Qual o significado da proibição a refugiados sírios para cristãos como Stefano?

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30 Janeiro 2017

Na esteira da decisão de Donald Trump de suspender indefinidamente o assentamento de refugiados sírios, podemos nos perguntar quanto ao impacto que este movimento terá sobre os cristãos sírios como Stefano – intelectual de 30 e poucos anos que sonha traduzir Urs von Balthasar, que enfrentou ameaças de morte por parte de familiares por ter se convertido ao cristianismo e que espera chegar aos Estados Unidos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 28-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Quando surgiu a notícia da ordem executiva do presidente Donald Trump de suspender por tempo indeterminado a admissão de refugiados sírios aos EUA, movimento supostamente justificado pela necessidade garantir que terroristas em potencial não estejam vindo juntos deles, lembrei de um encontro marcante que minha colega Inés San Martín e eu tivemos no Egito em junho de 2015.

Estávamos nesse país para uma série de reportagens sobre perseguições contra cristãos ao redor do mundo, o que também nos levou a Colômbia, El Salvador, Índia e Nigéria. No Cairo, encontramos um jovem chamado “Stefano”, cristão sírio de 30 e poucos anos que buscava permissão dos EUA para que ele e sua esposa entrassem no país.

“Stefano”, evidentemente, não era o nome verdadeiro dele, mas um nome que adotou na esperança de tornar-se mais aceitável como candidato a refúgio.

Durante um jantar certa noite, ele nos contou a sua história de vida. Nasceu em uma família muçulmana na Síria, mas sempre teve um profundo senso espiritual, e, em algum momento, a sua jornada de descobertas o levou ao cristianismo e à Igreja Católica. Converteu-se, enfrentando ameaças de morte proferidas por familiares em decorrência.

Stefano também tem uma mente afiada, e não se contentou em ser aceito na comunidade cristã. Logo começou a estudar a tradição intelectual católica, em grande parte por si próprio, e se tornou especialmente familiarizado com as obras do teólogo suíço Hans Urs von Balthasar, um dos favoritos do Papa Emérito Bento XVI.

Contou-nos que a ambição de sua vida é traduzir para o árabe as obras de von Balthasar, convencido de que os escritos deste autor sobre estética teológica podem ser um instrumento evangelizador poderoso nas culturas islâmicas acostumadas com a iconoclastia.

A essa altura, Stefano já era fluente em inglês, alemão e italiano além do árabe, seu idioma nativo, o que significa que obviamente possui habilidades linguísticas para bem adaptar-se a uma vida no exterior. Se este homem é um terrorista em potencial, em outras palavras, então o termo perdeu todo o seu sentido.

Enquanto isso, Stefano casou-se e sua esposa também acolheu o cristianismo, mais uma vez sendo repudiada e ameaçada pela família. Quando sentiram que a situação havia chegado a um tal ponto que não era mais seguro permanecer no local, fugiram da Síria no caminhão de um amigo, inicialmente chegando ao Líbano e, então, dirigindo-se até o Cairo.

Stefano inscreveu-se no programa de refugiados junto ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados – ACNUR, que remeteu o caso aos EUA. Na época que conversamos, ele estava completamente comprometido em se tornar cidadão americano, saboreando a ideia de juntar-se à rica tradição católica do país.

No entanto, o seu passaporte sírio estava prestes a expirar, e veio a preocupação de ser deportado pelas autoridades egípcias para o a Síria para enfrentar aquilo que quase certamente seria uma sentença de morte.

Stefano foi um dos que estavam sorte. Foi apresentado a um católico egípcio rico que estava agindo como o seu padrinho, e na noite em que nos reunimos, jantamos num adorável restaurante italiano localizado no Hotel Quatro Estações na capital egípcia.

Eu me pus a fazer por Stefano o que estivesse ao meu alcance, pondo-o em contato com amigos que trabalham em programas de reassentamento para refugiados nos EUA.

Começou-se uma demorada ida e volta de informações, em grande parte realizada por email, em que os meus amigos tentaram explicar os obstáculos legais, e Stefano ficou, cada vez mais, frustrado e amargurado – incapaz de compreender por que os EUA não estariam felizes em auxiliar alguém que tão obviamente vinha passando por perseguições em decorrência da fé cristã, e que claramente teria tanto a oferecer ao seu país adotivo.

No fim, Stefano encerrou a troca de emails, e hoje não tenho ideia de onde ele se encontra. Meu último contato foi sugeri-lo a uma alta autoridade da Igreja Católica na Áustria, quem escreveu para dizer que se os EUA não ajudassem, talvez eles pudessem, sob os termos de um acordo firmado com o governo austríaco sob os auspícios do Cardeal Christoph Schönborn, de Viena.

Depois disso, não ouvi mais nada.

Rezo para que Stefano esteja bem, que ele e sua esposa estejam seguros e que esteja em condições de prosseguir o trabalho com as obras de von Balthasar e todos as outas contribuições que, sei, poderia dar como teólogo e especialista nas relações entre católicos e muçulmanos.

Também estou orando para que os EUA possam chegar a um ponto rapidamente onde seja possível fazer distinções inteligentes entre os Stefanos do mundo, que são candidatos merecedores de entrar no país, e aqueles que não o são. Isso, aliás, aplica-se não só aos cristãos como Stefano, mas também a todos os muçulmanos sírios que estão horrorizados com o terrorismo e o ódio religioso – e que estão buscando um porto seguro na tempestade.

Em entrevista na sexta-feira à rede televisiva Christian Broadcasting Network – CBN, Trump pareceu sugerir que os cristãos sírios que estão sendo perseguidos ganhariam o status de prioridade nos pedidos de refúgio.

“Você sabe que se você fosse um cristão na Síria era impossível, pelo menos muito difícil, entrar nos EUA?”, disse Trump, referindo-se como era a situação durante o governo Obama.

“Se você fosse muçulmano, poderia vir. Mas se fosse cristão, era quase impossível e a razão disso era tão injusta. Eles estavam cortando as cabeças de todo mundo, mas mais dos cristãos. Acho que essa situação tão, tão injusta. Então, nós vamos ajudá-los”, disse.

Claro, a noção de que era fácil para um muçulmano sírio entrar no país durante o governo Obama é um pouco exagerada, mas, mesmo assim, a ideia de dar uma preferência às minorias perseguidas é louvável.

Esperamos que essa fala seja mais do que uma simples retórica – que qualquer ação tomada ocorra em tempo de ser uma ajuda significativa para pessoas como Stefano, e todos os demais sírios trabalhadores, cuidadosos, decentes, qualquer que seja a opção religiosa.

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