Escândalos de pedofilia na Igreja Católica: Arcebispo de Sydney fala sobre legado de vergonha e repulsa

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14 Fevereiro 2017

Envergonhado. Humilhado. Um golpe nas entranhas. São algumas das palavras que o arcebispo de Sydney, Dom Anthony Fisher, empregou para descrever sua reação, e a reação de muitos membros do clero, aos novos dados sobre a extensão de casos de abuso sexual infantil na Igreja Católica.

A reportagem é de Jordan Baker, publicada por The Daily Telegraph, 11-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em uma franca entrevista que marca um rompimento com a abordagem mais reservada de seu antecessor, o Cardeal George Pell, Fisher admitiu que ele e outros do clero se sentiam contaminados, traídos e desmoralizados por causa dos casos de pedofilia na Igreja.

Disse também compreender por que muitos australianos se sentem tão zangados.

“Nós sabíamos que o relatório seria ruim, mas ele é também humilhante, angustiante”, falou.

“Achamos que o sacerdócio foi humilhado, que a confiança das pessoas se rompeu, que essa confiança em nós está inegavelmente abalada. Muito me magoa, e magoa muitos padres e bispos. Mas isso não é nada comparado com a mágoa causada aos sobreviventes”.

A Comissão Real para Respostas Institucionais a Casos de Abuso Sexual Infantil divulgou números esta semana sobre a extensão dos supostos abusos cometidos na Igreja Católica.

Os dados são chocantes: 7% dos padres haviam sido acusados, e em algumas ordens religiosas os índices ficavam entre 20 e 40%. Entre 1980 e 2015, aproximadamente 4.444 pessoas relataram terem sido vítimas, identificando 1.880 perpetradores.

A Igreja cooperou com a Comissão real. Num processo que durou quase um ano, todas as dioceses e ordens religiosas compilaram e apresentaram os seus registros históricos.

No sábado, os investigadores da Comissão ainda estavam analisando os dados, e os bispos católicos só ficaram sabendo dos números finais no domingo à noite.

“Eu me sinto – e provavelmente isso aconteça com praticamente todos os bispos e o clero – sem fôlego”, disse Fisher no momento em que soube dos dados atualizados.

“Ouvimos histórias individuais e, em certo sentido, elas são mais tocantes do que os números, mas quando reunimos tudo isso num único quadro, é simplesmente horrível”.

O arcebispo disse que conversou com muitos dos membros do clero e informou que eles estão “se sentindo traídos, desmoralizados”.

“Essas pessoas têm doado suas vidas a Deus, elas têm dado todo que podem dar, todo o seu melhor. De alguma forma, elas se sentem envergonhadas; estão meio que contaminadas por essas coisas que acontecem. E portanto parte da minha tarefa com os padres é dizer: ‘O povo ainda ama vocês, a Igreja ainda ama vocês, vocês estão tentando dar o melhor’”.

A reação entre a comunidade tem variado desde uma reação defensiva por parte de alguns fiéis à completa desilusão para com a Igreja entre os não crentes – para quem a palavra “padre” se tornou sinônimo de pedófilo.

Fisher disse que, em certo sentido, ambos estão certos.

“Essa situação é tão horrível que perdemos a perspectiva de todo o resto. Nas coisas realmente boas (as escolas para crianças carentes, os orfanatos, hospitais) onde não houve nada de errado, têm ações maravilhosas que a igreja, e não só a Igreja Católica, fez para construir a infraestrutura social da Austrália”, disse.

“Mas, por outro lado, têm aquelas pessoas que estavam investidas de confiança e reverência e que se comportaram daquele jeito, isso é profundamente decepcionante. Em certo sentido, não culpo os que hoje nos criticam. Entendo que o povo em geral se sinta zangado, querendo culpar todos os bispos, todos os padres, todos os católicos, os dois mil anos de cristianismo.

“Elas têm uma grande expectativa junto à Igreja. Isso é uma espécie de respeito, de que elas queriam mais, queriam algo melhor, e ao invés disso acabaram sendo traídas, e portanto estão zangadas”.

O motivo por que a Igreja Católica conta com tantos casos de abuso sexual ainda está sob debate. Fisher, porém, tem algumas teorias.

Nas décadas de 1950 e 1960, as igrejas estavam fazendo grande parte do trabalho de bem-estar social do país, com escolas e orfanatos. Assim, os predadores as viram como um caminho fácil de acessar às crianças.

A revolução sexual estava a caminho na mesma época, ao mesmo tempo em que o Concílio Vaticano II enviava os padres, as freiras e os religiosos consagrados para fora dos conventos e para dentro do mundo, desse modo “todo mundo ficou confuso sobre as identidades sacerdotais, as expectativas e os limites”, disse o prelado.

“Acho que naqueles dias nós não fazíamos um bom trabalho sobre quem poderia realmente estar envolvido nestes ministérios e quem não poderia – quem havia chegado à maturidade em termos psicossexuais, humanos, etc.”.

Havia também uma cultura de acobertamento. Não só na Igreja Católica, segundo o arcebispo, mas em toda a elite australiana, incluindo os profissionais das áreas jurídica, médica e política.

“Tudo era silenciado, havia uma espécie de acordo implícito”, disse.

Fisher falou também que a Comissão Real tem sido um elemento importante para a Igreja porque a tem forçado a encarar a escuridão de seu passado, e porque tem dado aos sobreviventes uma oportunidade de, publicamente, compartilhar suas histórias.

Todavia, pode levar gerações até que a Igreja reconquiste a confiança pública.

“Até o momento em que dermos uma garantia de que estamos encarando de frente essa situação, que estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance, que estamos determinados a nunca deixar estas coisas acontecerem de novo, e até que isso não seja apenas palavras, mas que as pessoas vejam acontecendo na prática – aí este momento vamos ter um problema de credibilidade, inclusive entre os nossos fiéis”, disse o arcebispo australiano.

Cada passo que a Igreja der será observado de perto. “Estamos sendo escrutinados, e merecemos que assim seja”.

O arcebispo disse que não poderia garantir que a Igreja está “100%” limpa. “Mas eu coloquei em prática tudo o que pude pensar para evitar que casos como estes aconteçam novamente”, disse.

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