de Dublin, na Irlanda, poderíamos estar em uma posição muito melhor.

O que eu digo é que ninguém, na Igreja ou no mundo secular, deve ser complacente com a segurança das crianças ou de adultos vulneráveis.

Por fim, sobre a entrada futura de sobreviventes na comissão, Allen diz que minha renúncia "poderia significar uma transição para uma forma mais honesta, mais livre e menos pessoal". Garanto a qualquer um que fui honesta e livre em todos os momentos, e não perdi meu tempo com uma "afetação pessoal".

O artigo claramente utiliza uma estratégia comum: em caso de dificuldades, desviar a atenção do problema real. Os sobreviventes da comissão não são o problema, a resistência à mudança por parte dos clérigos da Cúria é o verdadeiro problema!

Um novo estudo mostra que há 4.000 mulheres estrangeiras que estudam ou trabalham com religião nos Estados Unidos, seguindo uma onda crescente de padres estrangeiros. Embora haja dor de cabeça, estes ministros são embaixadores de 94% do mundo católico não estadunidense.

Se o catolicismo estadunidense tem um calcanhar de Aquiles, ele se encontra em um sentido mais brando de como nos encaixamos no restante do mundo católico. Um pouco de matemática básica ajudará a explicar por que isso é um problema.

No início de 2017, havia pouco menos de 1,3 bilhão de católicos no mundo e cerca de 70 milhões nos Estados Unidos. Por mais que isso torne os EUA a quarta maior nação católica do mundo, depois do Brasil, do México e das Filipinas, também significa que representamos menos de 6% da população católica mundial.

Dito de outra forma, 94% dos católicos no mundo não são como nós.

Dois terços desses 1,3 bilhão de católicos vivem atualmente fora do Ocidente, uma parcela que chegará a três quartos até a metade do século. Há duas vezes mais católicos hoje na África subsaariana do que na América do Norte, uma lacuna que cresce a cada dia, e quase o dobro na Ásia.

Com base nisso, uma ideia central sobre a vida católica no início do século XXI é que as experiências, prioridades e perspectivas dos EUA nem sempre podem definir o tom, porque nem todo mundo vê o mundo da mesma forma que os estadunidenses, e nós não somos mais os maiorais.

Tudo isso vem à mente de acordo com um novo estudo divulgado esta semana, antes da Semana Nacional das Irmãs Católicas, que acontece de 8 a 14 de março, mostrando que há mais de 4.000 freiras estrangeiras estudando ou servindo nos Estados Unidos, parte de uma "missão inversa", do Terceiro Mundo para o Primeiro.

Em média, de acordo com as conclusões do estudo, essas irmãs são bem mais jovens do que a média estadunidense e também altamente escolarizadas, já que 73% delas são, no mínimo, graduadas. A Ásia é o principal continente de origem, mas elas vêm de todas as partes do mundo, além do que já se sabe sobre a crescente presença de sacerdotes estrangeiros nos Estados Unidos.

Hoje, aproximadamente um quarto de todos os padres diocesanos dos EUA vem de outros países e três em cada dez padres estadunidenses ordenados em 2016 nasceram fora do país.

Estatisticamente falando, é evidente que o futuro do ministério pastoral nos EUA ficará cada vez mais nas mãos de não-nativos.

Às vezes, essas tendências assustam alguns católicos estadunidenses. Alguns temem que estejamos cometendo um erro quanto à responsabilidade das nossas próprias vocações e outros reclamam que irmãs e padres estrangeiros às vezes não se ajustam bem às expectativas culturais estadunidenses e não se adequam no nível de base.

Minha falecida avó, por exemplo, às vezes reclamava que tinha dificuldade em entender o padre Fidei Donum, natural da Birmânia, em sua pequena paróquia no oeste do Kansas, e que em outros casos já deveria integrar um posto avançado itinerante há muito tempo, devido ao seu sotaque estrangeiro. (Na realidade, ela teimava em não comprar aparelhos auditivos melhores e, francamente, não conseguia entender ninguém, nem eu, na maioria das vezes.)

Outros ainda temem que uma crescente dependência de freiras e padres estrangeiros pode causar uma "fuga de cérebros" das igrejas dos países em desenvolvimento, tirando equipes de lugares que precisam desses recursos humanos muito mais do que nós.

Todas elas são preocupações válidas, a princípio. Os católicos estadunidenses obviamente deveriam encorajar vocações dos EUA. Precisamos promover a adaptação cultural dos ministros estrangeiros que servem aqui e também precisamos ter cuidado para não explorar a pobreza material das igrejas locais em outras partes do mundo para satisfazer os nossos próprios desejos.

O Cardeal John Onaiyekan, de Abuja, Nigéria, que não é de meias palavras, uma vez falou deste ponto de forma vintage. Ele estava falando sobre a Europa, mas poderia estar falando dos Estados Unidos.

"O que não queremos é entrar em um Gastarbeiter, em que um padre europeu sente-se sobrecarregado por ter de rezar três missas no domingo e quer que um negro o faça", disse Onaiyekan. "Certamente não é aí que a Igreja quer chegar, onde as pessoas pobres fazem o trabalho que os ricos não querem, como hoje acontece em outras esferas da vida."

No entanto, há também uma enorme vantagem na crescente presença de irmãs e padres estrangeiros no país.

Em primeiro lugar, há o argumento óbvio de que, sob muitos aspectos, a Igreja daqui paralisaria progressivamente sem eles, que ajudam a manter nossas paróquias, escolas, hospitais e outras instituições católicas não só funcionando, mas dinâmicos e vivos.
Além disso, eles também estão conosco como embaixadores dos outros 94% do mundo católico. Eles podem informar os debates sobre coisas com que já nos preocupamos e também nos ajudar a entender por que nossas inquietações não são necessariamente as do resto do mundo católico.

Entre muitas outras coisas, eles podem nos ajudar a entender o que realmente significa a perseguição anticristã - não apenas nativos desalojados pelos tribunais ou disputas sobre coberturas de seguro, mas o que significa, literalmente, levar a vida nas mãos a cada saída para ir à igreja no domingo. Eles podem oferecer diferentes perspectivas sobre o que já estamos discutindo, sendo Amoris Laetitia um grande exemplo, e também abrir nossos olhos sobre o porquê de essas questões, por vezes, atingirem grande parte do resto do mundo católico de maneira tão insular.

Naturalmente, há coisas que clérigos e irmãs estrangeiros podem aprender com a igreja estadunidense também. Boas práticas em gestão financeira e políticas antiabuso, que às vezes estão atrasadas em outros países, são apenas exemplos importantes.
O ponto principal, contudo, é que talvez a presença de freiras e padres estrangeiros ofereça ao catolicismo estadunidense a única grande oportunidade para a formação da fé sobre a vida na Igreja no século XXI que poderíamos imaginar.
Espero que tenhamos criatividade suficiente para aproveitar.

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